Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 22 - A fruta

Estava atento à aula de catecismo que a Francisca estava dando nas dependências da Igreja do meu bairro a um grupo de meninos, entre cinco e dez anos. Era preparação para fazer a primeira comunhão dentro do catolicismo.

Eu era um dos alunos com a idade mínima. Não era só a religião que me fascinava: a Francisca também. Minha paixão por ela transcendia o limite da benquerença, para se infiltrar no sonho do impossível, onde deixava transbordar meu amor por aquela mulher. Nos meus desejos, só queria ter mais vinte anos de idade, para poder cortejar a dona daquele rosto redondo, risonho e aquinhoado pela divina arte do belo. Embevecido eu cuidava para que a classe ficasse quieta e atenta às palavras da formosa professora.

Naquele dia eu não devia ter ido à aula, mesmo que fosse minha primeira falta. O encanto que ela exercia sobre mim foi profanada por ensinamentos rudes e contrários à minha infantil percepção religiosa. Ela sentenciou:

- Quem falta às missas nos domingos está cometendo um pecado mortal.

Em aulas anteriores ela tinha ensinado que quem cometesse um pecado mortal iria para o inferno. Na ocasião achei forte a pena, mas meu otimista raciocínio isentava minha pessoa da negra ameaça: era só não cometer nenhum pecado. Mas faltar a missa era pecado mortal? Retornei à minha casa, desiludido com a minha amada, com a religião católica, com os padres e os santos. Só perdoei Deus e Jesus Cristo. Jogando no lixo o material que carregava para à aula, corri ao encontro de minha mãe e comuniquei:

- Não vou mais fazer a primeira comunhão. Essa religião não presta.

- Por que?

- A Francisca disse que você e o pai vão para o inferno porque vocês não vão nas missas e têm pecado mortal. Falei, dando as costas e correndo para a rua, na ânsia de recuperar o meu tempo perdido na igreja, e arranjar uma nova namorada.

A lembrança de um fato acontecido há mais de sessenta anos, foi reavivada durante uma palestra que fazia a um grupo de umbandistas. Tomava o cuidado de ser bem claro nas explicações, buscando sempre a lógica. Foi quando uma risonha moça presente pediu a palavra para dizer:

- Eu estou muito feliz na umbanda. Minhas entidades são maravilhosas. Sempre estou fazendo oferendas, para agradecer o bem que me fazem.

- Você conhece a estrutura de um terreiro?

O olhar espantado da moça revelou que ela nada conhecia. Contei para eles, se bem que direcionada à risonha loira, uma história do Pai Maneco:

"Quando vocês saboreiam a fruta de uma árvore não se preocupam em saber que ela teve início com uma pequena semente que cresceu, ficou adulta, criou fortes raízes que extrai a água e a força da fértil terra e produziu flores que se transformam em frutos. Foi um longo processo e mesmo assim vocês não agradecem à árvore e toda a organização natural que a torna produtiva e forte. Seus olhos só enxergam a fruta."

Todos aguardavam a continuação da minha explicação. Os pontos tinham que se encontrar. Sabendo disso, continuei:

- Um terreiro de umbanda teve um começo, provavelmente uma semente simbolizada pela vontade obsessiva de um pai-de-santo. Cresceu e criou raízes estruturando fisicamente a casa, firmada com vários pontos magnéticos e de força para manter sua harmonia. O empenho material para as construções físicas, tudo muito caro e sem um provedor, o cuidado com uma corrente de médiuns honestos e caridosos, onde sempre se infiltram os mal intencionados, que têm que ser expurgados como se faz com a parasitas das árvores, faz brotar a flor do amor e da vontade de ajudar os semelhantes. Tudo isso e muito mais que eu talvez não tenha mencionado é que dão as condições para que possa ser oferecido à vocês um fruto mágico colhido das sagradas mãos dos orixás, com o doce sabor de uma madura e gostosa fruta.

O silêncio na sala e o sério olhar da já não mais risonha loira, demonstravam claramente terem entendido a mensagem que um terreiro de umbanda só abre suas portas graças a uma insistente organização material, sustentáculo de uma boa vibração espiritual. Continuei a explicação:

O terreiro é o templo dos Orixás onde se realizam os cultos da umbanda. É um construção que tem um congá, onde ficam as imagens das entidades, um espaço para a realização das giras e a parte onde fica uma eventual assistência. No espaço das sessões estão enterradas no meio as armas do orixá mandante da casa, além das seguranças necessárias, indicadas pela entidade chefe. Enfeites quase sempre estão ornando a casa, como flechas, machados, espadas e retratos das entidades. As dimensões do terreiro são adequadas para o número dos médiuns que constituem a corrente. Uns têm construção requintada e outros são simples. Todo terreiro tem na sua entrada a tronqueira, onde estão alojadas as armas do exu guardião, necessariamente da linha Tranca Ruas, sabidamente a segurança dos terreiros de umbanda, independente da linha de seu dirigente. Dentro do espaço dos terreiros também existem o roncó, lugar destinado aos alguidares dos santos de cada médium do templo, e a casa dos exus. Esta, basicamente, é a ordem material de um terreiro de umbanda. Eu não faço distinção da qualidade de um terreiro pela sua construção física. A limpeza espiritual é que vale.

As diferenças ficam por conta do tamanho da corrente, do bom gosto dos dirigentes ou pela aplicabilidade coerente de um arquiteto. São diferenças puramente materiais e que dependem também dos recursos financeiros do grupo, os anônimos provedores do dinheiro para a construção da casa, e da habilidade dos dirigentes de promoverem eventos para a coleta de moedas que paguem o preço de um mestre de obras e seus pedreiros. Essa são a realidade e as dificuldades para a construção de uma templo de umbanda. Os dirigentes da Umbanda são pobres porque seguem à risca o ensinamento da alta espiritualidade que nos ensina "dar de graça, o que de graça recebemos". E quem fugir desse princípio e vender seus passes e orientações espirituais, vai cair no outro ensinamento, pouco conhecido, talvez por conveniência: "quem recebe, já está pago".

Tudo isso acolhe um mundo invisível: o dos espíritos! É uma energia paralela que se modifica, de acordo com a vibração e o axé da casa. Durante o desenrolar de uma gira de Oxóssi, o espírito de um índio incorporado em um médium com experiência, conversando comigo, perguntou:

- O que você vê agora no terreiro? Descreva tudo que teus olhos podem enxergar.

- Eu estou vendo o congá iluminado com as velas, os médiuns em volta, todos de branco, alguns incorporados, a assistência silenciosa a tudo assistindo e, lá atrás, as paredes que cercam o terreiro.

- Eu já estou vendo de forma diferente. – falou o poderoso guia. O congá é uma mistura de cores. Oxalá está irradiando para todo o ambiente uma luz prateada e brilhante, que se mistura com as outras cores dos orixás. Essa luz como um arco-íris está ligada no centro do terreiro onde está a segurança. Os médiuns que você viu, eu não enxergo. No lugar de cada um estão os índios e índias, todos armados, alguns com seus cocares mantendo um brilho intenso. Eles rodam e emitem luzes para todos, formando uma espécie de cerca iluminada por várias cores nunca vistas por vocês. A assistência também desapareceu e, em seu lugar, várias falanges e tribos de índios estão de prontidão no aguardo de um chamado para fazerem a defesa dos que estão no meio. Paredes não existem. Nós estamos no meio de uma campina cercada por um verde e lindo mato, iluminado por uma luz que nunca se apaga e é mais brilhante e forte que o sol na Terra. Toda essa luz e alegria estão temperadas com a música emitida por vocês. Talvez a imagem mais bonita ainda seja a de um cavaleiro montado em um cavalo branco galopando em volta de todos. Cada vez que seu corcel bate as patas saem faíscas da cor do sol, que se mistura com as outras do terreiro. O cavaleiro armado e imponente é um guerreiro de Ogum. Do meio de seus olhos sai uma corrente energética, que direcionada para algumas entidades sofredoras, trava seus movimentos e amortece seus corpos, fazendo-os cair em sono profundo, do que se aproveitam os índios para carrega-los para um lugar onde receberão orientação.

- Que linda essa visão, Caboclo. Quer dizer que todos os terreiros de umbanda são mágicos assim?

- Não pense você que todos são iguais. Quando as coisas não são bem feitas, as seguranças não são cuidadas, os médiuns negligenciam nas suas preparações e a corrente não fica coesa no mesmo propósito espiritual, tudo pode mudar para visões bem piores, havendo o risco da escuridão e o trânsito livre das entidades trevosas.

- Nós corremos esse risco? Indaguei, assustado.

- Não, vocês não estão correndo esse perigo, pela firmeza dos orixás da casa. Esse perigo, se continuarem assim, não ameaça este terreiro. Mas as oscilações existem. Cuidem-se. Recomendou.

Fiquei aliviado. Senti a responsabilidade que temos quando abraçamos uma religião. Mas não posso viver sob o horror do medo, e para isso é necessário ter fé, calma e sobretudo, obediência ao comando dos espíritos. E acho que, como eu, todos os terreiros de umbanda recebem a mesma orientação, e por isso nossos terreiros são uma fonte de energia e de luz. E foi bom saber que as paredes do terreiro desaparecem mostrando um mundo diferente, de amor e suavidade, bálsamo de nossas dores e mola propulsora de nossa vontade de vencer as dificuldades. Dias depois alguém observou que o terreiro estava pequeno para a quantidade de médiuns. Lembrando-me do ensinamento do índio guia, observei:

- Pequeno? Como pequeno se não temos paredes e nosso espaço é ilimitado?. Respondi, deixando o interlocutor sem entender o que eu dizia.
O grupo parecia satisfeito com nossa conversação. Estava com frases formais e tradicionais para por fim ao encontro, quando alguém me perguntou:

- Por que no início você estava tão pensativo?

- Estava me preparando para não repetir o mesmo erro cometido há tempos por uma linda e simpática professora de catecismo. A imposição do medo fez a Igreja Católica perder talvez um fervoroso e disciplinado seguidor de seus ensinamentos. Encerrei, sabendo que não seria entendido.

Bandeira da Amizade