Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 25 julho de 2017

Capítulo 2 - Início

Aceitando o espiritismo como verdade, corria onde podia, atrás do fenômeno. Queria ver, sentir e ter contato com as entidades. Passei a prestar atenção nas mínimas ocorrências que pudessem ser imputáveis às forças não esclarecidas pela ciência comum.

A telepatia era minha prática preferida. Gostava de captar o pensamento das pessoas, fosse através do jogo de cartas até a imposição de minha vontade sobre as pessoas através do pensamento. Às vezes desejava, com toda a vontade, que determinada pessoa fizesse algo, como fechar uma janela, e isto acontecia. Percebi ser uma verdade incontestável o domínio do pensamento, projetando um desejo sobre outra pessoa. Divertia-me, mostrando aos outros, na sala escura, sair faísca quando passava o pente varias vezes no cabelo e o encostava na minha mão. Daí a freqüentar rodas e reuniões de paranormais, foi um passo. Meu vizinho, o Waldemar Foester, era um homem de idade madura e reconhecidamente um médium receptivo. Ele me convidou para ir assisti em sua casa uma sessão espírita. Estava excitado, afinal ia participar, pela primeira vez, de uma reunião com os mortos. Após as preparações e concentrações, ele incorporou, e andando como um velhinho, emitindo alguns sons estranhos, sentou-se no meio da sala. As pessoas o tratavam com muito respeito e carinho. Uma senhora pediu ao espírito incorporado ajuda para ela alugar uma casa de sua propriedade. Eu, lá atrás, observava atentamente. A entidade pediu a chave da casa que ela queria alugar, e a benzeu com a ponta dos velhos dedos do médium.

- Vai dar tudo certo, minha filha. - disse à ansiosa mulher.

Achei estranho aquele pedido. Alugar uma casa? É para isso que descem as entidades? Será esta a tão falada caridade espiritual?

Enquanto remoía meus pensamentos, fui interpelado pelo espírito:

-Meu filho, você está vendo coisas estranhas. Mas saiba, meu filho, que cada um viaja como pode. Uns vão andando a pé, outros com essas máquinas de vocês, outros de canoa. Mas no fim, está o lugar onde todos devem chegar.
Achei bonita a forma carinhosa do espírito conversar comigo, mas nada acrescentou ao meu julgamento. Isto só iria entender anos depois.
- O véio vai imbora, meus filhos, e deseja a tudo mecês muito amor e paz.
-Muito obrigado, Pai Joaquim, disse a esposa do Waldemar.

Pai Joaquim? Não deveria ser irmão Joaquim, como todos dizem?- pensava comigo.

E foi assim que assisti a primeira incorporação de um espírito em um médium. Fiquei com medo, mas já não era tanto. Afinal já tinha vinte e um anos de idade, era um homem casado, pai de um robusto menino.

Já conhecia o Hercilio Maes, um extraordinário médium, dotado de uma simpatia irradiante e convicto das coisas que ensinava, tanto que escreveu várias obras espíritas e psicografadas pelo espírito do Mestre Ramatis. Ele pregava a existência de vida no planeta Marte, matéria de uma de suas obras, muito apreciada pelo público do ramo. Ele dizia que em Marte a vida era diferente da nossa. Praticamente outra dimensão. Estou aguardando ainda as pesquisas espaciais para conferir, muito embora não tenha isso a mínima importância na minha vida pessoal. O Hercilio receitava homeopatia através da radiestesia. Interessei-me pelo assunto. Quando podia, andava com uma forquilha de aroeira ou pessegueiro na mão, descobrindo lençóis de água. E descobria. Achava ótimo. Passei a revelar o sexo dos bebês, ainda na barriga das mães. O pólo negativo e o positivo eram sinalizados através do pêndulo por mim improvisado com a minha aliança de ouro amarrada em um fio de cabelo. Já há alguns anos deixei de fazer os testes por três fortes motivos: a modernidade da ecografia, que antecipa o sexo dos fetos, perdi a aliança e não tenho mais cabelos. Mas as antigas experiências me levaram a crer nesta positiva ciência dos pêndulos.

Ambos, tanto o Waldemar Foester como o Hercilio Maes, foram admiráveis mestres que me iniciaram no espiritismo. Fiquei pronto para participar ativamente das sessões espíritas. Entrei no grupo espírita dirigido pelo Mauri Rodrigues, fundador da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas, até hoje seu presidente. Considero o Mauri o médium de efeitos físicos mais extraordinário que conheci. Fazia transfigurações, moldagem de mãos em parafina derretida e materializações dos espíritos. Transfiguração era um tipo de trabalho muito interessante. O Mauri ficava na frente da assistência incorporando vários espíritos, quase sempre familiares dos presentes. Numa delas, um dos espíritos manifestantes incorporou no Mauri e falou:

-Fernando, como vai? Disse, a entidade, demonstrando muita calma e paz interior.
Levei um susto. O medo ainda era meu inseparável companheiro. Fiquei ansioso, aguardando a continuidade da conversação.

-Sou eu, Fernando, o Dilson! vim cumprir o nosso combinado. O espírito existe! – informou.

Não deu para segurar. Fiquei emocionado, admirado, empolgado, sei lá o que mais. Indelicada, mas amorosamente, desabafei:
- Ainda bem que minhas preces foram atendidas e você demorou para fazer isso...

Bandeira da Amizade