Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 41 - Os animais tem alma?

Já morri várias vezes, mas não me lembro do céu. Tenho uma idéia do inferno, mais compatível comigo.

É mais fácil imaginar um tridente, um caldeirão, as labaredas e um homem magro, com cavanhaque, mostrando os crifres e a ponta do rabo. Do céu, não tenho a mínima idéia como possa ser. Como será? Terá árvores, riachos, brisa, luz, animais, ou suaves cantos de pássaros ? Ou será um lugar vazio, temperatura amena, cheio de nuvens, servindo para os querubins ficarem sentados e dedilharem suas harpas, anunciando ser qü o paraíso?

Se no céu não existir as árvores, os riachos, a brisa, a luz, os pássaros cantando, e os animais, não quero ir para lá!

Acredito que os animais têm alma. O tema é polêmico. Devia merecer um estudo mais minucioso das elites cultas. Enquanto uns alardeiam que eles têm alma, igual a nós, outros afirmam só possuírem o cascão que desaparece com a morte.

No livro “Nosso Lar” do Francisco Cândido, ditado pelo iluminado espírito do André Luiz, na página 183, ele descreve uma cena no espaço: “Identifiquei a caravana que avançava em nossa direção, sob a claridade branda do céu. De repente, ouvi o ladrar de cães à grande distância. Que é isso? – interroguei, assombrado. Disse Narcisa – são auxiliares preciosos nas regiões obscuras do Umbral, onde não estacionam somente os homens desencarnados, mas verdadeiros monstros, que não cabe agora descrever.” Mais adiante continua: “seis grandes carros, formato diligência, precedidos de matilhas de cães alegres e bulhentos, eram tirados por animais que, mesmo de longe, me pareceram iguais aos muares terrestres. Mas a nota interessante era os grande bandos de aves, de corpo volumoso, que voavam a curta distância, acima dos carros, produzindo ruídos singulares.”

Os umbandistas alardeiam que os Oguns vêm em seus cavalos brancos. Já não é um motivo para refletirmos se os animais têm ou não alma?

Minha filha Lucilia, estava começando a balbuciar suas primeira palavras. Já dizia mamãe. Papai ainda não, embora eu desconfiasse que ela soubesse e só não dizia para me contrariar. Deitada na cama, enquanto a Yedda trocava sua fralda, ela levantava os pequenos braços para cima, como se quisesse pegar algo no ar, dando a impressão de estar vendo alguma coisa que nós adultos não víamos, e com pequenas e delicadas gargalhadas, em perfeita coordenação com os gestos, falava:

- Dandy...Dandy... – e ria.

Minha mulher e eu trocamos olhares. Dandy era o nome de um belíssimo cão Setter Irlandês que um mês antes foi morto a tiros por ladrões que invadiram nossa casa.

- Ela está vendo o espírito do Dandy. Falei, assustado.

Cães, conheço bem. Raciocinam e têm alma, não tenho dúvidas. E se os cães têm, porque não terá o pequeno rouxinol ou o elegante peixe ou a peçonhenta cobra, e todos do mundo animal?

Se os homens, ao morrer, levam consigo seu estado espiritual, atrasados ou evoluídos, não pode acontecer o mesmo com os pássaros e animais? Se uma larva é mais atrasada que um cavalo, ao morrer, não permanecerão no plano espiritual sob o mesmo processo evolutivo da reencarnação?

Quero que os cães tenham alma, pois pretendo, depois de morto, que eles continuem em minha companhia.

O Caboclo Akuan tem, como sua companheira, uma águia. Os oguns sempre estão montados em cavalos. Os trevosos têm na cobra a companhia predileta. Os gatos, os cães e os cavalos são reconhecidamente videntes, enxergando os espíritos, o que demonstra possuírem a terceira visão, a qual, no homem está alojada no chacra espiritual. Se existe nos animais o terceiro olho, ele tem que estar também dentro do espírito, igual ao homem, o que reforça a tese que eles têm alma e podem sobreviver à morte.

Dando consulta para uma moça, o Caboclo Akuan perguntou:

- Você está muito triste com a morte dele?

Demonstrando surpresa, a consulente explicou:

- Acho que o senhor vai me entender. Foi meu gato que morreu, e senti muito sua morte. Não posso evitar. Tentou justificar.

- Pode chorar se quiser, e eu entendo você muito bem. Os animais também são nossos irmãos. Falou, com muito carinho.

Outro dia o caboclo Akuan fez um trabalho especial para um gato com câncer no intestino com o mesmo empenho que faz nas pessoas que sofrem de mal semelhante.

Entre os espíritos, mesmo que pareça fantasia, existe o bom humor e as passagens hilariantes.

O cigano Woisler tem sua vida baseada em cavalos. Ama os qüídeos, afirmando ter sido descendente de uma família de ladrões de cavalos. E alardeia isso com transparente gabolice. Conta várias histórias sobre esse assunto, dentre as quais, que seu transporte para vir no terreiro é um cavalo preto. Numa gira, incorporou sem sua habitual harmonia. Indagado pela Sandra porque estava triste, respondeu, sem jeito:

- Estou sem cavalo.

- Que aconteceu com o seu ?

- O Akuan tirou de mim. Respondeu amuado.

- E por quê?

- Porque eu quis roubar o cavalo dele.

- Mas cigano, roubar o cavalo do Caboclo Akuan? Que idéia! Disse, rindo, a cambono.

- Eu queria aquele cavalo branco. Ele é lindo. E o pior não foi isso. Além de ter ficado sem o meu cavalo, vim a pé para o terreiro, acompanhado por uma falange de pretos-velho, enfileirados atrás de mim, rezando para eu me regenerar. Foi humilhante. Queixou-se, abatido.

Passado alguns meses, o Caboclo Akuan, rindo, disse que tinha devolvido o cavalo para o cigano.

- É para ele nunca mais cometer essa ousadia.

Se aconteceu, não sei. Como espírito não brinca, considero essa passagem como uma prova da existência da alma dos cavalos, sinalizando eu estar certo nas minhas convicções.

Bandeira da Amizade