Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 38 - Machismo na Umbanda

Como toda religião, a Umbanda é machista. O caboclo manda na cabocla, o preto-velho na preta-velha, o exu na pomba-gira, e eu, apear de ser pai-de-santo, não mando na minha mulher – eu mando, ela que não obedece.

Não conheço nenhuma papisa, e até pouco tempo as freiras não podiam oficiar a missa católica, isso para não falar de todas as outras religiões. Moisés deve ter confundido as palavras do Criador, quando ao receber os dez mandamentos, ouviu "não desejar a mulher do próximo", quando deveria ouvir "não desejar a mulher, ou o homem, do próximo".

Não sou machista, mas quero que as feministas parem com sua perigosa marcha em busca da igualdade com os homens. Se isto acontecer, a delicada, graciosa e intocável redoma da feminilidade perderá o seu mais dedicado guardião: o homem, o sempre apaixonado servidor da mulher.

Um dia o Caboclo Junco Verde explicou sua ótica sobre o homem e a mulher: o homem é o Sol e a mulher a Lua. Ele é a força, e ela a magia.

A força do homem pertence à mulher. Ele a usa quando vê em perigo a dócil mãe dos seus filhos e a ferrenha parceira na luta pela sobrevivência. Protege a bela e apaixonante amante espiritual, a inspiradora da sua luta, a razão da sua existência, a provedora da sua felicidade. E ela, a mulher, como a lua, sabe usar a magia, ao eleger o homem, força e complemento de sua feminilidade.

A mulher não tem que pleitear a igualdade. Nenhum é mais que o outro. Eles são, ambos, complementos do amor. Não posso imaginar nosso mundo sem existir a força do sol e a magia da lua.

O Caboclo Junco Verde soube, com muita inteligência, separar os direitos e deveres de cada um. A sua indignação ao ver ameaçado o seu direito de defender a mulher ficou bem clara numa ocasião:

Para observar o comportamento de uma médium que recebia uma entidade da linha de Jurema, eu quis ver sua incorporação. Apesar das entidades chefes serem chamadas em primeiro lugar, desta vez fiquei de lado e mandei cantar o ponto da cabocla Jurema, a entidade que incorporava na complicada médium. Assim foi feito. Vi o que queria, tirei minhas conclusões, e pedi para chamar o Caboclo Junco Verde. Para recebê-lo, fico na frente do Congá, em lugar privilegiado pela hierarquia de dirigente. A corrente já cantava há algum tempo e eu, ali, sob o olhar de todos os presentes, parecia um pateta. Nada de chegar o Caboclo. Fiquei sem jeito, sem nada entender, quando fui intuído para receber outra entidade, o Caboclo da Cachoeira. Chamei o pai-pequeno, dizendo:

- Cante o ponto do Caboclo da Cachoeira.

Logo no início do ponto de chamada deste maravilhoso Caboclo de Xangô, ele incorporou, mostrando, nitidamente, que não era culpa minha a ausência do Caboclo Junco Verde, e sim dele, que não quis incorporar.

- Salve meus filhos! – cumprimentou o sisudo Caboclo da Cachoeira e foi sentar no toco.

A cambone, delicadamente, entregou-lhe uma tábua e pemba, para riscar o ponto.

- Não precisa, disse o Caboclo. Vou ficar enquanto o Akuan conversa com o Junco. Arrematou, aceitando, apenas, o charuto.

Nunca imaginamos situações como esta no plano espiritual. O Caboclo Akuan, chefe do terreiro, foi convencer o Caboclo Junco Verde, um espírito comprometido com o terreiro, a cumprir sua obrigação de vir trabalhar. São entidades maravilhosas, espiritualizadas mas sensíveis quando vêem ameaçados seus direitos legais. Não tinha terminado de fumar o seu charuto, e o sêo Cachoeira levantando, despediu-se dos cambonos:

- Vou subir. O Junco vai incorporar – deixando claro o poder de convencimento do Caboclo Akuan.

Fiquei ressabiado para recebê-lo. Ele veio, não alegre como de costume. Estava mal-humorado, com a cara fechada, deixando transparecer uma emoção, até então desconhecida para mim. Sem nada dizer e a ninguém cumprimentar, com passos pesados, dirigiu-se e sentou no toco, riscando o ponto com má vontade. Dava mordidas no charuto, como se tivesse vontade de comer a orelha de alguém. O pai-pequeno, sentou-se à sua frente, dirigindo-lhe delicadamente a palavra:

- Salve, Caboclo! O que houve, sêo Junco? Estamos assustados, nunca o vimos assim.

- Escute! Respondeu, secamente. - A mãe é Jurema, e quem cuida da mãe é o filho; a mulher é Jurema, e quem cuida da mulher é o homem; a filha é Jurema, e quem cuida da filha é o pai.

- Sim, meu pai, entendi a mensagem, só não sei, qual a razão de sua zanga.

- Como é então que vocês chamam uma cabocla antes do caboclo? Vociferou, aos altos berros. - Não conhecem a lei da umbanda? Nunca venho depois de cabocla.

- Sêo Junco, explicou, na verdade foi seu cavalo quem pediu, pois precisava ver a incorporação da cabocla na médium também. Não tivemos nenhuma intenção de desrespeita-lo.

- Essa não é a Lei. Não admito que pai-de-santo erre. Se não a conhece, entregue sua guia e vá aprender como se dirige um terreiro. Encerrou enfurecido.

Bandeira da Amizade