Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 18 - Terceira Energia

O Domingos era um membro da corrente. Gordo, brincalhão e alegre, era muito querido por todos. Dizia coisas desconexas.

Falando sobre preparação espiritual dos médiuns, deixou escapar uma das suas marcantes falas:

- A gente lê, estuda e aprende. Quando vem o espírito, ele faz o que quer, não adiantando nada o que se aprendeu.

O pai-de-santo fechou a cara, demonstrando sua indignação pelo comentário do festejado gordo, principalmente por contradizer tudo aquilo que ele pregava. O Ferro costumava berrar, gritar, reclamar por tudo, mas tinha um coração imenso. Toda aquela postura era mentirosa. Mas, filho de Ogum não deixava as coisas para depois. Interrompeu e vociferou:

- Domingos, você é um burro! O médium tem que dar condições ao espírito, para poder extrair sua cultura. Na umbanda chamamos o médium de cavalo. Um cavalo bem domado, sabendo andar, trotar e galopar, deixar ser montado e obedecer as rédeas, facilita ao cavaleiro. Quanto mais preparado, cultural e espiritualmente, mais fácil para o espírito dar sua comunicação. Você é um imbecil!

Apesar da grosseria das palavras, todos, inclusive o Domingos, acharam graça da forma do pai-de-santo expressar-se.

Embora comum e fundamental para a religião espírita, a incorporação de um espírito com o médium é um grande mistério. O Domingos acreditava que não adiantava nada o médium ter cultura espírita. Já o pai-de-santo com sua experiência pregava o contrário. Foi com outro espiritualista que entendi a incorporação e a necessidade da preparação do médium.

Naquela ocasião, ainda não conhecia o Andir de Souza, um experiente pai-de-santo. Gosto de conversar com ele e, principalmente, trocar idéias sobre a umbanda. Falávamos sobre a mediunidade, principalmente no que se refere a diferença da mesma entidade incorporada em médiuns diferentes.

- É a terceira energia – disse.

- Terceira energia? Explique melhor, pedi.

- O espírito é uma energia e o médium é outra. Cada qual com sua cultura, sensibilidade e conhecimentos. Um é um e outro é outro. Entretanto, quando a entidade toma o corpo do médium, essas energias se unem, formando uma terceira. Ambos estão ali presentes, reunidos em uma só força. É como dois em um.

- Como o café com leite? Tentei ajudar.

- Sim, boa colocação – elogiou. O café é uma bebida pura, o leite também. Os dois juntos criam uma terceira bebida.

- Isso explica bem. Se a entidade incorpora em mim, ela fica com uma parte que sou eu. Se incorpora em outro, fica com uma parte do outro. Não pode ser igual, em dois médiuns diferentes. Falei, para esclarecer minha compreensão.

- Isso mesmo, disse o Andir. Vamos imaginar um exu, incorporado em um médium manso, culto, amoroso, com sua aura limpa e vibrante. O mesmo exu incorporado em um médium menos preparado, violento, e cheio de ódio. Obviamente, no primeiro, ele vai trazer, em sua manifestação, toda esta parte boa do médium, misturada em sua energia. No segundo médium, vai ter que lutar para não deixar esta parte ruim do médium, se sobrepor à sua vontade. Vai parecer, para quem conversar com os dois médiuns, que não é a mesma entidade.

- O princípio do computador. Completei. O espírito só pode tirar do médium o que ele tem programado. Como um computador. Se seus arquivos são de má qualidade, só pode informar coisas semelhantes. É, está bem esclarecido este ponto.

Enquanto voltava para casa, pensando na proveitosa troca de idéias com o Andir, lembrei-me do Domingos.

- Pena que o Domingos já desencarnou, senão poderia explicar para ele o que o Ferro não conseguiu.

Bandeira da Amizade