Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 36 - A fé da Carmem Silvia

A Patrícia, uma adolescente de classe média, estava passando um difícil momento. Desajustada socialmente, sentindo-se desprezada pelos amigos e revoltada com a separação de seus pais, despertaram na bonita jovem o ódio à vida.

A Patrícia, uma adolescente de classe média, estava passando um difícil momento. Desajustada socialmente, sentindo-se desprezada pelos amigos e revoltada com a separação de seus pais, despertaram na bonita jovem o ódio à vida. Indicada por alguém, ela me procurou, buscando uma explicação para seu problema. Após ouvir suas queixas, não hesitei:

- Vá conversar com a Carmem Silvia. Aconselhei, entregando-lhe o número de um telefone.

O seu tipo médio, com os olhos claros, mostrando os dentes salientes e bonitos, faziam da Patrícia a figura da moça bonita, sem deixar transparecer o quanto sua alma estava atormentada. Ao receber minha orientação, perguntou aparentemente decepcionada:

- Por que essa Carmem Silvia, que não conheço? É mãe-de-santo?

- Não é mãe-de-santo. Ela faz parte da hierarquia do nosso terreiro. É uma amiga e conselheira dos jovens integrantes da gira, aos quais atende sempre com um sorriso acalentador, muito embora esteja guerreando contra um terrível dragão, em forma de um insistente câncer. Sua arma é a fé, e o seu escudo é o amor à vida e a alegria de viver.

- Não entendo nada de umbanda. O que é hierarquia?

- São os membros que têm a obrigação de atender o terreiro, material e espiritualmente. São os auxiliares diretos do dirigente e lhes compete, além de fazer que seja cumprida a lei da umbanda, dar assistência direta aos membros que compõem a corrente mediúnica da casa. Tentei sintetizar. Você está precisando, além do amparo espiritual de uma pessoa semelhante a você, com quem possa trocar confidências. Converse com ela, e depois você venha falar comigo.

- Se o que mais quero é morrer, por que devo conversar com uma pessoa que luta contra a sua própria morte?

Lembrei-me de uma história da Carmem com o Exu Tranca Ruas das Almas. Durante uma gira, ele a chamou e pediu:

- Preciso que você faça um trabalho para eu resolver umas demandas.

- É só o senhor dizer o que devo fazer.

- Quero que você vá sozinha ao cemitério, na cruz das almas, à meia-noite, com um alguidar cheio de farofa, leve um galo preto, corte a sua garganta e derrube, dentro do alguidar, todo o sangue que escorrer da ave.

Depois de terminar as anotações como deveria ser feito o trabalho, retirou-se, voltando às suas tarefas no meio do terreiro. Um pouco antes do final da gira, ela, dirigindo-se ao exu, falou:

- Infelizmente não posso cumprir hoje a tarefa que o senhor me destinou, mas amanhã irei executá-la.

- Carmem, eu menti para você. Não precisa fazer nada do que pedi. Eu só queria testar tua fé. – respondeu, delicadamente, o poderoso exu.

Ela não questionou os incômodos que teria para executar o trabalho, principalmente a matança, o que é proibido em nosso terreiro.

Os olhos são a síntese da alma. Olhei para os da Patrícia: apesar de claros e bonitos, eles me revelaram que, dentro daquela prepotente fisionomia, estava sufocado um pedido de socorro. Retomei a conversação.

- Há anos atrás, a Carmem procurou o terreiro, em piores condições do que você. Hoje ele é a minha auxiliar que obedece, sem questionar, as ordens dadas pelos espíritos, o que me deixa orgulhoso, porque eu também sou assim. Ela aqui aprendeu ter fé e entendeu a importância de viver. Teve a revelação que desejar morrer é arma do covarde.

A impostação das minhas palavras deve ter impressionado a Patrícia. Não retrucou e foi falar com a abnegada Carmem Silvia. Não me procurou como tinha prometido, sinalizando ter encontrado a paz, fato que me foi confidenciado pelo amigo comum que lhe mostrou o regenerador caminho da umbanda. Só veio falar comigo dois meses depois, exibindo um sorriso lindo e com a sua face iluminada pela brilhante luz que saía dos seus olhos. Apelou:

- Fernando, posso fazer parte da gira da umbanda do terreiro de vocês?

- Compre uma roupa branca e pode entrar na nossa gira. Concordei, emocionado.

Bandeira da Amizade