Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 33 - Dúvidas dos Médiuns

O Cristiano é um médium de uma corrente de umbanda. Ele estava em dúvida se devia ou não continuar fazendo parte da corrente.

- Você está gostando de participar da umbanda, de forma ativa como médium de corrente?

Ele fez uma pausa, provavelmente para uma rápida reflexão, e respondeu:

- Eu gosto, só não conheço minha utilidade lá dentro.

- Conte-me como aconteceu o convite para você entrar na gira.

- Estava passando uma dificuldade comercial muito complicada, e estava fisicamente muito fraco. Conversando com minha mãe-de-santo, ela disse que minha vida não entraria nos eixos se não entrasse na gira.

- Você entrou pelo caminho errado. O certo seria você primeiro resolver, com a ajuda dos espíritos, o teu problema material e depois caso você tivesse vontade, fazer teu ingresso no espinhoso caminho de cavalo da umbanda, tendo como incentivo o amor à religião. Se agora, resolvido o problema, você está buscando justificativas para romper o compromisso assumido faça-o, sem nenhum constrangimento. Aconselhei.

- Mas me disseram que não posso mais sair, porque voltam todos os problemas. – contou, assustado.

- Outra bobagem. Você pode sair que nada de ruim vai acontecer. Mas faça da forma correta: conte à sua mãe-de-santo o seu desejo, que ela levantará teu alguidar. Isso faz parte da lei, mas faça direito, justifique àqueles que o ajudaram, para quando você precisar, mesmo não estando vinculado à corrente, receber ajuda. E se você for com freqüência receber vibrações, e continuar cultuando as entidades através de orações e amalás, sua mediunidade se manterá equilibrada.

- Qual o seu procedimento quando o médium quer sair corrente. É assim, como você está falando? Perguntou, intrigado.

- No nosso terreiro, existem três portas: a da entrada, a da saída, e a da expulsão. Esta última, felizmente, faz muito tempo que não é usada, talvez por causa da porta da entrada. Nunca disse à ninguém que é necessário desenvolver a mediunidade, por ser uma assertiva mentirosa. Prefiro aconselhar para a pessoa pensar bem ao escolher este caminho, e que o faça com amor, com alegria e sem nenhuma influência externa, seja produto do medo ou da imposição. Quando vão sair, e isso acontece com freqüência, deixo bem claro que a porta da saída continua aberta para suas visitas normais e para visitar seus irmãos de corrente que permanecerem na gira.

- Vou fazer isso. Mas quero fazer uma pergunta: se não é para resolver os problemas materiais ou mediúnicos, qual a vantagem de estar se sacrificando no desenvolvimento? É só para fazer caridade?

- Caridade para quem? Ninguém precisa de você. Outro ocupará teu lugar. Respondi atravessado.

Notei que ele ficou embaraçado com minha resposta. Resolvi explicar melhor:

- Caridade, quem faz é a gira em seu todo. Um membro quando sai, não quebra o alicerce do terreiro. No espiritismo, o médium faz a caridade para si mesmo, ganhando a oportunidade de resgatar seus pecados cármicos e, principalmente, equilibrando seus sentimentos e emoções.

- Como equilibrar sentimentos e emoções?

- Vou exemplificar com a trilogia da umbanda: força, inocência e humildade. Temos dentro de nós esses sentimentos, mas de forma desequilibrada. No desenvolvimento da mediunidade, os caboclos trabalham na força, os pretos-velho na humildade e as crianças na inocência. Na troca das energias entre o médium e o espírito, esses sentimentos vão crescendo, até atingirem o equilíbrio, deixando o médium mais forte, mais inocente e humilde, nivelando os demais sentimentos a eles ligados, como a conscientização, a calma, o amor, a alegria, a sabedoria, a liberdade e assim por diante. Expliquei, de forma pausada e clara.

- Nunca tinha pensado assim. Vou repensar meu assunto – confidenciou.

Senti ter atingido o que pretendia: ele sentir a razão de ser um médium participativo da umbanda.

Junto com o Cristiano, a tudo ouvindo atentamente, estava um outro médium da mesma casa. Ele indagou:

- Posso lhe fazer uma pergunta?

- Claro! Se souber responder, farei com muito prazer. Respondi, solícito.

- O meu caso é diferente do dele. Adoro a gira, gosto de estar nos dias de trabalho, dizem que tenho mediunidade, mas não sei identificar nem o seu tipo nem sua potencialidade. Como posso saber?

- Você já mostrou, pela pergunta, ser um médium com fé e alegria. Esse é o começo. Tipo e potencial, ninguém pode antever. A mediunidade acontece, ela se desenvolve de forma natural, dependendo do próprio esforço. Deixe acontecer.

- Mas não é a mãe-de-santo quem deve saber? Perguntou, desconfiado.

- Se você duvida da capacidade da sua dirigente, é melhor você sair junto com o Cristiano. Pai ou mãe-de-santo não dão mediunidade para ninguém. Eles são apenas os dirigentes da gira e cuidam dos seus filhos de corrente. Faça o que ela determinar, por ser com certeza, o melhor para você. Cumpra as ordens do terreiro, senão você se enquadrará como rebelde. Sempre que você tiver dúvidas, pergunte a ela, que você terá uma resposta. Não contrarie jamais os fundamentos da umbanda.

- Nunca ninguém me explicou o que são fundamentos da umbanda.

- Fundamentos são os alicerces da umbanda, sua lei, ditada pela filosofia do dirigente do terreiro. O respeito aos orixás, às entidades, ao terreiro, à hierarquia, aos irmãos de corrente, aos consulentes e visitantes, e às regras determinadas pelos ensinamentos da Lei Maior. É, em síntese, o respeito ao bom senso e o amor que a umbanda prega. Respondi.

Sem querer, meu entusiasmo desviou a explicação que ia dar sobre mediunidade. Ele não perdoou:

- Fale mais sobre a mediunidade.

- Os potenciais todos têm. Um médium em desenvolvimento tem que passar por fase típicas: suar as mãos, sentir calafrios, tonturas, incorporações desencontradas, muitas vezes caindo no terreiro com as salutares incorporações de espíritos atrasados ou trevosos. As dúvidas começam a mexer com a cabeça de cada um.

Fui interrompido pelo Cristiano:

- Como pode uma incorporação de espírito atrasado ou trevoso ser salutar?

- Pela lei da afinidade! Todos nós sempre estamos imantados por energias ruins, algumas vezes até malignas. Quando o espírito com a mesma vibração desincorpora, ela leva junto as energias semelhantes, livrando o médium de suas interferências. Quando eu me sentia assim, recebia um espírito dessa faixa, para me limpar. Hoje não posso mais fazer isso. Expliquei.

- Se antes podia fazer, por que hoje não pode?

- Hoje tenho coroa de pai-de-santo. Já pensou como crescerá a força de um trevoso com esta hierarquia?

- Continue falando sobre as incorporações. Pediu, resignado com a explicação.

- É comum o médium iniciante incorporar na vibração do espírito, ou seja, quando a entidade chega perto, ele incorpora pela aproximação e não pela tomada do corpo e da mente, fato que não deve ser jamais recriminado pelos dirigentes, por ser comum, não trazendo nenhum prejuízo ao médium ou à corrente. No desenvolvimento, depois de todo o processo do bê-a-bá, as entidades de luz começam a incorporar. O médium fica mais dócil e mais adaptável às incorporações dos protetores. Já têm presença definida, pedem charuto e bebida, que lhes são concedidas a critério da direção da casa, até iniciarem um diálogo com alguém. Aí vem a grande dúvida: sou eu ou o espírito? Questionam. Isso é perfeitamente normal, enquadrando-se no processo comum do desenvolvimento da mediunidade. Quando o médium começa a perceber que as coisas que faz e diz estão corretas, começa a sentir confiança em si próprio. Essa é a forma comum do desenvolvimento da mediunidade.

- A mediunidade está me parecendo uma faca de dois gumes. Ela pode ser voltada para o mal?

Lembrei-me de uma consulta do Caboclo Akuan com um promotor público, que estava com sua vida ameaçada pelos traficantes de drogas, por causa de uma série de denúncias apresentadas na justiça pelo promotor. Por essa razão, andava sempre armado como precaução. Durante a consulta com a entidade, ele lembrou-se estar carregando na cinta a sua arma. Imediatamente se desculpou:

- Caboclo, estou lhe faltando com o respeito. Estou conversando com o senhor e, por descuido, trouxe comigo a minha arma que sempre carrego para minha segurança. Falou, demonstrando uma expectativa quanto à resposta do espírito.

- Não tem importância, meu filho. A arma é como a mediunidade: só causa dano quando é mal usada.

Expliquei ao moço, depois de relatar a consulta e a resposta do Caboclo Akuan ao promotor, que a mediunidade, ao contrário do que muitos dizem, é uma conquista do nosso próprio espírito, por ser a soma dos recursos acumulados em nossa espiritualidade, que nos dá maiores oportunidades para resgatarmos nossos carmas.

O Cristiano desistiu de abandonar a gira e seu amigo prometeu não questionar mais a umbanda. Mas antes de me despedir, deixei enfatizadas mais algumas palavras:

- Não se esqueçam: o médium deve cuidar de sua cultura, honrar os espíritos acima de tudo, doar-se inteiramente à casa que trabalha, sem entretanto esquecer de equilibrar sua vida profissional, social e familiar, e fugir do fanatismo tão nocivo ao bem estar dos religiosos. Deve respeitar as outras religiões, sem querer impor aos outros as suas convicções. Não beber, controlar seu emocional e não cobrar nada da religião. Nunca aceitar favores ou pagamentos pelos trabalhos que fizer e jamais usar a energia do sangue em seus trabalhos e, principalmente, nunca sacrificar nenhum animal. Por isso mesmo, antes de se filiar à uma casa, deve saber dos princípios filosóficos dos seus dirigentes. Deve fazer da umbanda uma religião alegre, gostosa e vibrante. Para isso não deve se imiscuir nos problemas dos irmãos de corrente, e nunca julgá-los. Encerrei.

Bandeira da Amizade