Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 12 dezembro de 2017

Capítulo 4 - Grupo Kardecista

Um novo grupo de trabalho estava se formando, e eu fazia parte dos planos dos fundadores, todos meus amigos.

Apesar do meu temperamento de não hesitar, sempre atraído pelo desafio de me confrontar com o desconhecido, fiquei em dúvida para dar resposta ao convite. Minha vontade era ser um espiritualista independente, afastado de qualquer compromisso religioso.

Recolhido em minha sala, sozinho e pensativo, senti a presença de uma entidade amiga. Busquei o contato através da psicografia. Com lápis e papel na mesa, deixei minha mão correr. Foi uma mensagem trivial: "entre tantas coisas, só Deus é Verdade". Achei o texto muito simples, e como aprendi a respeitar os sinais dos espíritos, fui buscar o que havia por trás dela, e descobri que todos nós sabemos e dizemos que todas as religiões são boas. Inverti o sentido desta frase: todas as religiões são imperfeitas, por chegarem a nós através da palavra de um encarnado, e nunca pela voz direta da Divindade. Tornou-se cristalina a mensagem: todos nós temos necessidade de uma religião, aqui no mundo material, com a consciência de serem todas imperfeitas, não cabendo a nenhuma o rótulo da Verdade. Cada um de nós deve se encaixar naquela que mais lhe agrada, tomando o cuidado com as que fogem dos princípios do amor e da caridade. Não tinha mais dúvidas que iria continuar trilhando uma religião: a espírita.

Juntei-me ao novo grupo, no qual fiquei vinte e cinco anos. O dedicado estudo do espiritismo e a interação teórica e prática com personalidades reconhecidamente cultas da religião trouxeram-me um bom conhecimento do mundo espiritual, desde a simples manifestação do espírito incorporado, até o entendimento claro da fonte e a causa de todos os desequilíbrios da mediunidade: a aura.

Meu conhecimento, pela minha própria vontade, não era profundo e técnico; era mais voltado para o sentido prático. Não me interessava decorar os nomes, cores e funções dos chacras. Para mim, era suficiente saber que a aura é o conjunto formado pela matéria, o duplo etéreo, o perispírito e o espírito, e quando, como e onde ele pode prejudicar ou beneficiar a mediunidade. Acho mais importante que conhecer a parte científica de uma flor, saber apreciar a sua beleza e sentir seu perfume.

Enquanto estive trabalhando com esse grupo, participei de interessantes trabalhos, onde pude colher esclarecimentos que hoje formam a minha base como médium integrante da umbanda.

Tenho visto os umbandistas, sequiosos de conhecimentos de outras religiões, buscarem novos aprendizados em cultos e ciências diferentes, como a técnica da projeção astral, a cabala, a astrologia, a regressão das vidas passadas e outras tantas existentes por aí, mas poucos na linha kardecista. Os praticantes da umbanda, como eu e outros tantos, que tiveram uma passagem no espiritismo tradicional desta linha, sabem de sua importância no desenvolvimento mediúnico nos terreiros da umbanda. A linha kardecista desperta a sensibilidade íntima, e a da umbanda exercita e ensina a incorporação plena e a manipulação dos elementos naturais. O cavalo da umbanda é treinado para incorporar o espírito enquanto o médium kardecista desperta o seu interior espiritual.

Na passagem kardecista, assisti a trabalhos interessantes.

Forma pensamento materializada

Um rapaz, de uns vinte anos, procurou nosso centro, O que o afligia era uma rinite crônica, sem solução da medicina terrena. Percebi, intuitivamente, que em seu nariz estava localizada uma massa, parecendo um osso. Através de passes, e terminada a limpeza de seu perispirito, essa massa foi se diluindo até se transformar em uma espécie de liquido, desaparecendo completamente.

Esta é a típica forma do pensamento materializado no perispírito, originada e criada pelo próprio paciente, através de pensamentos negativos, não havendo nenhuma atuação de espíritos obsessores. Não devemos esquecer que o semelhante atrai o semelhante, ou seja, um pensamento negativo, atrai energias negativas.

Energia interrompida

Uma moça vivia tensa, com arrepios e mal estar permanente. Pedi para ver a sola de seus sapatos. Eram de borracha, um material sabidamente isolante energético, tendo ela me afirmado usar sempre este tipo de calçado. Recomendei-lhe andar, sempre que possível, descalça, na relva úmida, e abraçar uma árvore, isto para impregnar seu perispírito com as energias naturais, renovando as cargas acumuladas e que não puderam ser descarregadas pelo isolamento da borracha. Foi surpreendente o resultado, tendo sarado de todo seu mal estar. No caso, as energias circulavam em seu perispirito, sem renovação.

Aura suja com sangue

Um homem acometido por uma forte anemia, apesar de estar tendo toda a assistência médica, não apresentava nenhum tipo de reação. Ao contrário, seu estado estava se agravando. Ele foi informado por outros médiuns que estava sendo obsidiado por um espírito maligno. Intuitivamente percebemos que o seu perispírito estava com uma cor avermelhada, resultado de um anterior e mal sucedido trabalho de magia, feito com sangue de animal, previamente sacrificado para esse fim. Acontecia o seguinte: a energia do sangue foi sugada por seu perispírito que, por sua vez, sugava toda energia de seu corpo físico. Como os passes magnéticos não surtiram os efeitos que prevíamos, mudamos o tratamento: um médium estendia seus dedos contra os do doente, atraindo para si toda a energia do sangue. O médium serviu de ponte para a limpeza da aura do homem. Em pouco tempo ele ficou completamente curado.

As energias negativas em forma de cobra

Uma moça sofria de fortes dores de cabeça, sem solução médica. Vi enrolada na sua cabeça a energia de uma cobra, criada e materializada por pensamentos negativos. Ficou curada com os passes magnéticos do grupo. Os principais sintomas da doença da aura são as dores circulantes no corpo e nos ossos, e sensibilidade na base da coluna. São as energia negativas que circulam dentro do perispírito. São males originados sempre por influências internas do próprio pensamento do paciente, nada tendo a ver com entidades obsessoras, e, por isso, são facilmente curados. O otimismo e o controle das nossas emoções são as principais defesas que possuímos para destruir as energias que sujam nosso perispirito.

Nosso grupo estava reunido, durante uma sessão. Nenhum espírito estava se manifestando, não obstante a silenciosa e eficiente concentração do grupo em volta da mesa, em ambiente à meia luz. Abrindo os olhos, vi uma enorme cobra sobre a mesa, tentando se aproximar de um dos médiuns. Era uma energia negativa, sorrateiramente introduzida no ambiente, talvez por um inimigo qualquer do espaço, que se aproveitou de uma descuidada brecha na corrente. Adverti os médiuns para não abrirem sua guarda energética, sem contar o que estava vendo. Notei que uma das participantes do grupo relaxou em sua concentração, ficando alienada da segurança do grupo. Incontinenti, a enorme cobra se enrolou no seu corpo, fazendo com que ela desmaiasse imediatamente. Só voltou a si depois de insistentes passes energéticos do grupo.

O duplo etéreo

Um jovem integrante do nosso grupo, estava fazendo confusão entre os sinais da morte pelo duplo etéreo, as aparições pela materialização, e a vidência dos médiuns. São três casos bem distintos, expliquei:

  • Toda matéria que ocupa lugar no espaço tem a sua cópia no plano espiritual, que nós designamos como duplo etéreo, não só do nosso corpo, mas também dos objetos inanimados. Ele é frágil, mas nos casos da morte do corpo animado pelo espírito, ele sobrevive durante um tempo. A aparição imediata após a morte de alguém é o duplo do morto, uma energia mais matéria do que espírito. Isso também é comum com as pessoas que tiveram algum membro amputado do seu corpo. Durante algum tempo, têm a sensação de ainda existirem. É o duplo etéreo, ainda não dissolvido.
  • A aparição de um espírito materializado não é o mesmo? – perguntou, curioso.
  • A materialização é produto de um trabalho organizado, e feita pela doação do ectoplasma por um médium especial. Esses trabalhos têm a proteção do alto astral do espaço. Não é o mesmo caso, aliás, diferem bastante.
  • E o perispírito, o que é?
  • A matéria e o duplo estão envolvidos pelo perispírito que, diferente do cascão, é mais espiritual que material. É nele que estão gravadas todas as formas de nossas vidas anteriores. Isso que possibilita ao espírito mudar de forma. É como se fosse uma roupa guardada no armário. – finalizei

Bandeira da Amizade