Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 28 - Anjo da Guarda

No tempo da duração de uma viagem, os assuntos mais polêmicos sempre são discutidos de uma forma mais minuciosa, do que em reuniões formais.

Foi numa delas, tendo como parceiro de boléia o Álvaro, um culto e dedicado pesquisador da religião umbandista que provoquei um assunto que só gosto de discutir com pessoas entendidas:

- Álvaro, qual o teu entendimento sobre o Anjo da Guarda?

- Como diz o nome, é o anjo que nos protege. Afirmou

Esperava outra resposta. Fiquei calado, demonstrando decepção. Ele deve ter percebido meu desapontamento, tanto que me interpelou:

- Não é o que você pensa?

- Talvez para mim o maior mistério da umbanda, para o qual não tenho uma explicação, seja o Anjo da Guarda. - respondi.

Despertei a curiosidade no meu simpático e culto companheiro de viagem.

- Já vem você com tuas polêmicas. Nunca ninguém discutiu isso comigo. Falou, já no aguardo de outras indagações.

- Sigo, apenas, o ritual da umbanda. Quando abro uma gira, reverencio: Zambi, que é Deus; Oxalá, o nosso Mestre Jesus Cristo; Ogum, meu orixá, aquele que só é a energia cósmica; o Caboclo Akuan, meu pai-de-cabeça, o índio de ogum, meu protetor, o responsável e o guardião, desde meu nascimento, pela minha evolução espiritual; o Pai Maneco, o preto-velho, o meu desenvolvedor, o meu mestre, o guia espiritual, amigo e protetor material; os Caboclos Junco Verde e da Cachoeira, meus guias nas linhas de Oxóssi e Xangô, encerrando com as entidades da quimbanda. Continuando no ritual, todos os médiuns batem a cabeça para a umbanda, saudando o orixás cósmicos, todos os guias dos médiuns integrantes do grupo, e o Anjo da Guarda. Argumentei, dando a entender ter concluído.

- Você explicou o ritual no teu terreiro, igual, em princípio, a todos os outros. Mas o que tem a ver isso com o Anjo da Guarda?

- Já saudei a Deus, Jesus Cristo, o pai-de-cabeça, o desenvolvedor e também protetor e guia, os chefes das outras linhas, e o exu. Não sei onde o Anjo da Guarda se encaixa.

O Álvaro ficou calado e pensativo. Depois de rodado uns dez quilômetros, ele quebrou o silêncio:

- Será São Gabriel, São Miguel ou São Rafael?

Achei engraçado. Tinha atingido meu objetivo, que outro não era, senão despertar a polêmica e confundir o amigo. Argumentei:

- Não acho. São Gabriel veio anunciar à Virgem Maria o nascimento de Nosso Salvador; São Rafael guiou Tobias e Miguel; e São Miguel chefiando uma falange de anjos, derrotou Lucifer. E depois são Arcanjos, e não anjos.

- Qual tua idéia sobre anjo?

- A idéia não é minha, é ensinamento bíblico. Retruquei. Anjos são os espíritos puros criados por Deus, e significam mensageiros, e Anjo da Guarda é o anjo que Deus dá a cada homem, para protegê-lo.

- Quem você acha ser nosso Anjo da Guarda? Inquiriu.

- Acho que é o nosso próprio espírito.

- Como assim, nosso próprio espírito. Você está se contradizendo. Como você chegou a essa conclusão?

- Se temos dentro de nós a vontade e a partícula Divina, não pode ser essa essência, nosso próprio guardião? E se nessa vida, estamos vivendo uma unidade de encarnação, temos todo direito de evocar a somatória de nossas vidas anteriores, para proteger a nossa atual. Quem melhor que nosso próprio espírito, para nos proteger?

- Quando acendemos uma vela para nosso Anjo da Guarda. estamos iluminando nosso próprio espírito? Perguntou, dando a entender ter compreendido o que eu queria dizer.

- Sim, é o que penso até haver uma explicação melhor para dirimir minha duvida. Até lá, continuo a cultuar meu Anjo da Guarda, com um pé atrás. Completei, cheio de dúvida.

Bandeira da Amizade