Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 26 - Caboclo Akuan

Meu trabalho profissional ficava perto de um aprazível logradouro municipal. Quando ficava nervoso, irritado ou estava perdendo meu controle emocional, ia a este mini zoológico.

Parava em frente do enorme viveiro das águias, e ficava alguns minutos, absorvido e encantado com elas. Era a maneira mais fácil de curar minhas dificuldades. Cheguei até mesmo a fazer pedidos para elas, e de forma surpreendente, fui atendido. Sempre gostei das águias, gaviões e qualquer ave de rapina.

Quando comecei a receber o Ogum, sem saber seu nome, ele riscava um ponto, assinalando uma ave, em um canto da tábua. Antes de subir, o Caboclo faz um gesto, como se soltasse uma ave de seu antebraço, momento que o terreiro cria uma energia muito forte, sentida por todos os presentes.

Não gosto de ouvir sonho dos outros, mas adoro contar os meus. Há muitos anos, sem imaginar um dia estar integrado à religião umbandista, tive um sonho muito marcante. Estava no alto de um morro, vendo uma multidão compacta. Lá no fundo vi um ponto de luz que crescia à medida que se aproximava de mim. Tornou-se imenso. Era de cor prateada, todo cheio de faíscas, e transformou-se em uma águia enorme, prateada, vibrando bastante como se fosse dois fios descarregando eletricidade. Parou na minha frente e sobre aquela multidão movimentava suas enormes asas, deixando escapar uma brisa energética e gostosa. Embevecido, emocionei-me, ao absorver aquela maravilhosa energia, quando ela foi encolhendo e transformou-se num homem. Pena! Quando ia ver seu rosto, acordei. Tentei dormir novamente, para ver se o sonho continuava, mas não consegui. Fiquei muito excitado e me levantei, extasiado com este evidente contato espiritual. Juntando as peças do quebra-cabeça espiritual, descobri a minha ligação com as aves de vôos altos: era a mesma do meu pai-de-cabeça, o Caboclo Akuan.

Estava incorporado com ele quando, no meio no terreiro, em vibração especial, estava uma senhora, tendo ao colo uma menina excepcional. O Caboclo levantou-se, pegou no Congá duas espadas e um escudo, e deu de presente para a menina. Emocionado disse à mãe:

- Só quando você desencarnar é que vai entender a razão de você ter esta filha. – falou, voltando ao seu lugar.

Os cambonos estranharam esta atípica atitude do forte guerreiro. Ele contou sua comovente história.

- Eu era cacique. Tive vários filhos. Um deles como esta menina – disse apontando para o meio do terreiro. Eu a amava, bem mais que os outros. Não sabia a razão, por que logo a doente, quando deveria me apegar aos sadios? E o Cacique não deve demonstrar fraquezas sentimentais. Eu a pegava escondido, e corria com ela para o mato.

Um fato curioso. Quando o espírito conta suas histórias, o médium consciente, como eu, vê a cena, à medida que a lembrança do espírito reaviva a cena. Via aquele enorme índio, com a criança de encontro ao seu peito, correndo para o mato, até mesmo desviando as folhagens e árvores. Foi nítida a visão. O Caboclo continuou:

- Quando sabia que ninguém podia me ver, punha minha filha no chão e ficava bom tempo, brincando com ela feito um curumim. Foi precoce sua morte. Chorei muito, e senti sua falta. Mas não ia querer conhecer a razão, sabendo que os deuses estavam cuidando dela. Emocionado parou de falar.

Os cambonos, vendo a emoção da entidade, cuidaram para ninguém do terreiro chegar perto. Ele continuou:

- Quando desencarnei, tive o reencontro. Entendi tudo que antes era mistério para mim. Esta menina, quando encarnada foi minha filha, hoje trabalha comigo, em forma de águia...

Bandeira da Amizade