Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 19 - Incorporações

Já estava habituado às incorporações da umbanda. Cantava e dançava, estava solto, bem à vontade.

Incorporava, normalmente, o Pai Maneco, dentro da nova roupagem de preto-velho, entidade para mim fácil de lidar, considerando-se estar trabalhando com ele, na linha kardecista, já há vinte e cinco anos. Bebia cachaça e fumava cigarro de palha. Dava consultas sentado no toco, olhos abertos, sem necessidade de luz apagada. Soube que meu Orixá era Ogum e já tinha feito o cruzamento na umbanda e o amaci. Já me considerava médium pronto, muito embora, nas giras de Ogum, incorporava uma entidade que não tinha dado o nome. Tempos depois, o espírito declarou chamar-se Akuan, o meu pai-de-cabeça. É importante mencionar, já tinha abandonado o Centro Espírita. Optei pela umbanda por ter encontrado nela a minha necessidade religiosa. A diferença foi a batida alegre da música e a manipulação da energia da Natureza pela criação de campos de força. Senti-me mais seguro e protegido na umbanda.

A gira era de Caboclo. O pai-de-santo me chamou e me fez ficar no meio do terreiro, hábito comum quando ele queria chamar um espírito para incorporar num determinado médium.

- Intuí que um Caboclo está querendo incorporar em você. Fique calmo e concentre-se. Se tiver dificuldade, fique rodando, para você ficar tonto e facilitar a incorporação. Se não der certo, faça uma respiração rápida e curta, que você, com certeza, ficará bem amortecido. – orientou-me.

Mandou cantar o ponto do Caboclo Junco Verde. A incorporação foi rápida e forte, jogando-me de joelhos no chão, para só depois levantar e saudar a todos alegremente. Já tinha o preto-velho e o Caboclo. Só faltava o Exu. Bem mais cedo que esperava, o pai-de-santo chamou o Exu Tranca Ruas das Almas, que recebi sem nenhuma dificuldade. Pela imponência da entidade, diferenciava bastante dos outros exus. Fiquei intrigado e procurei o pai-de-santo, pedindo uma explicação. Ele atendeu:

- Nem todos os exus são iguais, mas, via de regra, os médiuns ficam muito apegados ao folclore, e ficam mancos, entortam as mãos e cometem outros trejeitos. É a falta de conhecimento dos médiuns que provoca esse quadro atípico da entidade, mas comum entre cavalos inexperientes.

O desenvolvimento da mediunidade na umbanda deve ser espontâneo, devendo o médium tomar o cuidado para não incorrer na imitação das incorporações de outras pessoas. O segredo é a paciência e a confiança nos responsáveis pela direção do terreiro, e nunca deixar de perguntar as dúvidas que tiverem.

No terreiro do Ferro, uma vez por mês, havia uma sessão fechada, para desenvolvimento dos médiuns. É um tipo de treinamento, onde os médiuns, numa gira fechada e sem assistência, trabalham suas mediunidades, sob a orientação dos dirigentes e médiuns mais experientes. Incorporei o Exu Tranca Ruas das Almas. No final o pai-de-santo fazia suas observações, explicando as coisas certas e erradas dos médiuns. Fiz uma pergunta:

- Durante a incorporação tive o impulso de ir bater a cabeça no ponto de segurança da gira. O espírito não foi. Estou em dúvida se fui eu, o médium, que atrapalhou a entidade não o deixando fazer o pretendido, ou se fui eu quem criou a idéia e ele não me deixou ir, por estar errado. – detalhei - independentemente dos meus problemas na incorporação, na sua ótica, seria certo ou errado ele ir bater a cabeça?

Nessa altura, toda a corrente estava em pé, me olhando, em silêncio, inclusive o próprio pai-de-santo. Fiquei sem jeito, pensando ter feito uma pergunta inadequada ou primária.

- Meus parabéns, Fernando. Exclamou.

Fiquei sem entender. Que fiz para merecer cumprimentos? – pensei. Ele continuou:

- Você é o primeiro médium, em meu terreiro, que faz uma declaração publica afirmando ser médium consciente. Para teu controle, todos teus irmãos de corrente, aqui presentes, juram serem inconscientes.

- Mas tenho que ser inconsciente para trabalhar na umbanda? Perguntei assustado.

- Claro que não. Eles é que pensam assim. Com medo de errarem, omitem o detalhe da consciência ou inconsciência, durante a incorporação. Não tem nada de errado ser médium consciente. Ao contrário, além de ser a maioria, é muito bom, porque assim você aprende as coisas que o espírito ensina. Arrematou.

Fui saber, mais tarde, que existem mães e pais-de-santo, que se dizem inconscientes, com a intenção de saberem as coisas contadas pelos filhos da corrente. Acreditam que, se os outros souberem da consciência, não contarão ao espírito suas dificuldades íntimas. É uma pura asneira, além de ser falso.

Tempos depois, fui cruzado no terreiro como pai-pequeno, em cujo cargo fiquei durante...anos e só sai daquela casa com morte de meu pai-de-santo.

Bandeira da Amizade