Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 16 - Diferenças

A gira estava animada, e eu, eufórico por ter sido convidado para ingressar na gira, depois de três meses freqüentar a assistência no terreiro.

Todo de branco, a tudo acompanhava atentamente. Sempre fui tímido para dançar e cantar. Mentalmente acompanhava o ritmo da música. Queria ser um bom médium. Embora já tivesse a prática de vinte cinco anos na linha kardecista, segurava minhas incorporações no terreiro. Também pudera! Na última vez que incorporei na umbanda, fui parar dentro do congá. Mania de kardecista de incorporar com o olho fechado. Foi ridículo. Incorporei, fechei os olhos e saí pelo salão dando vibração no ar. Justifico-me: fiz o que sabia. Foram me buscar, no meio das imagens. Quando entrei na gira, o pai-de-santo me chamou para um conversação:

- Tenho um constrangimento muito grande de mexer com você.

- Constrangimento? Por que?

- É que você já tem vinte cinco anos de pratica. Não posso dar o mesmo tratamento dos médiuns comuns.

- Não só pode, como deve. – afirmei. Kardecismo e umbanda são diferentes. O que lá aprendi, ao menos por enquanto, aqui não vou usar. Ao ingressar na corrente, depositei em tuas mãos o meu futuro mediúnico. Se eu for um bom médium, o mérito será teu, e, em caso contrário, a culpa será tua. Finalizei, pondo o pai-de-santo bem à vontade.

- A umbanda é exigente, os médiuns devem obedecer as ordens da hierarquia do terreiro. Se eu usar de toda a autoridade recebida pela lei da umbanda, você pode ficar, em alguns momentos, com raiva de mim, a ponto de querer até chorar e ir embora.

Percebi ter caído numa armadilha. Era o que ele queria ouvir. Não tive alternativa. Fiquei encurralado na trama do pai-de-santo. Foi um bom aprendizado: prender a pessoa, através do jogo das palavras. Asseverei:

- Sou um homem disciplinado e obediente. Pode fazer e dizer o que quiser, e acatarei a determinação, com muita humildade. A não ser que você me falte com o respeito.

- Que bom! – exclamou, aliviado. Tome nota das primeiras ordens: quando você chegar no terreiro, beije a minha mão e de toda hierarquia, inclusive dos ogans dos atabaques. Não me chame mais, aqui dentro, de Ferro. Dirija-se a mim, como “pai” ou “padrinho”. E quando você estiver na gira, cante, mesmo que não saiba, por ser o canto um mantra da umbanda. E dance, por ser a dança, um movimento necessário. Mesmo, que você tenha vergonha ou não saiba. E tem mais: ponha uma roupa mais adequada. Essa que você usa, embora seja branca, não está igual aos outros da corrente. E desde já você está escalado para sábado próximo, vir ajudar na limpeza do terreiro.- fechou a cara, deu as costas e me deixou sozinho.

Corri atrás dele.

- Padrinho, com licença. – arrisquei, respeitosamente. Só para eu saber, qual é a hierarquia do terreiro?

- Além de mim, a mãe-de-santo, minha esposa, a mãe-pequena, os capitães do terreiro, e os ogans da engoma. – respondeu, agora de forma delicada.

- Engoma? E o que é engoma? Perguntei.

- Engoma é o conjunto dos instrumentos que fazem a musica no terreiro – explicou. E os atabaques têm nome: rom, rumpi e ê.– encerrou.

Fiquei pensando: será que foi vingança daquele índio por me ter negado bater a testa três vezes?

Bandeira da Amizade