Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 23 - Sou um Pai de Santo

Já conhecia o Luiz Gulini, um jovem pai-de-santo de grande força mediúnica.

Simpatizei com ele, atraído pela respeitosa maneira de falar da umbanda, além de deixar transparente a sua simplicidade e os conhecimentos demonstrados pelos mistérios da umbanda, trabalha com o Exu Tranca Ruas das Almas, a mesma entidade a quem eu, orgulhosamente, servo como médium. Fui falar com ele e solicitei:

- Luiz, preciso receber a coroa de pai-de-santo. Gostaria muito se você pudesse me preparar.

Sua surpresa foi visível, embora tenha demonstrado satisfação.

- Com muito prazer, Fernando. Grato pela confiança. Mas por que eu, uma pessoa simples?

- Por isso mesmo.

Durante vários dias tínhamos encontros constantes, não só eu pedindo explicações, como ele me ensinando o que julgava necessário. Com seus companheiros e sua esposa Dilma, cuidou da preparação do sagrado ritual: a feitura de um pai-de-santo.

- Vou deitar você na camarinha, enquanto preparamos os pratos para as obrigações. Informou-me.

- Luiz, você é uma pessoa jovem, já pai-de-santo, e sabe muito da religião. Onde aprendeu?

- Com minha mãe-de-santo Lourdes. Inclusive, na sua preparação, sempre pergunto para ela alguma coisa. Não quero errar. – afirmou.

- Fique sossegado, você não vai errar. Falei, confiante.

Ele confeccionou as belas guias de contas, não só a que identifica a hierarquia de dirigente, como as das demais entidades. Comuniquei-lhe meu desejo de fazer o ritual na minha casa do litoral. No dia marcado, fomos todos, o Luiz, o Geraldo Carrano Almeida, a Dilma e alguns membros de sua corrente. Tiramos a cama do quarto onde, com muito zelo, ele estendeu no chão uma esteira, cobrindo-a, cuidadosamente, com um lençol de pano virgem. Na cabeceira, dentro de um alguidar de louça branca, estavam as ervas e bebidas dos orixás, onde foram postas todas as guias. Cercou a esteira com nove velas de cera, destinada aos sete orixás e às linhas do oriente e africana. Convidou-me a segui-lo

- Venha ver como vai ser.

Fomos até a cozinha. A Dilma, hoje mãe-de-santo, comandava um simpático grupo de moças, todas devidamente paramentadas com as saias rodadas, guias e, enquanto cozinhavam e cortavam frutas, entoavam suaves pontos da umbanda. Ele esclareceu:

- Amanhã cedo, quando eu te tirar da camarinha, iremos fazer as entregas.

Com o turíbulo fumegando cheirosa fumaça, o Pai Luiz defumava todo o quarto, também fazendo sua louvação à defumação, cantando pontos. Todos defumados, convidou-me a entrar.

- Quem serão teus padrinhos espirituais? Quero chamá-los, cantando seus pontos.

Eu já os tinha escolhido e por isso não hesitei:

- O Pai Joaquim de Angola e a Cabocla Guaracira.

O Pai Luiz me fez entrar no quarto e, após algumas orações, me convidou a deitar.

- Esta camarinha é o momento da reflexão. As entidades deverão aproximar-se de você que, neste momento de paz, terá condições de receber muitas orientações. A cada nova percepção, bata o adejá que virei conversar com você. Estou aqui, do seu lado. Fique em paz, meu filho. Cumprimentou e afastou-se.

Senti muita paz, segurança e, acima de tudo, sabia que minha coroa estava sendo feita por pessoa competente, o jovem Pai Luiz de Ogum. Pensava como eu iria comportar-me no futuro, como um dirigente espiritual. Conseguiria reunir as pessoas em minha volta? Seria determinado o suficiente para construir o futuro? Teria condições para atender e orientar outras pessoas? E qual seria a diferença de incorporar as entidades, após a feitura? Foi quando senti a presença do Caboclo Akuan, querendo dizer alguma coisa. Falamos mentalmente e ele disse:

- Vou dar meu ponto cantado.

- Que bom meu pai. Seu axé. Implorei, ao mesmo tempo que batia o adejá chamando pelo Pai Luiz.

Ele entrou, sempre silenciosamente, sem nada dizer, olhou-me como me inquirindo.

- Pai Luiz, o Caboclo Akuan quer deixar seu ponto cantado.

Tirando uma caneta e um papel, ajoelhou-se ao meu lado para escrever as palavras que eu transmitia:

- Ogum chamou das matas, Akuan para trabalhar; sua lança e sua flecha são armas neste congá; vencedor de demandas, os seus filhos vem salvar; é caboclo, é guerreiro, vamos todos saravar – ditei as palavras.

- E a melodia?. Pediu.

- Ele disse para você e o Geraldo ficarem na sala, que ele vai intuir.

Na verdade, em poucas tentativas a música ficou pronta, e até hoje cantamos este ponto para chamar o Caboclo Akuan, no terreiro.

Continuei na minha concentração espiritual. Sentia a presença de várias entidades, da umbanda e também familiares. Vinham mensagens de apoio e satisfação. Sentia força e confiança. Criei coragem para a caminhada para a qual me preparava. Serei, ao menos, um pai-de-santo com muita fé.

Às oito horas da manhã, o Pai Luiz entrou no quarto e me tirou da camarinha, ou seja, um ritual simples, mas de muita força. Ao sair do quarto, todos me aguardavam e bateram palmas, saudando o início dos trabalhos. Vi os pratos que seriam entregues às entidades. Estavam lindos, enfeitados, feitos, sem nenhuma dúvida, com muito amor e carinho. Iniciou-se esta fase do ritual.

- Vamos entregar o padê do exu e, depois, iremos até o mar. –

- Pai Luiz, explique direito a necessidade dessas entregas.

A entrega dos amalás, nesse caso, chama-se "obrigação", ou seja, se a entidade incorporar, aceitando o trabalho, ambos, você e ele, estão estabelecendo um vínculo de reciprocidade dentro da religião. Quando você cantar o ponto de chamada, e ele ouvir e incorporar em você, aceitando a entrega do amalá, estará feito o pacto: ele passa a ser, para você, a principal entidade na quimbanda, mesmo que não seja o pai de nascença, e ele, não pode incorporar em outro médium, isso, claro, dentro do terreiro que você comandar, onde ele será o dirigente espiritual e determinará todas as regras dos trabalhos.

Escolhemos um lindo lugar no mato, debaixo do encontro de dois galhos, simbolizando a encruzilhada cósmica, e iniciamos a montagem do trabalho. Concluído, ele ficou muito bonito. Eu ajudei a montá-lo, claro, mas os elementos foram escolhidos pelo Pai Luiz. Reparei existirem vários tipos de bebidas, colocados estrategicamente entre a farofa, charutos, flores, fitas e velas. Inquiri:

- Por que, ao invés de tantas bebidas, não tem uma só?

- Ele é quem vai escolher qual a bebida que vai usar com você. Incorporado em mim, pode usar um tipo, com você outro. Ao escolher a bebida, será a sinalização da aceitação do vínculo espiritual, objetivo dessa entrega.

Todos cantaram o ponto de chamada do poderoso Exu Tranca Ruas das Almas. Pensava: será que ele me aceitará como seu cavalo? Felizmente, senti sua forte vibração e, incorporado, falou:

- Salve, meus filhos. – Dirigindo-se ao trabalho, pegou um charuto e uma garrafa de uísque. Estava feito: a sua bebida seria o uísque.

No caminho para a praia, onde iríamos fazer a entrega para a mãe Iemanjá, fiquei pensando: não gosto de bebidas alcoólicas, e ele vai escolher logo o uísque? Não podia ter pedido água ou, ao menos, uma cerveja? Coisa de exu, resmunguei.

Oxalá, Iemanjá, Ogum, Oxossi, Xangô, Oxum, Iansã, Preto-velho, Crianças e Oriente. Fizemos todas as entregas. Selei um compromisso com as entidades que até hoje me orientam e protegem.

A tarde estava caindo. Todos os presentes ficaram em círculo e o Pai Luiz de Ogum, simbolicamente, para meu pecaminoso orgulho, colocou em meu pescoço a linda guia de pai-de-santo. Jurei honrar o compromisso assumido com a espiritualidade e com a umbanda.

Bandeira da Amizade