Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 35 - Conversa com pai de santo

Acho que fiz, em nosso terreiro o tipo enérgico no comando das giras. Na verdade apenas exijo que cada um cumpra o seu papel, sem se intrometer com os outros e estejam dentro das normas estabelecidas pela cultura espiritual que ensinamos e previamente estabelecemos.

Não são regras, mas princípios filosóficos copiados da essência da própria lei da umbanda.

A responsabilidade do controle dos médiuns cabe à hierarquia do terreiro, escolhida pelo dirigente espiritual.

Um dirigente de outro terreiro, o Hiran, pela amizade que mantemos há longo tempo, observando nossa organização, trocava idéias comigo a esse respeito. Não sei até hoje se a sua intenção era para comparar, aprender ou, quem sabe, criticar. Vou contar o diálogo:

- As determinações são cumpridas por todos os capitães sem discordância entre si?

- No nosso terreiro a hierarquia está formada, além de mim, por uma mãe-de-santo, dois pais-pequenos, onze capitães e cinco ogans de atabaque. Por serem heterogêneos, tanto na cultura como em seus temperamentos, não posso exigir igualdade. Mas, cada um com seu jeito, cuida com muito carinho dos médiuns.

- Como vocês procedem quando um médium está ingerindo bebidas alcóolicas em excesso? Mandam a entidade subir imediatamente?

- O procedimento correto não é esse. É muito perigoso o médium ficar embriagado. O choque da advertência pode fazer o cavalo se desligar do espírito, não dando tempo da entidade fazer a limpeza do álcool. Nem sempre é o espírito que se desliga, às vezes é o médium que sai da vibração da entidade. Recomendo à um dos membros da hierarquia conversar com o espírito e, em caso de persistir em beber, mando cantar o seu ponto de subida. E isso deve ser feito com muita cautela, para não magoar o médium.

- Para chamar a atenção do médium, você costuma falar com ele, indiretamente, através do espírito?

- Não usamos essa artimanha amadora de chamar a atenção da entidade, para o cavalo ouvir. Se o médium estiver extrapolando, recomendo que esperem o espírito desincorporar, para depois explicar ao cavalo o seu erro. Eu, particularmente, tenho um trato com as entidades: elas lidam com os espíritos, e eu com os médiuns.

Pela expressão de seu rosto, não sabia se o Hiran estava aprovando o que eu dizia. Já não estava tão expansivo, como no início de nossa conversação. Provavelmente a sua técnica devia ser diferente da minha. Interrompeu o curto silêncio, para dizer:

- Eu recomendo à minha hierarquia conversar com a entidade, para não humilhar o médium. Nem sempre é o espírito que está falando e sim o médium interferindo na comunicação. Justificou o Hiran.

- No dia que eu tiver dúvida que os espíritos não estão incorporados nos médiuns, fecho as portas do terreiro. Proíbo, terminantemente, que os membros da hierarquia desconfiem da manifestação das entidades nos médiuns. Nenhum deles, da hierarquia, como nem eu ou você, temos condições de saber se o cavalo está interferindo na comunicação do espírito. Só falta você me dizer, Hiran, que finge ser médium inconsciente, para que os membros da corrente contem para você os seus problemas sem constrangimento. Provoquei o pai-de-santo.

Às vezes o silêncio vale por um discurso. Ele não respondeu nada. Preferi consertar o constrangimento criado, abrandando a ênfase das minhas palavras. Retomei a o diálogo:

- Cada componente da hierarquia tem a obrigação de transmitir aos médiuns a palavra do dirigente. Não pode haver choques ou informações distorcidas, mesmo que tenha convicções diferente da dele. Nesse caso, não deveria ter aceitado o cargo que lhe foi confiado. E a minha filosofia é despertar nos médiuns a autoconfiança, de modo sincero, dando a entender para eles, que é melhor ser advertido de seus erros do que continuar errando. Isso não pode trazer mágoas, ao contrário, eles têm que reconhecer a nossa boa intenção.

Ele entendeu a direção de minhas palavras, tanto que confessou humildemente:

- Você está cheio de razão. Vou repensar no modo de lidar com os médiuns.

Retomei o assunto da mentira da inconsciência do pai-de-santo:

- Conversando e orientando os médiuns com sinceridade, você ganha a confiança deles. Tive uma alegria imensa outro dia, quanto um médium me procurou para contar um problema: "fiz uma coisa muito errada. Pensei em contar para o Caboclo Akuan, mas fiquei com vergonha dele. Por isso procurei você diretamente..." Veja, Hiran, como ele demonstrou respeito à entidade e confiança em mim. Falei orgulhoso.

Ele concordou, com gestos de aprovação.

- Eu tenho um problema com minha hierarquia: à vezes eles brigam entre si. Acontece com você o mesmo?

- Não com freqüência, mas acontece.

- E por que isso acontece? Disputa do poder?

- O ciúme e a falta de humildade! Respondi lacônico e convicto.

- Na verdade temos muito que aprender. Observou.

- Diariamente estamos enriquecendo nossos conhecimentos. Mas no caso que estamos discutindo, não é questão de não saber, mas como agir.

- Chegar neste ponto, que é difícil. Queixou-se.

- É só você não fazer aos outros o que não gostaria que lhe fizessem. E concluí nossa conversação.

Bandeira da Amizade