Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 15 - A dança

Eu tenho um problema cultural hoje irreparável: não fiz viagens internacionais, o que me tornou um desconhecedor das culturas do mundo.

Sempre gostei de ler, mas não é a mesma coisa que evidenciar os fatos. Em compensação a minha intimidade com os espíritos me fez um homem imaginativo. Se alguém abrir a mão e mostrar em sua palma uma semente de girassol, imediatamente vejo a planta crescida, com uma enorme flor, carregada com sementes, procurando a luz do sol, que está brilhando no céu cor do infinito, onde estão os planetas, os astros, as constelações, onde provavelmente existem outros mundos habitados, com culturas diferentes da nossa, e descubro que estamos no meio do dia, senão o sol não estaria tão alto, e logo vai cair a tarde e o dia vai desaparecer, e vamos ter trabalho de umbanda à noite, e ainda me lembro do Van Gogh, que se freqüentasse um terreiro de umbanda, talvez tivesse sido mais feliz e morreria com as duas orelhas. Volto à realidade, mas viajei até o espaço, dentro de uma semente de girassol. Eu sou assim, e gosto de sê-lo.

Estava conversando com o Giovanni, um simpático italiano. Baixo, nariz alto, falante e irrequieto. Não para de falar e gesticular. Pormenoriza tudo. É incapaz de dizer macarronada, sem ensinar como sua mama fazia. Estava com ele, sentado em uma mesa de uma pizzaria, saboreando uma pizza à calabresa. A casa era famosa, e por isso a clientela era grande. Rodeavam-nos as mais estranhas figuras, de várias nacionalidades. Foi quando me lembrei da minha lacuna cultural. Disse para o Giovanni:

- Vocês italianos são agitados. Suas vidas íntimas também vivem dessa forma?

- É, lá em casa minha família fala ao mesmo tempo, e cada um querendo falar mais alto que o outro, até virar uma gritaria. Mas isso nos dá bom humor. Somos felizes assim.

Lembrei-me da música italiana. São rápidas, por exemplo a Tarantela, sem contar as óperas, verdadeiras fontes de energia. Já voei na imaginação. Se eu não posso viajar, o Giovanni, que conhece o mundo inteiro, vai ser o meu informante.

- Italiano – como o chamavam carinhosamente - os ingleses são bem diferentes de vocês, não são? . Perguntei informalmente.

Depois de pensar um pouco, confirmou:

- É. São sim. Por que será?

- Pelo modo do andar deles. Justifiquei.

- Não entendi.

- São comedidos no falar, andam com calma com passos firmes e seus gestos são suaves. Isso os torna diferentes, considerando que o movimento é uma ação que gera uma reação. Será que isso não pode caracterizar uma natureza espiritual de um povo? Argumentei

O Giovanni me olhou desconfiado. Somos amigos e por isso ele me conhece bem. Percebeu que eu tentava uma ligação do que falávamos, com a umbanda.

- A pizza está boa? – perguntou, para desconversar, pois era um medroso do espiritismo.

- Está. Analise o argentino, adorador do tango. É um movimento macho, austero, estudado, que retrata, via de regra, a desgraça amorosa. E eles gostam de contar os sofrimentos, sempre dos outros - brinquei. São amantes da vida, de um brio diferenciado, apaixonados por tudo que fazem, e admirados pela cultura política do povo comum. Deve ser o resultado da reação do movimento da dança por eles preferida. E os franceses, inveterados amantes, delicados e galanteadores, não seria o som musical de suas musicas? O Maurice Chevalier não é protótipo deles? E que tal o chá servido pelas gueixas, com as saias apertadinhas e passinhos curtos, se ao invés daquela música fosse um samba brasileiro? Ou as nossas mulatas cariocas andassem como as gueixas? Reparou como cada um está ajustado às músicas? Concluí.

- Você não vai me contar nenhum caso de espírito, não é? Suplicou o Giovanni.

- E o americano. Dançarinos de rocks, funks e sei lá mais o que, e ainda mascando chicletes. São dinâmicos, presentes e dominadores. Seus gestos os levam para esse lado. – afirmei. Os irlandeses são admiradores da gaita de foles. Não te parecem felizes? Será que são as suas áreas verdes, ou o movimento ritmado do som de seus instrumentos musicais?

O Giovanni fez um gesto, como pedindo uma pausa na conversação. Respeitei seu pedido.

- Por falar nisso, garçom me traga uma coca-cola.

Com tudo o Italiano concordava. Ele sabia que não me podia tirar da minha inculta viagem. Só eu falava, tanto que tive que pedir ao garçom para esquentar minha pizza, enquanto ele já tinha comido duas.

- Veja o que está acontecendo hoje no oriente médio. Quem sabe se, ao invés de se auto punirem em nome de Allah, e suas danças fossem mais alegres, não houvesse tanto sofrimento.

- Nunca vi tanta bobagem.Criticou resmungando.

- É, eu sei. Mas é uma idéia, não é? Sabe que na umbanda o movimento tem magia?

- Sabia que você ia chegar na macumba. Ironizou

- É a corimba. Os índios eram mestres nisso. Cada movimento atraí um tipo de vibração, por força da própria ação desses gestos. Falei com seriedade.

- Como assim? Perguntou o ignorante.

- Se você na gira, ao cantar uma música, dançar – no mesmo lugar, tomei o cuidado de explicar, você está trazendo um pedaço de vibração de qualquer lugar, que seja compatível com a dança. Você já viu as oxuns corimbando no terreiro?

Apesar de medroso, às vezes eu levava o Giovanni para assistir uma gira no terreiro, o que lhe dava insônia.

- Se são aquelas entidades que ficam rodando e olhando para a palma da mão, como se tivessem um espelho, já vi. Confirmou contrariado.

- Não te lembram as águas de um rio? E as Iemanjás, não te levam até as ondas do mar? Os Oguns, não parecem soldados romanos? Os Xangôs não te lembram a dureza das pedras e a ira dos trovões? E as Iansãs, não parecem ventanias? E os caboclos de Oxóssi? Não te lembram as matas?

Cada vez que eu falava, ele com a boca cheia de pizza, confirmava com a cabeça.

- Então, Giovanni, agora você já sabe que quando precisar de auxílio da natureza, você tem que fazer um movimento que vibre no local da força que origina essa energia. Isso, em síntese, é magia! Exclamei triunfante.

- E você, Fernando. Onde se encaixam os teus movimentos? Anda todo torto, um dia calmo, no outro agitado, não sabe dançar, e quando o faz é sem ritmo, às vezes tua expressão está tranqüila, outras não, às vezes é violento. Afinal, você o que é?

- Eu? Eu sou brasileiro, tentei escapar. Garçom, traga a conta para o meu amigo aqui.

Bandeira da Amizade