Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 14 - Se Deus me desse...

Eu e a Yedda estávamos descendo a serra do mar. Eu dirigia o carro devagar porque o paralelepípedo da tortuosa estrada estava umedecido pela densa neblina, e o perigo do veículo derrapar recomendava muita prudência.

O cheiro da mata que entrava no carro, envolvido com o suave frescor da neblina, e a expectativa de um dia ensolarado e bonito, trazia uma paz interior dentro da medida que essas coisas boas me cercavam. O pensamento não tem parada, voa de um assunto para outro. "O mundo é bom, mas podia ser melhor", pensei. Interrompi o silêncio:

- Se Deus me desse a oportunidade de modificar alguma coisa de Sua obra, sabe o que eu iria mudar?

Minha companheira de quarenta e três anos de convivência é uma legítima representante do Orixá Ogum. Quando embravece deixa explodir todo seu gênio indomável, mas mesmo neste estado é capaz de ficar embevecida diante do colorido do beija-flor. Ao mesmo tempo que é irreversível em suas decisões e incapaz de ficar sensibilizada diante do choro convulsivo de um neto, estende sua mão para afagar a cabeça de um cão doente ou socorrer um cavalo atropelado na rua. Tem atitudes antagônicas: não gasta vintém à toa, mas abre sua bolsa para satisfazer os caprichos de alguém. Gostando de dar felicidade aos outros, sempre põe à frente dos fracos seu pequeno porte de mulher guerreira. Talvez pela sua ágil facilidade de raciocínio, não gosta de ter atitudes coniventes com os sonhadores. É sensata, no que difere de mim. Eu sonho e ela me acorda. Sempre foi assim. De soslaio, aquiesceu em ouvir.

- Pediria que todos os bichos pudessem falar, de preferência em português . Completei a frase, antes que ela dormisse outra vez.

Continuei divagando, envolvido na minha aventura de mentira:

- Seria bom para os homens se eles pudessem entender os bichos. Se nossos olhos e corações são insensíveis aos seus comportamentos, quem sabe eles pudessem nos dizer onde erramos. Imagine quanta coisa a águia poderia nos ensinar, por ser ela a ave de vôo mais alto e que pode ver o mundo em toda sua amplitude.

- E o que você iria perguntar à águia ?

- Ainda não sei. Talvez lhe desse a mesma oportunidade e perguntasse o que pediria à Deus para melhorar o mundo.

- Sabe o que ela iria pedir? Disse a Yedda em tom sarcástico.

Fiquei aguardando o já certo e fulminante complemento da frase.

- Ela ia pedir que para o mundo ficar melhor, os homens não pudessem falar.

Fiquei em silêncio, desenxabido, e cheguei ao nosso destino, pensativo, sem falar em querer modificar o mundo, pretensão para quem não consegue modificar nem os seus defeitos próprios. Mas o diálogo sonhador ficou calado em mim, imaginando como seria o mundo.

Às vezes sou convidado para fazer uma palestra sobre a umbanda a grupos de estudantes. Diante de trinta deles, e após ter já respondido várias perguntas, contei para eles o diálogo na descida da serra, e como ele tinha ficado cravado em meus pensamentos e como um simples devaneio tinha revolvido os meus conceitos dos mistérios da magia. Mencionei a magia das palavras, destacando sua locução, tom e efeito.

- O som é vibrante, e tem um efeito no espaço. A musica e os mantras, são prova disso. A sonoridade das palavras de Jesus deveria inebriar seus ouvintes e ao pregar o Sermão das Montanhas deve ter causado um impacto maravilhoso nos que o ouviram. Não poderia ter sido o grande pregador se a impostação de sua voz não fosse perfeita. Falei, esperando o resultado entre o grupo do meu inflamado ensinamento.

Todos estavam atentos e me olhavam com expectativa, o que me animou a continuar.

- A educação da voz, deveria fazer parte da matéria obrigatória escolar, porque a maneira de emitir as palavras tem um efeito enorme, não só para quem a pronuncia, mas para quem as ouve. A suavidade, tonalidade e firmeza das palavras, expressam a qualidade de quem as emite. Um falante descontrolado, voz estridente e tom alto, pode causar efeitos negativos em seu ambiente. Os gritos histéricos, as gargalhadas, os berros e a má formação da expressão, têm um lugar no espaço, e com certeza, não será em lugar espiritualizado, e sim no astral inferior. Estamos alimentando o inferno sonoro de nossa alma. Falo da ação e da reação, da causa e do efeito e da lei dos semelhantes. O mais importante não é a vibração da emissão dos sons. A intenção das palavras é que causam o efeito. Todos os nossos sentimentos reprimidos eclodem e se somam às vibrações dos sons, sejam eles positivos ou negativos.

Um aluno criticou de forma irônica:

- Seguindo seus ensinamentos, se o homem não falasse, conforme você disse no início, a magia das palavras desapareceria.

- É verdade, mas em compensação o maldoso efeito da infâmia, tão própria dos homens, não destruiria mais lares, nem romperia amizades, nem seriam levantados testemunhos mentirosos, o que, muitas vezes, jogam à lama o nome de pessoas honradas. A maledicência da inveja seria banida da humanidade, e a intriga seria definitivamente sepultada, e o mentiroso e gabola não mais existiria, facilitando a paz entre os homens. E o velho ditado "quem conta um conto aumenta um ponto", por desuso, seria sepultado, evitando a criação de imbecis e irresponsáveis, aqueles que falam mentiras para apaziguar seus sentimentos ofuscados pelas trevas demoníacas da incompetência e da frustração. Falei, encerrando minha palestra.

Ao chegar em casa, a Yedda me perguntou:

- Como foi a palestra?

- Foi boa, porque além de ter sido muito aplaudido, eu tive um revelação.

- Que revelação? Perguntou, curiosa.

- Deus fez o mundo com perfeição. É melhor deixá-lo como está.

Bandeira da Amizade