Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 25 - De volta

Enquanto ainda rememorava a minha infância e a minha trajetória na vida espiritual, fui despertado por uma advertência:

- As pessoas estão esperando o início da gira.

Era a Lucilia, a mãe-de-santo do terreiro, minha herdeira espiritual.

Na frente do Congá, saí da reflexão, voltando aos dias atuais, reassumindo a minha posição de dirigente, dando inicio aos nossos rituais.

Pronunciei as tradicionais palavras, pedindo a proteção de Deus, Nosso Pai, de Oxalá, Jesus Cristo, e das entidades chefes no terreiro, e convidei a todos a rezarem, comigo, o Pai Nosso. A respeito do grande mantra Universal - o Pai Nosso, é interessante repararem a coincidência: foi ensinado por Jesus, conforme consta no Evangelho, segundo Mateus. Tem sete menções, sendo três glorificando a Deus, e quatro rogando as necessidades do homem. Vejam: As tr~es primeiras, dizem: 1. Pai Nosso que estais no Céu, 2, Santificado seja o Vosso nome; 3. Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade, assim na terra, como no céu; As quatro seguintes: 4. O pão nosso de cada dia, nos daí hoje; 5. Perdoai nossas dividas, assim como perdoamos nossos devedores; 6. Não nos deixeis cair em tentação; 7. Mas livrai-nos do mal . Amém. Acho que Jesus sabia que se não houvesse pedido para nós, não daríamos ênfase à oração Divina. Depois do Pai Nosso, cantei o ponto especial da abertura, e declarei aberta a gira. Batemos a cabeça para a umbanda, mandei fazer a defumação em todos os presentes, saudei os anjos da guarda, os Orixás cósmicos, os espíritos, e o Exu Tranca Ruas. Percebi que uma parte da assistência, não se voltou para a entrada do terreiro. Fazendo cara feia, chamei a atenção:

- Todos devem ficar de frente para a entrada do terreiro, porque é ali, onde está a Tronqueira, que o guardião do Exu Tranca Ruas fica, e este ponto é em sua saudação.

Atendido na minha observação, e dando início à abertura da gira, voltei para a frente do congá, para receber o Caboclo Akuan, chefe espiritual do terreiro, que traz consigo grande falange, cujos espíritos incorporam, ao mesmo tempo, nos vários cavalos, para dar segurança ao terreiro. Os terreiros nunca devem deixar de ter um ritual de segurança, e muito menos não ter hora certa para iniciar. Chegar atrasado, é falta de educação. Quando inibimos a incorporação, por não seguir um horário rígido para iniciar os trabalhos, com certeza somo nós, e não eles – os espíritos- que chegam atrasados. A umbanda é organizada. Se o terreiro não seguir princípios mínimos do relacionamento homem e espírito, fica, obviamente, um terreiro desorganizado, pondo em dúvida até mesmo a qualidade das comunicações. Ainda com o pensamento voltado para minha obrigação de manter ordem no terreiro, ouvi uma suave voz, no interior de minha cabeça, deixando uma doce mensagem:

- Calma, meu filho. O aprendizado através da paciência é bem mais proveitoso.

Meus pensamentos se voltaram para uma curta viajem que fiz até o litoral catarinense. Na estrada, enquanto dirigia, sob a rígida fiscalização da Yedda, conversava animadamente com nossa amiga Etelvina, uma ilustre e atuante historiadora, com várias obras editadas. É gostoso conversar com pessoas cultas como a Etelvina. Aprende-se muito, se falarmos pouco, é claro. Procurando tirar proveito das suas experiências como pesquisadora, expliquei estar muito interessado no resgate da história da umbanda. Complementei, dizendo pretender introduzir em nosso terreiro as regras nascidas na origem da religião. Ela fez uma observação dizendo determinada:

- Cuidado com as regras. Visitei o terreiro e o que mais admirei, foi a alegria dos médiuns praticando a umbanda. Ali, todos são pequenos deuses. As regras podem cercear suas liberdades.

- Pequenos deuses? Não entendi.

- É. Todos resolvem os problemas das pessoas, pela sua própria capacidade. Cada um sabe o que fazer.

Diante a apropriada lembrança, voltei-me a todos e implorei:

- Não liguem minha rabugice. Foi coisa de velho implicante. - esclareci. Peço a todos: se em algum momento, eu estiver tirando a liberdade de vocês ou impondo regras desnecessárias, me chamem a atenção.

Sob o semblante aliviado da corrente, incorporei, dando início aos trabalhos.

Bandeira da Amizade