Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 3 - Como perdi o medo

O fenômeno da materialização do espírito, é a maior prova da sua existência. É quando ele toma forma densa, tornando-se matéria e, consequentemente, visível a qualquer um, independente de vidência mediúnica.

Aceitando o espiritismo como verdade, corria onde podia, atrás do fenômeno. Queria ver, sentir e ter contato com as entidades. Passei a prestar atenção nas mínimas ocorrências que pudessem ser imputáveis às forças não esclarecidas pela ciência comum. O fenômeno da materialização do espírito, é a maior prova da sua existência. É quando ele toma forma densa, tornando-se matéria e, consequentemente, visível a qualquer um, independente de vidência mediúnica. Interessante que ela pode ser parcial ou total, ou seja: do corpo inteiro, ou apenas um rosto ou outro membro qualquer. O espírito se materializa, através do ectoplasma do médium. A lenda do lençol que cobre o fantasma nasceu com a materialização do rosto do espírito, pois ele – o rosto, fica envolvido na densidade do ectoplasma, semelhante a um lençol branco.

Poucos são os paranormais com esta faculdade de produzir ectoplasma suficiente para transformar uma energia espiritual em matéria. O Maury Rodrigues da Cruz é um deles. Assisti vários trabalhos deste tipo realizados por esse diferenciado médium e, embora impressionantes, eles foram maravilhosos e deixaram marcas inesquecíveis na minha jornada dentro do espiritismo, principalmente um deles que elegi como o mais terrível e assustador. Trabalhava normalmente nos meus afazeres profissionais, quando recebi a visita do Maury. Seu rosto estava vermelho e seus lábios inchados, cheios de aftas. Pediu-me para ajudá-lo a fazer um trabalho imediatamente, o que acalmaria as inconveniências causadas pela sua mediunidade. Sua doença, segundo explicou, era o excesso de ectoplasma que acumulava em seu corpo, o qual deveria ser expelido por um trabalho de materialização. Fomos ao centro espírita. Era uma casa de madeira, com dois andares. Na parte da frente ficava um auditório, onde estava a cabina de materialização, uma confortável poltrona, cercada por grossa cortina de veludo escuro. Durante um trabalho de materialização, o médium doador do ectoplasma deve ficar no escuro, sem nenhuma luz. Após o auditório havia outra sala, uma ante-sala e finalmente, na parte dos fundos, o quarto do Maury. Foi nele que iniciamos o trabalho. Seu quarto era simples, com uma cama, cômodo e um guarda-roupas. Fechamos todas as janelas e as vedamos com um pano preto para haver absoluta escuridão. Fiquei meio desconfiado, pois nunca tinha participado tão diretamente de um trabalho de efeitos físicos. O que amparava meu medo era que o Maury estava comigo. Com a luz acesa incorporou o espírito do irmão Antonio Grim, entidade diretora dos trabalhos de efeitos físicos.

-Salve, irmão Fernando – cumprimentou, carinhosamente. Não tenha medo. Vou levar o médium para a cabina da materializações. Sente-se na cama, e fique aguardando. Determinou.

Explicando a necessidade da escuridão absoluta para esse tipo de trabalho, apagou a luz, fechou a porta e foi para o auditório. Ouvi os seus passos caminhando pesadamente no piso levando o Maury. Fiquei nervoso pois estava sozinho no quarto escuro. Valha-me Jesus! O que estou fazendo aqui? O cara é louco! O que pensa que sou? Meus pensamentos estavam direcionados para esta linha na tentativa talvez de esconder o medo. Foi quando ouvi um tipo de pequena explosão, exalando um cheiro forte e azedo. Ouvi alguém correr pelo quarto de um lado para outro. Fiquei apavorado. Rezava. Não em pensamento. Em voz alta mesmo. Pai Nosso... e repetia: Jesus, socorro! Um compartimento no segundo andar de uma casa de madeira, com assoalho de madeira e paredes também de madeira, facilita para se ouvir o espírito materializado, correndo e se atirando, ora numa parede, ora noutra, e se dando ao luxo ainda, quando passava pela minha frente, de assoprar meu rosto e bater em minha cabeça. Foi uma experiência assustadora. De repente, aquela típica alma do outro mundo, com massa corpórea, parou na minha frente. Senti seu bafo, sei lá de quantos anos. Sentou-se ao meu lado na cama. Já que Jesus não me ouvia, berrei: Antonio Grim, venha depressa! Foi um alívio. O mesmo barulho que ouvi no começo, repetiu-se e o quarto ficou silencioso. O irmão Antonio Grim, voltando do cômodo onde foi no início, abriu a porta , acendeu a luz, olhou-me e perguntou:
-Irmão Fernando, ficou com medo?

Nunca fui grosseiro com as entidades. Devotava, como ainda devoto, o meu maior respeito por todas elas. Mas não naquele dia. Respondi grosseiramente:

- O que o senhor acha?

Com a mesma paz que chegou, esboçando leve sorriso, despediu-se. Voltou o Maury sobre o qual descarreguei toda minha ira e custei a perceber que já não tinha as aftas.

Naquele dia, perdi totalmente o medo dos espíritos.

Bandeira da Amizade