Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 20 - O desencarne de meu pai de santo

Estava comandando uma gira da esquerda. A casa estava cheia, os médiuns alegres, o canto muito bem afinado. Por comandar a gira, não estava incorporado.

O pai-de-santo chefiava, espiritualmente, incorporado no Vovô Conrado. Estava no meio do terreiro, quando ouvi o famoso chamado da querida entidade.

- Careca, venha cá. – gritou.

Deixei meus afazeres e sentei-me à sua frente. Mexeu-se no seu trono, ofereceu-me a forte bebida e disse aos seus dois ajudantes, os cambonos:

Saiam daqui, que quero falar sozinho com o Careca. – ordenou.

Percebi uma certa gravidade, porque, mesmo sendo o chefe espiritual da casa, e estar incorporado no pai-de-santo, não se deve jamais falar com ninguém, sem a assistência do cambono. Os dois saíram e ele, olhando fixamente, deu a noticia:

- Careca, hoje é a última vez que estou incorporando neste cavalo. Ele vai ter alguns pequenos problemas, que impossibilitarão as incorporações e, mais tarde, vai desencarnar. Comunicou, de pronto.

Sou um homem de fé. Acredito nos espíritos, razão que me fez gelar, assustado. Minha reação foi imediata e em suplica:

- Não deixe isso acontecer, Vovô. Se ele não puder trabalhar, eu cuido do terreiro. Mas não deixe ele morrer.

Estávamos no mês de Setembro. O pai-de-santo Ferro, gozava de boa saúde e não demonstrava estar passando nenhum problema. Tudo estava certo na sua vida. Era um homem importante para a umbanda e para o próprio terreiro, que tão sabiamente comandava, há quase cinqüenta anos. Não aparentava a idade que tinha. Devia pesar uns setenta quilos, mantendo uma forma física invejável. Não sentia nele o espectro da morte, muito ao contrário, era todo vida e alegria. E eu me identificava muito com ele. Além de meu pai-de-santo, tornou-se um grande amigo. E ninguém gosta de saber que os amigos estão com os dias contados. Esperei, aflito, uma resposta da entidade à minha solicitação.

- Cuide do meu terreiro, Careca. E vou dar um conselho: para dirigir uma casa, você guarde teu coração no cofre.

Apoiado em sua bengala preta, levantou-se e ordenou o canto de subida para ele. Não acreditava no que tinha ouvido. Não era compreensível uma entidade dizer não incorporar mais, porque seu cavalo ia morrer. E falava de um homem incomum, especial mesmo. Todos o adoravam, apesar de suas rabugices. As lágrimas foram por mim contidas. Ele subiu e eu fiquei assustado. O pai-de-santo era médium inconsciente, ou seja, não sabia o que espírito tinha falado. Fiquei sozinho, amargando minha antecipada dor. Ele – o pai-de-santo e esposa, familiares e filhos de corrente comentavam sobre a bem sucedida sessão. Era demais para mim. Retirei-me, tristemente e comecei a pensar como poderia administrar seu desencarne, pois antevia as conseqüências entre todos nós, que o amávamos. Na minha fé, sabia ser inevitável o desencarne, sem prever sua data. Já estávamos em dezembro. Os sinais dados pelo Vovô Conrado estavam cada vez mais fortes. Não incorporou mais em seu cavalo.

Todos os anos o terreiro fazia uma festa de confraternização, reunindo os médiuns e seus familiares. Fui com minha mulher, para a qual também nada tinha dito da comunicação da entidade. Eu o via, alegre e com todos festejando, e não podia tirar de dentro de mim o segredo que com muita dor carregava, sem dividir com ninguém, desde que tomou o cuidado de afastar seus cambonos para me dar a notícia. Foi no começo do ano. Ao chegar em casa, recebi o recado:

- Alguém telefonou para você, dizendo que o Ferro teve um enfarte e vai ser operado.

Sabia ter chegado o momento. Os espíritos não erram. Perguntei:

- Qual o hospital?

- No Santa Cruz – informou

Fui ao hospital, onde já muita gente estava solidária com a família. Ela era benquisto e além dos amigos e filhos da corrente, sua família era grande. A Therezinha, então mãe-pequena no terreiro, aproximou-se:

- Marcamos um trabalho para hoje à noite, para que tudo corra bem. Informou-me com ar sombrio e triste.

À noite a corrente estava reunida. Fizemos trabalho na linha da umbanda, chamando os caboclos e pretos-velho. Eles se encarregaram de mandar cantar os pontos da linha do Oriente, conhecida pela cura de doenças físicas. No meio do terreiro, em cima da segurança, foi posto um ponto riscado, que dava para perceber, muito antigo. Perguntei à Therezinha que ponto era aquele.

- Este ponto foi riscado pela Madrinha - a dona Stelinha, esposa do Ferro, que o mantém aceso já há muitos anos. É para a saúde do Padrinho. Esclareceu.

- Mas ele já teve algum problema antes? Perguntei.

- Teve uma pequena doença e, feito o ponto, nunca mais o desfez alimentando-o com bebida, água e vela durante todo esse tempo, na sala do oriente.

Durante um mês, fizemos vigília, ora no Hospital, ora no terreiro, na expectativa de sua cura. Foi um período revoltante. Parece-me que cinco cirurgias foram feitas naquele homem, já marcado para morrer. Estava respirando, ainda, por força dos aparelhos hospitalares. Sabíamos, médicos e familiares, serem paliativas as cirurgias, diga-se, até agressivas – e caras. Todas as manhãs eu fazia uma visita ao Ferro. Numa delas, ele estava sentado em uma cadeira, no quarto. Fiquei surpreso.

- É para movimentar o corpo – disse-me a aflita esposa do pai-de-santo.

Meu pai-de-santo era sombra daquele homem esperto e ágil. Estava magro, pálido, barba crescida, falando quase por sinais. Ajoelhei-me ao seu lado, peguei sua mão com muito cuidado, por causa dos soros e agulhas em suas aparentes veias, e, talvez até emocionado, beijando-a, pedi-lhe a benção:

- Mucui meu pai.

- O velho Ogum, com seu olhar já enfraquecido pela doença, fazendo um esforço muito grande, tomou minha mão e, como sempre fazia, também a beijou, dizendo num sussurro:

- Mucui no Zambi – Deus te abençoe.

Era difícil vê-lo assim. Fui embora, muito triste, talvez não mais pelo seu iminente desencarne, mas por tudo que estava passando. Fiquei pensando porque o Vovô não vinha buscá-lo. Num Sábado, como diariamente fazia, fui ao hospital. Sentei-me com a Madrinha Stelinha, e enquanto tentava consolá-la, disse-me:

- Meu filho, o que mais podemos fazer? Implorando, não a mim, mas à espiritualidade, um raio de Luz.

- Madrinha, a senhora não vai gostar do que vou dizer.

- Fale. Ordenou-me.

- Acho que a senhora deve levantar o ponto firmado na linha do oriente. Respondi, determinado.

- Você pode fazer isto por mim? Aquiesceu.

- Claro, Madrinha. Vou já, e me retirei.

Telefonei à Therezinha e nós dois fomos ao terreiro. Levantamos e descarregamos o ponto. Na volta, conversava com ela.

- Não posso acreditar que um ponto riscado, embora alimentado, possa atrapalhar o desencarne de um espírito do naipe do Ferro. Mas tive uma intuição, e foi essa a razão de eu ter sugerido à dona Stelinha, levantar o ponto.

- Um ponto de firmeza, para segurar na terra o espírito de alguém, tem este poder de manter o espírito junto ao corpo, às vezes, além do necessário. Respondeu a Therezinha, demonstrando muito conhecimento e fé.

Conversamos sobre e assunto e deixei-a em sua casa. Retornei à minha. Ainda estava à mesa de refeições, junto com meus familiares, no nosso tradicional almoço dos sábados, quando o telefone soou.

- É alguém, comunicando que o Ferro morreu! – exclamei, instintivamente.

Minha mulher atendeu o telefone.

- Teu amigo morreu!

O Edmundo Rodrigues Ferro, conforme me fora anunciado pelo Vovô Conrado, desencarnou, trazendo uma tristeza muito grande para todos nós e apesar de abrir uma lacuna na umbanda, deixou como legado cinqüenta anos de eficiente desempenho na religião, e um ensinamento até hoje seguido por muitos, principalmente por mim. Fiquei, na ocasião, muito triste, mas hoje não estou mais. Só saudade física. Afinal, sinto quase sempre sua presença no terreiro e, para variar, dando ordens e palpites, os quais, sem discutir, acato muito agradecido!

Bandeira da Amizade