Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 42 - Sinal da vela

A felicidade não está alicerçada nos bens materiais, mas no humor e bem estar espiritual...

Tenho um amigo que afirma ser feliz por ter uma esposa, filhos e netos. Conheço um boêmio que jura ser o homem mais alegre do mundo porque é solteiro, não tem mulher e muito menos filhos. A felicidade está dentro de quem aceita e gosta do que tem, podendo ser a numerosa família ou a liberdade de não ter compromisso com ninguém. O conceito é paradoxal.

A residência da infelicidade, ao contrário, tem como principal causa, a perda daquilo que o faz crer ser feliz. E pode a felicidade perdida ser readquirida pela fé? Acho que sim. Leiam essa história:

O domingo estava lindo, ensolarado e quente. O Nilson, de calção, sem sapatos e camisa, se mantinha debaixo de uma barraca à beira da piscina do clube que costumava freqüentar, ouvindo e contando lorotas descontraídas com alguns amigos, à guisa de esquecer seus afazeres semanais. A Eva, sua esposa, tinha ficado em casa. O Nilsinho, seu único filho, com oito anos, brincava e nadava na água clorada da piscina. Estava tudo perfeito e aprazível. Foi quando o Nilson ouviu gritos desesperados de uma mulher que apontava para o fundo da piscina. Todos, curiosos e no afã de serem úteis, se acercaram dela. O Nilson, pela água, viu, no fundo da piscina, o corpo do seu filho Nilsinho.

O Nilson era meu amigo e fui comunicado do trágico acontecimento. Chegando em sua casa, onde todos os amigos e familiares já cercavam o guapo Nilson e sua esposa, fui, como é natural, envolvido no sofrimento do casal e seus avós. O menino de oito anos, tinha morrido afogado em uma piscina. Não há quem não se envolva com emoção em casos que o espectro da morte faz cumprir essa divina, mas atemorizada lei, quase sempre não entendida por nós. Na ocasião, eu era mais jovem e, conseqüentemente, mais forte, mas mesmo assim, tive que fazer muito esforço para amparar o meu amigo nos ombros, dado seu corpo avantajado. Passado o funeral, no dia seguinte, fui levar minha solidariedade ao triste casal. Nada pude fazer ou dizer para apaziguar a dor do acontecimento, exceto oferecer os préstimos do meu grupo de trabalho espiritual. O casal, buscando um lenitivo, acedeu ao convite e passou a freqüentar assiduamente nossos trabalhos espirituais.

Em uma das reuniões o Nilson aparentando uma emoção muito grande levava com um carinho especial um pequeno embrulho de papel de seda, que parecia estar aninhado em suas duas avantajas mãos em concha. Seus olhos torneados por grossas sobrancelhas brilhavam com visíveis lágrimas. Vez ou outra uma lágrima escorria em seu grosso bigode preto. Sua esposa começou a desembrulhar o pequeno embrulho. A medida que ia abrindo o papel de seda suas mãos pareciam estar desfolhando uma delicada flor. Seus lábios mantinham um sorriso, e seu semblante demonstrava estar vivendo naquele momento um êxtase divino. Todo nosso grupo estava em volta do casal, aguardando com curiosidade o aparecimento do conteúdo do misterioso embrulho.

O Nilson falava emocionado:

- Vocês vão ver a benção de Deus que tivemos.

Aberto o pacote, dentro de um enfeitado estojo estava a escultura de um anjo com enormes asas. Um trabalho muito bonito e bem feito e até de certa forma comum no comércio do ramo, exceto não fosse ele estar esculpido em cera de vela derretida. Olhamos assombrados para o casal, que agora já não conseguia conter a emoção deixando correr as lágrimas pelos seus rostos.

- Hoje acendi uma vela para meu filho. Vejam o que ficou no prato,. É o sinal que ele está vivo e vai retornar a nós. Explicou o Nilson.

A fé transformou a vida daquele casal. Decorrido algum tempo, encontrei o Nilson. Estava feliz e sob forte abraço disse eufórico:

- Meu filho voltou para mim. Minha mulher está grávida.

Que Deus abençoe todos que conhecem sua maior magia: a fé!

Bandeira da Amizade