Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 37 - Criando monstros

Há tempos atrás fui um zeloso e falido criador de cavalos de corrida. Sempre gostei dos cavalos e não existia nada mais emocionante que assistir aqueles belos e selecionados animais disputando uma corrida.

Os cavalos de corrida são atletas. Para a competição seu físico tem que ser apurado. Ensinam os antigos criadores que cavalo ganhador começa a se fazer na barriga da mãe. Daí a necessidade de uma alimentação saudável e boa. Por isso eu cuidava com carinho das pastagens onde os animais eram criados. Mandei fazer a semeadura de uma leguminosa que exigia um solo bem preparado. Era um rico capim para pastagem. A semente tinha que ser boa, por isso eu as comprei no melhor fornecedor na ocasião. Ver uma planta nascer mexe com nossas emoções. Foi um sucesso o plantio. Aquela imensa área verde crescia dia a dia. Eu não via o momento de deixar as éguas criadoras pastarem aquele pasto. Quando eu chegava no haras eu ia verificar o novo pasto para ver se crescia e estava bem incorporado como eu planejara. E lá no meio, parecendo uma criança com seu brinquedo novo, eu estava agachado acariciando as plantas quando vi aproximar-se o gerente do estabelecimento.

O Enio era o responsável por todos os cuidados do estabelecimento. Era um homem baixo, com os olhos esbugalhados, tinha beiços grande e tez mulata. Foi jóquei e era um lidador com os cavalos de grande paciência, tanto que se encarregava de domar os potros novos antes deles irem para o Jóquei Clube onde seriam preparados por treinadores especializados para disputarem os páreos. Falando de forma circunspeta ele me cumprimentou:

- Bom dia.

Conhecia o jeito dele quando queria dizer alguma coisa. Facilitei:

- Bom dia Enio. Alguma novidade?

Ele abaixou-se do meu lado, e separando algumas plantas da bela leguminosa, mostrou entre elas uma outra que nasceu junta.

- As sementes estavam misturadas. No meio nasceu também uma planta que parece uma salsa. Eu não sei o que é. Não será melhor fazer um exame para ver que tipo de planta é essa?

Fiquei surpreso. Ele nunca tinha feito observação semelhante. Achei ser um sinal e a desconfiança tomou conta de mim. Perguntei:

- Está com medo que seja uma planta venenosa?

- Nunca se sabe. Parece uma salsinha, mas pode não ser. Acho que não devemos deixar os animais pastarem sem um exame melhor.

Chegando em minha casa fui consultar os livros de plantas. Vi a salsinha, e sua raiz era .............. No dia seguinte voltei ao haras e arranquei uma amostra, e a raiz era diferente da do livro. Era uma................(verificaar o nome certo). Colhi algumas amostras e levei na Escola de Agronomia para um exame técnico. No dia seguinte fui buscar o resultado. O Engenheiro Agrônomo havia solicitado à funcionária do estabelecimento que antes de me ser entregar o resultado eu falasse com ele. Ele veio pessoalmente atender-me no balcão. Sem rodeios advertiu:

- Essa amostra que você trouxe é de sicuta.

Levei um susto.

- Sicuta? A do Sócrates?

Ele rindo, confirmou:

- Foi o veneno que o Sócrates ingeriu para se matar.

Saí preocupado e frustrado. Voltei para o haras, chamei o Enio e determinei:

- Pegue o trator e acabe com a Serradela porque ela foi semeada junto com uma planta venenosa.

Enquanto o trator ia destruindo o verde pasto fiquei imaginando o risco que correram os cavalos.

Tempos depois tive um gostoso reencontro com o Pedro, um pai-de-santo meu amigo. Gostava de trocar idéias com ele sobre os segredos e magias da umbanda por ele ser uma pessoa de rara inteligência e um invejável senso critico, raramente fugindo dos limites do necessário equilíbrio racional que deve reger nossas duvidas. Estávamos sentados em uma enorme pedra no meio do rio Nhundiaquara. Os pássaros saltitavam e cantavam em nossa frente, e vez ou outra um beija-flor revoava em nossa frente como um curioso querendo ouvir nossa conversa. Só se ouviam as aves e o gostoso barulho das águas do lindo rio. Nosso silêncio prestava um tributo à essência de nossa espiritualidade envolvendo a nossa alma em profunda reflexão espantando os gestos grosseiros e os pensamentos mundanos. Quase em um sussurro ele deixou florescer as delicadas e difíceis questões que incomodam os dirigentes da religião umbandista, dizendo:

- Estou formando uma nova corrente, e estou com medo de errar.

- Errar no que?

Deixando suas sobrancelhas caídas mostrarem preocupação e seu rosto mais vincado que o costume, não hesitou:

- Não sei escolher os membros para a corrente. Tenho medo de criar monstros.

Fiquei surpreso. Indaguei:

- Criar monstros? Explique melhor.

O Pedro deu leve suspiro como coordenando as coisas que ia falar. Pelo seu jeito sabia que seria um assunto que aos outros poderia ser simples, mas não para ele acostumado a ir na sua essência mais profunda. Talvez a magia do espelho. Aquela que descobre coisas invisíveis escondidas dentro do visível. Fiquei aguardando quando falou:

- Não sei distinguir dentre os homens aqueles que saberão usar corretamente a força das suas mediunidades. Quando preparamos um médium, ele se torna uma bomba que pode a qualquer instante detonar contra pessoas inocentes. É criar, em que não merece, a magia da força da energia condensada no perispírito.

Fiquei atento e encantado com a suavidade da explicação, embora tenha visto uma preocupação íntima que deveria estar atormentando o zeloso e experiente pai-de-santo. Embevecido aguardei a continuação.

- Provocamos o desenvolvimento da mediunidade dos membros da corrente equilibrando os seus chacras, os catalisadores das energias, e praticamente abrimos caminho para que as entidades de força, como os caboclos, pretos-velho e exus, tomem seus corpos através da incorporação. Dentro de suas auras, principalmente no perispírito, as energias das entidades vão sendo depositadas. Com isso eles estão portando as energias dos orixás. Essas energias são fortes por terem sido deixadas por entidades desse nível, mas qualquer alteração de sentimento deixa escapar essas forças. Se eles amarem seus semelhantes deixarão exalar sempre a energia do amor, mas se ficarem irados, deixando o ódio dominar suas emoções e elas forem voltadas para alguém pode acontecer que sua energia somada com as das entidades provoque um mal muito grande a essa pessoa. Veja o perigo: sem o conhecimento dos espíritos eles estão jogando suas forças contra alguém por conta da ignorância de um médium.

Fiquei deslumbrado com a explicação do pai-de-santo. Perguntei:

- Seria o caso então de não provocarmos o desenvolvimento nos médiuns sem antes conscientiza-los dessa força, até que possam dominar suas emoções e jamais podem sentir o ódio?

- Exatamente. Mas como vamos saber quem vai ou não gerar esse sentimento no futuro?

Imediatamente veio na minha mente a corrente que dirijo. São jovens e velhos, homens e mulheres das mais variadas origens e capacidade cultural. Lembrei-me da minha plantação: misturei semente nobre e para alimentar os animais, com a terrível e danosa semente venenosa. Mas como poderia fazer isso? Como nós, dirigentes de terreiros de umbanda, poderemos prever ou saber quais os que devem ou não ficar misturados no grupo? Também fiquei preocupado. Consolei meu cuidadoso amigo:

- Acho que não temos alternativas. Só podemos confiar nas entidades e esclarecer aos médiuns que eles ficam proibidos de se zangarem com alguém.

Bandeira da Amizade