Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 32 - Encaminhar os espíritos

Nós ficamos frágeis e inconformados com a morte das pessoas que amamos, seja um pai, ou uma mãe, os parentes e os amigos.

É irreparável a ausência física deles. É inevitável a saudade. Ela faz parte da tristeza, algumas vezes transformada em desespero. Nossa cultura justifica esse comportamento. Se tivéssemos uma conscientização maior do destino do espírito dos que desencarnam, quem sabe não sofrêssemos. Como não a temos, choramos a morte dos que amamos. Esses pensamentos remoíam minha cabeça, enquanto ouvia na sala da casa da Geni o seu desesperado relato da morte de sua mãe, acometida de uma parada cardíaca.

Ela era uma mulher de meia idade, magra, cabelos já grisalhos misturados com os negros, amarrados atrás. Arcada pela própria constituição física, seus olhos deixavam transparecer o seu sofrimento. Sua boca em nenhum momento deixou sequer esboçar um sorriso. Estava muito mal, e contava sem parar de falar as qualidades de sua mãe e o amor que tinha por ela, até que em prantos deixou escapar uma lamuria:

- Por que Deus foi ruim comigo?

- Não se queixe, você tem um dedicado marido e filhos saudáveis. Tentei consolar.

- Você não entende? Foi a minha mãe que morreu.

Não sou entendido no assunto de estudar as palavras adequadas para acalmar histerismo. Sou apenas um pai-de-santo, às vezes abençoado como outros tantos, por receber intuição dos espíritos. Acho que isso aconteceu, porque achei que estava no momento de dar um basta ao doentio apego da Geni. Era minha conhecida já há longo tempo, o que me permitia falar sem rodeios.

- Você me procurou para que eu pudesse te ajudar, mas pelo jeito você devia procurar algumas carpideiras para fazer coro. Falei, olhando para meu relógio dando a entender que ia embora.

Ela assustou-se com minha grosseria. Parou de chorar e ficou me olhando, boquiaberta.

- Infelizmente ainda tenho compromissos hoje. – disse, levantando-me do sofá. Não sei se eu vou poder ajudar você sem a assistência direta das entidades.
- Eu só quero saber como está o espírito dela.

- Estamos na quinta-feira. Você pode esperar até segunda-feira para saber. Te aguardo no terreiro, para você falar com a entidade.

Conforme havíamos combinado, a Geni já estava consultando com o Caboclo Akuan, incorporado em mim. Sentada na frente dele, a entidade perguntou, em seu estilo:

- O que está afligindo você?

- É que minha mãe morreu. Estou desesperada.

- Seu corpo morreu, o seu espírito não. Se te faz bem, vou trazer o espírito dela para conversar com você.

Após chamar um médium, ele induziu a incorporação do espírito da mãe da Geni, e ambas conversaram. Deve ter fluido bem a conversação porque a Geni estava emocionada e mais calma. Agradeceu a oportunidade e, antes de ir embora, perguntou à entidade:

- Minha mãe disse que estava bem próxima de mim, mas agora iria seguir o seu caminho. Por que isso acontece?

- Vocês ouvem ensinamentos sobre entidades obsessoras, que ficam ligados nos encarnados. No seu caso é o inverso: você é que atrapalha o espírito. Ele quer seguir seu caminho evolutivo, mas você não permite com seu infundado desespero. Se ao invés de mergulhar na revolta da separação você tiver a compreensão da passagem dos espíritos ao mundo invisível, o espírito de sua mãe teria mais tranqüilidade para seguir sua jornada.

Atendendo a sua egoísta necessidade de falar com ela os mentores do espaço se aproveitaram para acalmar sua revolta e livra-la da imantação que você exercia sobre ela. Explicou a entidade de forma direta e austera.

Para quem pratica o espiritismo, situações como a da Geni são comuns. Atendi uma pessoa que tinha perdido um filho com idade jovem. Não chorava com medo de prender o espírito de seu filho, o que é errado. A revolta é que prejudica o desencarnado, nunca o choro. Sobre o assunto, gosto de dar um exemplo material: se um homem tiver que empreender uma longa viagem, e seu familiares lhe afirmarem que poderá ficar sossegado porque eles vão ficar bem, e qualquer dificuldade eles resolverão, com certeza a despreocupação de deixar seus familiares diminuirá a tristeza de ter que dela se afastar. Em caso contrário, ele viajará preocupado e tenso. Devemos imaginar que a morte é um afastamento temporário.

Com respeito a essa conscientização as religiões têm uma parcela de culpa. No catolicismo a família do morto pede para o padre rezar uma missa em intenção à sua alma. No espiritismo pede que o espírito do falecido seja recebido no astral superior. Só mencionando essas duas religiões já se evidencia uma distorção: somos evoluídos para nos credenciar com competência para pedir por nossos mortos? Não seria mais coerente, o padre rezar uma missa pedindo aos santos para nos acalmar, ou pedir aos espíritos que não nos tornem obsessores dos espíritos? Pensando assim quando peço por alguém desencarnado, passei a dizer:

- Meu Pai Oxalá, mestre Jesus Cristo. Partiu da terra o espírito do nosso amigo Fulano de Tal, e nós daqui queremos que ele possa chegar ao lugar no espaço a que tem direito e por ele conquistado duramente através do resgate de seus carmas. Não queremos ser empecilho para a sua evolução, por isso rogamos ao Senhor e a todos nossos guias espirituais que nos confortem, nos acalmem, e que encham nossos corações de amor e fé e, quando for possível, permita ao nosso irmão que partiu, receber a notícia que aqui na terra todos seus familiares e amigos estão bem e que o amam muito. Obrigado!

Enquanto voltava para casa, lembrei-me da morte das duas mães na minha vida. A Alcina, minha mãe de carne, e a Izette, a mãe da Yedda. A minha devia ser filha de Iemanjá, pelo seu jeito bonachão. Seus ídolos eram seus filhos. Não gostava de se arrumar ou usar pinturas, exceto nas poucas reuniões sociais que ia, ocasião em que demonstrava toda sua categoria de mulher refinada. Ela tinha uma marca: adorava acordar tarde. Antes das doze horas, ficava espreguiçada na cama. A Izette era o contrario: magra, lépida e falante. Tinha três apegos: um wolkswagem amarelo, uma bomba para sua asma, e um baralho. Acordava cedo, para cuidar de suas tarefas do lar, para ficar livre à tarde, e poder ir jogar com suas amigas contemporâneas. Com a Alcina eu era dócil e submisso, com a Izette eu implicava. Coisas da terra, pois eu cumpria meu papel de genro. Pouca gente sabe, mas o meu amor pelas duas era igual. Eu tive a felicidade de ter duas mães, e ambas morreram com mais de setenta anos. A Alcina foi dormir e não acordou mais. A Izette, vindo da casa de uma amiga onde tinha ido jogar, teve uma parada cardíaca – como a mãe da Geni, e ainda teve tempo de estacionar seu conhecido fuscão amarelo e morrer em cima da direção. Quando foi encontrada dentro sua bolsa estavam sua bomba para asma, um baralho e a féria do dia. Ambas morreram como gostavam de viver. Lamentei a morte das duas, porque sabia que eu ia prantear as suas ausências físicas. Mas, pelos desencarnes, sou agradecido a Deus, pela morte que elas tiveram.

Bandeira da Amizade