Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 24 - Pai Joaquim e Cabocla Guaracira

Dias após, reunido com alguns amigos, empolgado, eu relatava a todos a minha feitura de pai-de-santo, fazendo questão de contar os detalhes do sagrado ritual, principalmente para que não fosse criada nenhuma fantasia em torno disso.

Alguém me perguntou:

- Qual a ligação sua com o Pai Joaquim e a Cabocla Guaracira, para apadrinharem sua coroa?

- O Pai Joaquim de Angola foi a primeira entidade que vi incorporar em um médium. Fiquei muito impressionado com a sua meiguice, aliada com uma esperteza afinada. Na continuidade, em outros cavalos, sempre foi muito atencioso comigo, estreitando, cada vez mais, nossa ligação. Na linha kardecista, quando eram chamados os pretos, eu recebia o Pai Joaquim. Sua vibração era envolvente, suave, parecendo um sopro quente, como o calor de uma lâmpada poderosa. Já participando na umbanda, percebi a ligação entre ele e o Pai Maneco. Parecem irmãos. Durante uma consulta, o Pai Maneco mandou seu cambono levar um palheiro ao Pai Joaquim, que estava sentado no lado oposto do terreiro. Como é costume durante uma gira de umbanda, ninguém deve atravessar pelo meio do terreiro, devendo circular por trás da corrente. No trajeto, ele encontrou o cambono do Pai Joaquim, que estava vindo pedir, ao Pai Maneco, um palheiro, por determinação da entidade. A ligação entre eles, é muito forte, esclareci. Amo este velho. – conclui, emocionado.

- Não tenha duvida que você está bem apadrinhado. – respondeu alguém.

- Quanto à cabocla Guaracira, temos muitas histórias. Antes mesmo de ser da religião da umbanda, sentia a presença de um índio, chamado Guaracy. Ele sempre estava acompanhado da índia Guaracira. E eu era ainda kardecista – brinquei. Na Tenda Espírita São Sebastião, a Cabocla incorpora na minha mãe-de-santo Stelinha de Oxum, tornando nossa ligação mais íntima. E é uma cabocla de uma clareza incrível. Escute estas duas passagens:

Estava servindo de cambono para ela, quando uma pessoa, doente, recebeu uma receita para seus males. Era uma mistura de ervas. Quando a consulente saiu, ela explicou:

- Nos dias de hoje, os remédios modernos da terra são, às vezes, mais eficientes que as ervas. Mas não é certo os espíritos receitarem pelos médicos. Senão, porque estudam tanto? – completou, demonstrando estar bem ao par da modernidade.

Na outra passagem, teve uma participação eficiente num caso, aliviando e fazendo desaparecer um mal estar que me dominava.

Eu era, talvez o único médium que tinha permissão do pai-de-santo para participar de um trabalho estranho ao terreiro: o da linha kardecista, depois por mim abandonado, por serem suas vibrações diferentes com a umbanda. Íamos iniciar os trabalhos quando, de surpresa, apareceu na sala o meu pai-de-santo, o Ferro. Saudei entusiasmado

- Que bom ver você aqui.

- É, você fala tanto deste grupo, que quis conhecê-lo. Podem continuar, que ficarei daqui, assistindo.

Fiquei orgulhoso. Fiz de tudo para a sessão corresponder as expectativas do ilustre visitante. Chamamos os caboclinhos, os pretinhos e todas as entidades que nos assistiam. Terminado o trabalho, corri para o Ferro.

- Você gostou?. Perguntei, dando a entender que sua opinião teria muito valor para mim.

- Amanhã nós conversamos melhor, agora tenho que ir.

Deu um abraço em mim e em todos os companheiros, desejou axé e foi embora. No dia seguinte, fui visitá-lo, esperando sua opinião, provavelmente com elogios.

- Foi o pior trabalho de umbanda que assisti. Fiquei com vergonha de você, que, pelo jeito, não aprendeu nada até hoje em nosso terreiro. Onde já se viu? E continuou criticando com veemência.

- Mas não é umbanda, é trabalho da linha kardecista. Tentei explicar.

- É umbanda! Onde se canta ponto e se chama preto-velho e caboclo, é umbanda, sim senhor! É mistura com a linha kardecista. Estou decepcionado.

Fiquei muito aborrecido. Ele não tinha o direito, embora fosse meu pai-de-santo, de criticar um trabalho honesto, bom e eficiente como era o do nosso grupo. Fechei a cara, desenxabido, e despedi-me.

- Depois conversamos melhor. Estou com pressa, porque tenho que voltar aos meus afazeres profissionais. Até depois!

Na primeira gira do terreiro, veio a Cabocla Guaracira, chamou-me, dizendo querer falar comigo. Fui ao seu toco, sentei e esperei. Ela abraçou-me docemente, ofereceu um gole de sua bebida, que eu, cumprindo a lei, dei três goles, com o rosto virado para ela, e devolvi o coitê, segurando com as duas mãos e agradecendo.

Faz parte da magia da umbanda a bebida alcóolica. Eu não bebo absolutamente nada, e as poucas vezes que ingiro uma bebida deste tipo, fico facilmente embriagado. Incorporado, já bebi uma garrafa inteira de cachaça, sem nada sentir. Mas por que a bebida de álcool na umbanda? A cabocla esclareceu:

- Você sabe a razão da bebida na umbanda? Perguntou.

- Não, e gostaria muito de uma explicação sobre o assunto.

- Uma parte, vai para magia, outra para amolecer a cabeça do cavalo e permitir ao espírito uma incorporação melhor.

A forma simples de falar, desfez um mistério que me incomodava. E eles, os orixás, são assim. Falam e nós entendemos, daí a razão de eu gostar de ouvir suas histórias. Depois desse curto diálogo, a Cabocla voltou ao problema inicial, a minha mágoa com o babalaô. Aconselhou-me:

- Meu filho, não fique triste com teu pai-de-santo. Ele é radical com as coisas da umbanda. Perdoe-o e tente entendê-lo. Também fui olhar teu trabalho, e achei muito bonito e bom. Não esmoreça, continue firme trabalhando.

Não sei se foram as palavras, seu gesto ou sua vibração espiritual, que me fizerem muito bem. Tirei de dentro aquela tristeza, pelo tratamento recebido pela linda entidade de Jurema. Mais do que justo, pois, ser ela a minha madrinha, quando me fazia um dirigente.

Bandeira da Amizade