Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 34 - Nome dos espíritos

Todo pai tem como obrigação levar seus filhos para assistir ao menos uma parada militar. Eu não fugi à regra e com o meu gordo filho de três anos assistia os nossos soldados marchando com indisfarçável garbo.

A bandeira brasileira tremulava e a banda marcial me dava arrepios pela força da música militar que executavam, fazendo-me hoje entender porque nos trabalhos de efeitos físicos elas são as músicas preferidas. O calor causado pelo intenso sol que ajudava o dia ser festivo e o peso do garoto já não me incomodavam. Eu na verdade sou de me entusiasmar com as coisas. Fui uma vez, extremamente contrariado, buscar meus filhos adolescentes em um show de um cantor que estava começando a despontar. O artista tinha um cavanhaque, roupas esquisitas e usava botas marrom sem graxas. Fiz sinal para eles saírem. Como de costume, fingiram que não me viram. Entrei entre os garotos disposto a puxá-los à força para casa. Para encurtar minha história, depois de algum tempo eu gritava junto com a juventude: “salve a sociedade alternativa...”. O nome do extrovertido e revolucionário cantor era Raul Seixas, posteriormente deixando um legado de belíssimas músicas, dentre as quais algumas introduzidas por mim nos rituais do nosso terreiro. Voltando ao instante da parada militar. Chamou minha atenção os brilhantes capacetes dos soldados com as letras PE, que significavam Policia do Exército. Por uns momentos esqueci da marcha para reparar a uniformidade dos tipos: todos altos, fortes e marchavam com irreparável e harmonioso garbo. Pareciam cópias que pensavam as mesmas coisas e serviam a um comandante único e com a mesma ordem. Obviamente foram escolhidos para formar aquele exército. Não podia imaginar que aquele momento servisse de exemplo no futuro para uma explicação espiritual. E serviu.

O Josias era um médium de umbanda. Como um bom filho de Xangô, era bastante questionador. De estatura baixa tinha tanto o rosto como o corpo largos. Cabelos negros e tez morena, não parava de fazer perguntas, e quando as fazia deixava aparecer gagueira. E foi assim que se lamentava.

- Eu não entendo. Dizem que eu trabalho com o Pai Joaquim, mas como pode ele estar em vários lugares ao mesmo tempo? Na mesma hora que ele incorpora em mim, também está incorporando em outros terreiros. Acho que não é ele.

Um pai-de-santo tem que ser tolerante. Eu tento, e às vezes me saio bem. Apesar do Josias não fazer parte da corrente que dirijo, de forma bem paternal e com bastante cuidado para não ferir a ética ao me intrometer em assuntos pertinentes a outro pai-de-santo tentei manter o diálogo:

- Pelo que eu sei você já está recebendo essa maravilhosa entidade já há muito tempo. Por que só agora você está duvidando?

- Sempre duvidei. Dizem que é ele mas eu não acredito.

- Ele não incorpora no ponto cantado, risca o ponto certo, atende muita gente e dá consultas maravilhosas? Por que você duvida?

- Se ele estiver incorporado em mim, como pode estar incorporado nos outros?

- O que teu pai-de-santo diz a você quando você questiona essa situação?

- Eu nunca falei com ele a respeito, principalmente porque é ele quem diz que a entidade é o Pai Joaquim.

- Fale com ele e exponha tua dúvida. Aconselhei.

Algum tempo depois encontrei-me novamente com o Josias.

Perguntei-lhe o desfecho da conversa que prometera ter com seu pai-de-santo.

- Ele disse que existem vários espíritos que se dizem Pai Joaquim.

- Embora ainda não totalmente convencido, resolvi aceitar como verdadeira essa orientação.

Expliquei ao Josias que em nosso terreiro várias entidade usam esse sagrado nome, alguns até mesmo como sendo de Xangô, da Praia, da Costa e o mais comum o conhecidíssimo Pai Joaquim de Angola, inclusive que incorporam do mesmo jeito, bebem a mesma bebida, fumam o mesmo cigarro de palha, e todos falam a mesma linguagem, diferenciando bem pouco um do outro. E o interessante é que em um terreiro se o Pai Joaquim atende alguém, em outro terreiro mesmo que seja outro espírito dessa linha, dá continuidade a conversa anterior. Ele voltou à carga:

- Eu aceitei, mas não entendo.

Tentei explicar falando do Exu Tranca Ruas das Almas de quem já tive várias provas desse fenômeno.

- Todos sabem que existe a energia Tranca Ruas. Dentro dessa energia, um exército de Tranca Ruas, subdivididos em das Almas e Encruzilhada, fazem presença nos milhares de terreiros existentes. Claro que não é a mesma entidade, mas são todos iguais, pensam da mesma forma e o que um fala o outro sabe. E em nada está errado que no mesmo terreiro existam Tranca Ruas incorporados em vários médiuns, exceto quando ele incorpora no dirigente da casa, por ser a palavra dele a ordem superior.

Ele ficou pensativo. Acho que extrapolei nas explicações, complicando a situação. Lembrei-me da parada militar.

- Para você ter uma idéia, imagine a Policia do Exército. Todos usam o mesmo tipo de uniforme, têm o mesmo tamanho e peso, e obedecem a ordem de um único comandante. Ali no exército não têm mais o nome de batismo: são soldados prontos para executar a mesma ordem, da mesma forma e com a mesma força. Os espíritos podem ser como os soldados.

Ele sorriu.

- É um bom exemplo. Vou pensar melhor...

Bandeira da Amizade