Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 40 - Uma oferta ao espírito

Será que o Amalá, a grande arma da umbanda, está condicionado na lei da troca, ou seja, eu te dou de comer e você atende meu pedido?

Vamos ver. Recebi um telefonema:

- Fernando, aqui é o Floriano. Identificou-se, como se precisasse, sendo ele meu irmão de carne. O filho de um amigo meu teve um acidente e está em coma, na UTI, já desenganado. Ele, desesperado, quer uma ajuda sua.

- Ligou no dia certo, hoje temos trabalho...

- É, eu sei. Por isso estou telefonando. Interrompeu.

- É trabalho na linha dos caboclos, gira especial para pedir este tipo de ajuda.

Tomei nota do nome do rapaz, idade e endereço do hospital onde estava internado. À noite, esclareci meus cambonos sobre como deveriam proceder para receber uma orientação do Caboclo. Assim foi feito.

- Sêo Junco Verde – disse a cambono, O nome anotado neste papel é de um rapaz que está muito doente no hospital, já desenganado pelos médicos da terra. O senhor pode fazer algo por ele?

O Caboclo pôs o papel em seu ponto riscado e disse à cambono que depois daria uma orientação. Antes do final do trabalho, ele recomendou que ela tomasse nota de um trabalho para o rapaz.

- Uma moganga assada, com milho. Abacate, maracujá, melancia, melão, abacaxi, ameixa e outra fruta do gosto do meu cavalo. Sete charutos, uma caixa de fósforos, sete velas brancas, sete verdes e cevada. – Faça uma entrega, não precisando escrever nada, apenas pense e ore pelo menino, disse.

Procurei um lugar adequado para fazer a entrega – o amalá. Escolhi o lugar, na entrada de uma mata, embaixo de uma figueira frondosa. Na relva, iniciei a montagem da entrega. Como não gosto de deixar no mato materiais não biodegradáveis, cortei três folhas de bananeira. Cuidadosamente, deixei-as como base. Em cima coloquei a moganga com milho, ajeitei as frutas ao lado, procurando construir a entrega do jeito mais bonito possível. No copo de casca de coco – coitê, depositei a cerveja. Pus os charutos no trabalho, cerquei-o com as velas, alternadas nas cores, de forma tal que fechassem um circulo bem harmonioso. Acendi-as e depositei a caixa de fósforos, entreaberta. Cantei o ponto de Oxóssi, do Caboclo Junco Verde, fiz uma oração, pedi a cura do moço, quando percebi, intuitivamente, o Caboclo dizendo-me que, em vinte e um dias ele sairia do coma e conseqüentemente ficaria curado. Agradeci,e afastei-me respeitosamente.

Dei a notícia ao Floriano, pedindo que não dissesse nada aos pais do moço, pois diante da gravidade de seu estado de saúde, alguma coisa poderia dar errado e eu não achava justo dar falsas esperanças. No dia seguinte, recebi um telefonema do pai do rapaz que dizia eufórico:

- Fernando, obrigado! Já contei para todos que em vinte um dias meu filho vai estar curado.

Claro, o segredo não foi guardado. Exatamente vinte e um dias após, o rapaz acordou. E hoje está completamente curado. Mas, o importante nesta história, não é a cura e sim o amalá. Como ele funciona? O espírito come e bebe? É guloso e beberrão? Se nada ganhar, nada fará? Vou entrar no faz-de-conta e estou vendo o desenrolar da entrega no mato, como me foi contada pelo próprio Caboclo Junco Verde. Durante a construção do Amalá, uma faixa de luz era para ele direcionada, vindo do infinito. Do trabalho emergiam vibrações semelhantes. Era a força cósmica do orixá Oxóssi, que foi atraída pelas vibrações semelhantes aos das comidas ofertadas. De longe, a tudo assistindo, o Caboclo Junco Verde permanecia em pé, dentro do mato. Quando acendi as velas e cantei o ponto de Oxóssi, a troca de energias, a cósmica e do trabalho, se intensificaram, criando, em volta da oferenda uma massa energética maravilhosa, de luz cintilante, e girava em torno do trabalho. Vários índios estavam em volta, mantendo pequena distância. Quando cantei o ponto do Caboclo Junco Verde ele saiu do mato, aproximou-se e cumprimentou aqueles maravilhosos espíritos indígenas. Todos se ajoelharam em volta do trabalho, e largaram suas energias, que se somavam à já existente. Ela foi se condensando, e era manipulada pelo Caboclo Junco Verde, até que todos ficaram em pé e ele, com aquela energias em suas mãos, foi até o mato, de onde saiu um outro índio, um Pajé, por todos reverenciado. Pegou toda aquela energia e sumiu com ela para dentro do mato. Esta energia de Oxóssi, do material que compunha o amalá, foi usada para curar o doente no Hospital. Okê Odê, Oxóssi.

Bandeira da Amizade