Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 39 - Provas incontestáveis

As pessoas precisam entender que a mistura da energia do médium com a do espírito, caracterizando a incorporação, não ausenta em absoluto a presença da consciência do cavalo na comunicação, devendo dar descontos para eventuais e normais falseadas na mensagem.

Na linha kardecista, quando um espírito familiar se manifesta, mesmo que nunca em sua vida encarnada tivesse tido respeito à espiritualidade, ou tenha sido um analfabeto e com temperamento grosseiro, deixa mensagens cheias de amor, fala com muita intimidade o nome de Jesus Cristo e demonstra conhecimento das leis do espiritismo, com um linguajar requintado e manso. Nada de estranho, considerando-se a capacidade e a cultura do médium, que soube traduzir o sentimento e o desejo do espírito comunicante.

Na umbanda não é assim. Os consulentes exigem provas e mensagens mais concretas. Querem que o espírito diga nomes, datas e tudo que se relacionava com sua pessoa, quando encarnada. Existem muitos médiuns que têm esta capacidade, mas, via de regra não são assim, como um Chico Xavier – para mim, um homem santo. Devemos ficar atentos aos sinais do espírito, aos pequenos gestos e palavras que usava quando encarnado, e se acontecer, devemos entender como verdadeira a comunicação. O resto, fica para São Tomé. Existem histórias e histórias, que comprovam minha assertiva, mas, uma delas, para mim, foi especial. O Caboclo Akuan estava incorporado, no toco, quando o pai-pequeno, acompanhado de um rapaz alto, corpulento e demonstrando um ar muito triste, solicitou:

- Caboclo Akuan há questão de uns seis meses este moço perdeu seu pai, e está inconsolável – explicou. O senhor pode atendê-lo?

O rapaz sentou-se, a entidade ofereceu-lhe bebida e perguntou:

- Que houve, meu filho?

- Eu amava meu pai. Ele morreu, e estou muito nervoso com isso.

- Você conhece bem pouco o espiritismo, não é, meu filho?

- Realmente, nada conheço, mas sinto a presença dele ao meu lado. Estou buscando no espiritismo uma explicação, principalmente para saber se o espírito sobrevive à morte e, se eu me convencer, quero saber como ele está. Disse, de modo franco, mas respeitoso.

- Acho melhor você perguntar a ele. Traga aqui um cavalo, para receber o espírito do pai desse moço. Ordenou ao Beco , o pai-pequeno.

Rapidamente, o Beco pôs em sua frente a Cristina, uma excelente médium, fiel na transmissão da fala do espírito. Já habituada com essas situações, tirou seus óculos e ficou esperando uma nova ordem. Vale dizer, que nesses momentos, muito embora o médium perceba que vai servir em uma incorporação, nada sabe a respeito, desconhecendo se é espírito familiar, obsessor ou protetor, se é homem ou mulher Esta é a parte convincente da comunicação. A entidade fez uma vibração no consulente e a passagem do espírito aconteceu. A Cristina incorporou. Como sempre faz nesses casos o Caboclo mandou o Beco atender a conversação e ambos, espírito do pai incorporado e seu filho, iniciaram um diálogo, que transcorreu de um modo normal, com alguns sinais de ser realmente o espírito do pai do desconfiado rapaz. Após algum tempo, ambos levantaram-se e a entidade disse ao moço:

- Agora você sabe que eu estou bem e o espírito existe após a morte. Esclareceu, anunciando sua despedida.

O rapaz demonstrava estar desconfiado da autenticidade do que assistia, o que era perfeitamente compreensível. O pai falou estar bem, da saudade que tinha da família, testemunhou Jesus existir e outras coisas bonitas. Mas nada lhe dava a certeza de ser realmente o espírito de seu pai, talvez por não tido nenhum sinal evidente, aquele assunto que só os dois sabiam. E foi nesse estado, que disse ao espírito:

- Foi muito bom falar com o senhor, meu pai.

- Quando você precisar de ajuda, me chame que estarei ao seu lado, meu filho. Prometeu o espírito.

- Bem, e como vou saber que é o senhor que estará ao meu lado? Perguntou, o incrédulo filho.

- Quando você ouvir um arroto e sentir um bafo de uísque, serei eu. Afirmou, rindo, o espírito.

- O rapaz deu um salto para trás. Com os olhos arregalados, fechou uma carranca e franzindo as sobrancelhas, fixou um olhar espantado, para o rosto da médium. Aguardou nessa posição alguns segundos, jogou-se nos seus braços, e num choro convulsivo, exclamou, eufórico:

- Papai! Papai! É o senhor...

Entre os umbandistas, as provas também são exigidas. Até entre os pais-de-santo. Um deles, de São Paulo, estava visitando a Tenda Espírita São Sebastião. Foi recebido com todas as honras de sua coroa, como manda a lei da umbanda. Convidado a ocupar um lugar privilegiado, ficou assistindo a gira de quimbanda, naquela noite,. Faz parte da lei da umbanda, quando uma visita com hierarquia estiver presente, a entidade, quando incorpora, deve bater a cabeça ao visitante e naquela casa, especificamente, havia a determinação que as entidades batessem a cabeça literalmente, ou seja, encostando a testa no chão. A medida que incorporavam, as entidades cumpriam seu papel. Já incorporado com o Exu Tranca Ruas das Almas, fui levado pela entidade até o pai-de-santo e contrariando meu impulso e todas as regras da casa, deu um tapa no peito do homem e, rindo, falou:

- Para amigo não bato a cabeça. E foi adiante, sem dar importância à hierarquia do chefe de terreiro.

Estranhei o comportamento do exu, um grande respeitador da lei da umbanda e das determinações das casas umbandistas. Contrariando minha expectativa não fui repreendido pelos dirigentes materiais da casa. No dia seguinte, recebi um telefonema.

- Fernando, aqui é o Rangel. O pai-de-santo que ontem visitou o terreiro.

- Como vai, Rangel? Gostou do trabalho?

- Gostei. Preciso conversar com você. Podemos marcar um encontro?

Estranhei o curto diálogo. Não estava entendo a razão, mas alguma com certeza, havia. Convidei-o para vir à noite em minha casa. Conversando na sala, tomávamos um cafezinho com biscoitos, e contávamos histórias sobre a umbanda, eu as minhas e o Rangel as dele. Ríamos e aprendíamos, um com o outro. Era uma pessoa muito agradável. Só me intrigava a razão de sua visita. Não seria para contar passagens de sua vida espiritual. Não sabia como perguntar mas imaginava que, antes de ir embora, com certeza ele revelaria. Já passava da meia-noite, a famosa hora grande dos espíritos, foi quando ele, de repente, tornou sua expressão séria e formal:

- Você deve estar imaginando porque eu estou aqui, não é?

- Sinceramente? Não estou agüentando mais a curiosidade. Respondi, em tom informal.

- Fiz um trato com o Exu Tranca Ruas das Almas. Sempre que estiver incorporado, se for realmente ele , tem que dizer ser meu amigo. E ele, incorporado em você, cumpriu o combinado. Por não ser um fato comum nos terreiros que visito, quis conhece-lo. Explicou, desfazendo todo o mistério.

Entendi o Rangel, porque eu também gosto quando isso acontece comigo, mesmo que seja em sentido inverso.

Um espírito que reverencio com grande amor é o do Pai Joaquim de Angola, meu padrinho de feitura de cabeça. Fui visitar um terreiro de certa fama onde, durante a gira, incorporou em um médium, por sinal com hierarquia na casa. Fiquei alegre.

- Oba! O Pai Joaquim! Exclamei, cutucando meu companheiro ao lado.

À guisa de receber uma vibração, entrei dentro do local dos trabalhos e passei por sua frente. Ele nem me olhou. Imediatamente, dei meia volta, retornando para meu lugar, lá na assistência.

Enquanto calçava os sapatos que tinha tirado, como todos devem fazer, ao entrar no espaço dos trabalhos, informei meu amigo.

- Vamos embora. Disse, secamente.

Quando já estávamos de volta, no automóvel, ele perguntou:

- O que aconteceu lá, para você sair, praticamente no começo do trabalho?

- Não fico em terreiro onde o Pai Joaquim está incorporado e ele não me conhece. Respondi indignado.

Afinal, mesmo nós, crentes, temos nossas dúvidas, que desaparecem, mediante uma prova evidente.

O Exu Tranca Ruas das Almas faz questão de comprovar aos seus consulentes a sua autenticidade, como fez com uma senhora carioca que visitou nosso terreiro. Ela estava na assistência quando foi chamada para conversar com ele. Nada de extraordinário foi dito ou falado, exceto a confissão da simpática consulente ser uma incondicional fã da entidade. Voltando ao Rio de Janeiro, ela teve notícias que em Petrópolis um médium estava recebendo o Exu Tranca Ruas das Almas com muita fidelidade. Não hesitou e foi conhecer o terreiro onde trabalhava este médium. Estava na assistência, quando foi surpreendida com o convite da entidade para conversar com ele. Conversaram trivialidades, quando, antes de se retirar, o exu falou:

- Sempre que eu estiver no terreiro, mando chamar você para me cumprimentar, como fiz hoje e também como fiz há tempos na outra cidade incorporado com o cavalo careca. - completou, sob o olhar espantado da sua fã.

Essas comprovações, na verdade, não são necessárias para quem tem fé. Mas que são gostosas, não tenham dúvidas!

Bandeira da Amizade