Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 17 - O espelho

Acho que todos vão concordar comigo que o banheiro é nosso esconderijo responsável por momentos de nossa necessária privacidade. E é nessa importante peça de nossa casa que está o espelho, um elemento de grande utilidade na magia.

Entre outras tantas formas dos magos usarem o espelho é buscar no espaço o reflexo dos elementos para aumentar a força dos trabalhos na construção de campos de energia. Presto-lhe minha reverência, por acolher em sua essência o inverso de tudo. Certa vez, exercendo o direito do meu recolhimento neste cômodo, vi minha imagem refletida no enorme espelho estrategicamente colocado na parede. Somos displicentes com o nosso outro eu. Nós usamos o espelho para limpar os dentes, pentear os cabelos, fazer a higiene e conferir se a roupa está adequada com nosso gosto. Nesse dia olhando concentrado e fixamente para minha imagem refletida levei um susto: aquele homem dentro do espelho era outro. Seus olhos eram misteriosos e o seu rosto não me pareceu familiar. Era o outro eu, ainda meu desconhecido. Foi uma experiência incrível, por isso divido-a com os outros, recomendando a mesma tentativa. Os que já me ouviram tiveram a mesma sensação. E foi essa a convicção da minha inspiração na conversa com o Julio sobre o inverso da umbanda.

O Júlio é alto e apesar de seus cinqüenta e tantos anos mantém um corpo de jovem. Seus cabelos são grossos, bem penteados, pretos e salpicados nas pontas de um grisalho compatível com a sua idade o que me cria uma recriminável inveja por eu ser calvo. A verbosidade é a sua maior arma para manter acesa uma discussão. E com ela nos digladiávamos com eloqüência e em calorosa defesa das idéias da religião. Um grupo de quase meia dúzia de adeptos da umbanda ouviam curiosos nossa discussão. Era ele quem dizia:

- A umbanda se perde no tempo. Existe há milhões de anos.

- Você está confundindo. As vibrações cósmicas e a mediunidade nasceram com o homem. A religião chamada umbanda tem menos de cem anos, considerando ter nascida oficialmente em 1908, no Rio de Janeiro. Foi anunciada pelo Caboclo Sete Encruzilhadas incorporado no médium Zélio de Moraes. Rebati.

- A umbanda é uma religião afro-brasileira, originada do candomblé. Afirmou.

Ele ficava irritado e sua grossa voz já estava passando da tonalidade própria dos cavalheiros. A minha acompanhava o mesmo diapasão.

- A umbanda é uma religião autenticamente brasileira. É formada por grandes falanges de espíritos na qual predomina o nosso índio, não usa o sangue como elemento nos trabalhos, não prega o medo e muito menos exige compensações financeiras pelo exercício da mediunidade Está na hora de mudarmos os conceitos. Vamos colocá-los diante do espelho e descobrir o seu inverso. Eu dizia, inflamado.

Como estávamos no jardim da casa de um amigo comum, convidados que fomos para uma reunião, sugeri que nos uníssemos aos demais convivas ao até então aprazível evento. A idéia foi aceita. Enquanto desabotoava o seu jaquetão cinza para sacar de um cigarro, ele me comunicou em educado sussurro:

- Como amanhã é domingo, vou te visitar para continuarmos nossa conversa.

Na minha casa nós ficamos na sala, antes ajeitada para recepcionar o Julio. Ele era meu amigo íntimo por isso já foi servindo o cafezinho, vestido à vontade, sem a horrorosa gravata amarela que destoava de seu terno cinza claro, demonstrava estar de bom humor. Iniciei a conversa:

- Vamos trocar idéias sobre a umbanda buscando uma interação religiosa e não discutir ou compará-la com outras religiões. Estou fazendo essa sugestão por querer que você me ajude a consolidar a filosofia que há anos estou tentando implantar no terreiro que dirijo. Está combinado?

- Não sei se vou conseguir ficar quieto, mas prometo tentar. Brincou.

- Antes de tudo quero deixar claro que não combato nenhuma religião ou forma de exercê-la. Respeito o livre arbítrio de cada um e confesso só ter uma noção básica do candomblé apesar de achar essa religião muito bonita, forte e que reúne adeptos de grande envergadura cultural. Apenas sou contra a mistura da umbanda com o candomblé. Tive uma experiência com o espelho que me fez repensar toda minha conduta humana, inclusive a espiritual. Tudo tem o outro o seu inverso. Dentro do bem reside o mal e vice-versa, dentro do mal existe o bem. A umbanda tem que ser redescoberta. Não tenho a pretensão de descortiná-la, mas tenho o dever de entendê-la, sem precisar conhecê-la.

O Júlio estava circunspeto demonstrando estar bem atento e surpreso com minhas explicações.

- O inverso da umbanda? Você quer dizer descobrir coisas ainda não reveladas?

- As coisas reveladas e não entendidas. Quero juntar as peças e concluir o quebra-cabeça. Depois de explicar continuei: descoberto o Brasil, os índios então os legítimos donos da terra foram escravizados. Com a não adaptação ao regime da escravidão os portugueses, escrevendo a mais triste página da nossa história, trouxeram escravos negros da África. No decorrer dos tempos os africanos já mais adequados às suas condições de serviçais, misturaram sua raça negra com a vermelha do índio e entre elas a intromissão dos brancos. As três misturas deram início à civilização brasileira. Não foi só a raça que se misturou: a religião também. A prática da cultura religiosa dos indígenas com os africanos foi proibida pelos brancos que impunham o catolicismo entre eles. A religião dos brancos foi refugada pelos negros que criaram o já conhecido sincretismo católico na umbanda. Esses espíritos dos índios, negros, brancos, europeus e religiosos católicos, reencarnaram aqui mesmo no Brasil, cheios de crenças, misticismos e filosofias espirituais. Os Arquitetos do Espaço resolveram juntar todas as suas filosofias religiosas em uma só: a Umbanda! Ela foi planejada e criada para atender o povo brasileiro. Por ser nova e pouco estudada, a miscelânea de conceitos está gerando uma confusão muito grande. Dizem ela ser originada do candomblé. A sobrancelha grossa do Júlio levantou e ele interveio:

- E não foi?

- Pelo pouco que sei do candomblé, são religiões antagônicas, exceto quando são misturadas, o que desagrada tanto os adeptos da umbanda como do candomblé que não tem nenhuma vinculação com o sincretismo católico. Aí vem a revelação do inverso: devíamos pregar e cultuar a umbanda dentro da lógica dos acontecimentos históricos do Brasil. Acho que basicamente os espíritos que fundaram e trabalham na umbanda têm alguma página dentro da época do descobrimento do Brasil.

O Júlio não se conteve:

- E o preto-velho não é o africano?

- Estou inclinado em acreditar que ele foi trazido através da descendência da raça africana que criou a capoeira, hoje o único esporte brasileiro. Repare que todos os pontos da linha dos preto-velhos são iguais às musicas da capoeira. E ela foi criada pelos africanos à guisa de esporte mas na verdade era um meio de defesa. E a capoeira nasceu antes da umbanda. Não tenho nenhuma dúvida que a umbanda tem que seguir seus princípios morais e filosóficos ensinada pelos espíritos, mas deve ser revista adequando-a à lógica correta de uma religião independente, maravilhosa e múltipla na sua construção, sem nunca esquecer que ela é autenticamente brasileira.

O Júlio mal se continha. Indagou:

- Baseado no que você afirma isso? Foi o espelho que te contou? - ironizou.

- De certa forma. Ele me disse para ser ousado e buscar respostas por mim ainda desconhecidas. Veja uma delas: por quê o orixá Oxum carrega um espelho? Impossível ser vaidade, defeito que lhe derrubaria o título de espírito superior.

Atrapalhei o Júlio. Parou uns instantes olhando-me para pensativo e torpedeou:

- Você sabe?

- Eu não sei, mas espero descobrir. Quem sabe nós devemos buscar a resposta pesquisando o inverso do orixá. Mas antes devemos ver o inverso de nossas ações que ferem a espiritualidade ensinada pelos espíritos que fazem a umbanda.

O Julio despediu-se e prometeu fazer a experiência do espelho. Tenho certeza que vai aproveitar, pois se não encontrar o seu outro “eu”, ao menos vai se admirar.

Bandeira da Amizade