Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 21 - Minha decisão

Habituado com o estilo do meu pai-de-santo, Edmundo Rodrigues Ferro, em conduzir o terreiro, após sua morte não me adaptei ao da minha mãe-de-santo Stelinha de Oxum, a esposa de meu pai desencarnado.

Saí da Tenda Espírita São Sebastião, casa que ainda, volta e meia, vou visitar. Mas, naquela ocasião, sem casa para trabalhar, fiquei totalmente desorientado. Não queria voltar para a linha kardecista. Passei a visitar vários terreiros, na esperança de encontrar um que fosse compatível com aquele do qual tinha saído. Não o encontrei, embora tenha conhecido alguns belíssimos. Não houve sintonia vibratória entre mim e eles. Nas andanças, tive até momentos hilariantes. A Yedda, minha dedicada esposa, embora não participe da umbanda, a respeita e me prestigia. Ia junto comigo, tentando, como sempre faz, ser minha grande amiga e companheira. Nós gostamos de cães. Naquela época, uma cadela nossa tinha desaparecido e foi esse o pretexto usado por ela para correr comigo os terreiros. Eu, buscava axé, e ela, a cadela. Num terreiro, pedimos consulta na entrada e fomos indicados para falar com uma médium incorporada com uma entidade. Fomos juntos. Minha mulher explicou sua vontade de achar sua cachorra. Eu, no fundo, achava graça por essa distorção de consulta. A entidade disse que ia ajudá-la. Virou-se para mim e perguntou:

- E você meu filho, o que deseja de mim?

- Meu pai, só quero axé.

- O que? Também quer achar?

Durante uns dois meses não conseguia me decidir. Numa reunião com meus companheiros, fui provocado por eles para incorporar o Pai Maneco, pois, segundo meu aprendizado, e isso eles sabiam, jamais deveria incorporar qualquer espírito fora do terreiro por motivos de segurança. Diante de minha hesitação, eles insistiram. Acabei cedendo às solicitações, principalmente por estar necessitando de uma orientação mais direta para meu destino espiritual. Achei o momento oportuno. Após os devidos cuidados, veio o Pai Maneco. Já havia orientado meus companheiros para fazer-lhe perguntas, que me servissem de orientação.

- Que a paz de Oxalá, Nosso Senhor Jesus Cristo, e Iemanjá, a Virgem Maria, protejam todos vocês – cumprimentou, como seu hábito, a adorável entidade angolana.

- Salve, Pai Maneco – respondeu o Geraldo, em nome do grupo. – Meu Pai, seu cavalo quer uma explicação sobre tudo que lhe aconteceu.

- Tudo faz parte de um plano. Tinha que ser assim. Explicou lacônico.

- Seu cavalo quer que o senhor lhe indique o caminho que deve seguir. Voltar para linha kardecista, não quer. Está procurando um terreiro onde encontre afinidade, mas não o encontra. Ser pai-de-santo, uma das hipóteses, hesita, por ter duvida se é este o destino, ou se é uma vaidade inconsciente mexendo com sua cabeça – expôs.

- Meu filho, eu, o humilde preto-velho, sei que sou justo. Não poderia ser diferente, se vivo entre eles. Isso não é vaidade, é conscientização. Serei vaidoso, se quiser ser o mais Justo entre os Justos. Selou o meu querido mestre e protetor.

Continuou conversando com os presentes, sem mais nada falar sobre mim. Subiu e o grupo voltou à conversação. Eles perguntaram:

- E daí, Fernando. Deu para entender alguma coisa?

- Meus amigos, quando tenho necessidade de uma decisão importante, ouço a palavra dos espíritos, pelos sinais que me deixam, nas entrelinhas de suas mensagens. E eles me indicam que devo ser pai-de-santo. Comuniquei a todos.

Sou um homem de fé e decidido. Já não tinha mais nenhuma duvida do meu destino, exceto o Geraldo e o Francisco, meus dois companheiros que não se conformavam com a minha saída do terreiro do Edmundo Ferro. No dia seguinte a nossa conversação, os dois foram à minha casa. Tentavam me dissuadir e me aconselhavam a voltar à casa onde ambos ainda permaneciam. Depois de várias tentativas em me demover da decisão, eu já começava a ficar impaciente.

- Vocês ouviram ontem a mensagem do Pai Maneco. Ele disse ser este o caminho. Acham que vou ignorar a palavra do espírito?

Eles se entreolharam, demonstrando terem alguma dúvida. Não hesitei:

- A não ser que a mensagem por ele deixada foi interferência minha. – arrisquei.

O Geraldo não pensou duas vezes ao responder:

- É uma possibilidade muito grande de ter acontecido, considerando o teu atual estado de perturbação.

Não queria acreditar no que estava ouvindo. Tanto o Geraldo como o Francisco, não podiam duvidar da minha capacidade de transmitir as mensagens do Pai Maneco. Fiquei chocado e em silêncio. Foi quando ouvi a voz do Pai Maneco, no meu ouvido, dizendo:

- Não admito dúvidas sobre você. Vou incorporar no Francisco, e confirmar tudo que falei ontem por sua mediunidade.

Fiquei emocionado. Sem nada dizer, fiquei na expectativa da incorporação prometida. Não demorou, e o Francisco, mesmo relutando, foi dominado pela entidade, e, sob minha forte emoção, realmente repetiu a mensagem anterior. Ajoelhei-me em sua frente, tomei as suas mãos, e beijando-as suavemente, agradeci:

- Muito obrigado, Pai Maneco! – e me afastei, deixando sobre as mãos do Francisco, duas lágrimas por mim derrubadas.

A partir desse momento, recebi só apoio dos meus dois companheiros.

Bandeira da Amizade