Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 13 - A Umbanda

Confesso que estava ansioso. Tinha sido muito bem recebido pelo pai-de-santo Edmundo Rodrigues Ferro, o dirigente do terreiro, a Tenda Espírita São Sebastião.

Era um salão grande, bem iluminado, diferente da nossa casa kardecista. Metade da parede era vermelha e metade preta. Achei estranho este mundo. Todos falavam e conversavam animadamente, sem a concentração comum dos trabalhos que estava habituado a freqüentar. Eu, curioso, perguntei ao Benno:

- Quando serão apagadas as luzes?

- Não se apagam. Respondeu lacônico.

Estava assustado, sem nada entender resmunguei:

- Esquisita a pintura. Vermelha e preta.

- Hoje é trabalho de esquerda. É dia dos exus e pombas-giras. Explicou.
- Exu? Pomba-gira? Vou embora.

- Se acalme. Já que você está aqui, deixe começar!

Lembrei da ordem do irmão Maneco, e fiquei quieto. Prestei atenção na movimentação dos médiuns. Foi um tal de bater cabeça no chão, e um beijar a mão do outro. Aí entrou a mãe e o pai-de-santo. Três tambores começaram a tocar. Todos ficaram em pé. Eu fiz o mesmo, lembrando do tempo que namorava na igreja. Com a seguinte diferença: lá acabava, e aqui estava começando. O pai-de-santo concentrou-se e começou a cantar o Hino da Umbanda. A corrente foi entrando em fila. Todos de branco, garbosos, seguros, demonstrando um orgulho enorme por estarem ali. Os vestidos das mulheres eram impecáveis, suas saias rodadas balançavam aos som dos atabaques. Os homens não deixavam por menos. Suas calças e camisas eram brancas e muito limpas. Todos cantavam o Hino. Senti um calafrio. Parecia uma parada militar, tocando o Hino Nacional. O medo transformou-se em emoção, e depois em fascínio. Já não queria ir embora. Meu desejo era entrar no meio, para cantar com eles. Foi uma vibração incrível! Pareceu-me ter levado uma tijolada na cabeça. Nunca podia imaginar uma coisa assim. Estavam mais para anjos do que para os filhotes de diabos, que eu estupidamente imaginava. Não paravam de cantar e dançar. Bem, de repente pensei: e o exu? Como será ele? Terá cornos, rabo e pés de bode, como me falam? Sou hoje um homem sem medo. Sentei e deixei as coisas acontecerem. Começaram as incorporações. Mas o ritual era diferente do que estava habituado. Luzes acesas, todos cantavam e dançavam. O pai-de-santo incorporou a entidade chefe naquele terreiro, da linha da esquerda,. Vovô Conrado era seu nome. Sentou-se numa cadeira, espécie de trono, capa preta, fumando e bebendo uma mistura, depois fiquei sabendo ser de sete espécies, material para deixar qualquer um de porre. Fiquei olhando, curioso. Não perdia um movimento sequer. Outros espíritos incorporavam nos demais médiuns. Era incorporação em massa. Totalmente diferente do que conhecia. Riam, brincavam e falavam com todos os presentes. Ouvi o Vovô Conrado chamar:

- Careca, venha aqui. Quero falar com você.

Olhei para todos, e reparei ser eu o único careca ali dentro. Levantei-me, já solto e alegre, e corri para conversar com ele.

- Careca, ele falou. Você não está aqui por acaso. Prometi ao Nêgo Maneco ensinar uma porção de coisas a você. Está vendo coisas estranhas. Saiba, meu filho, que cada um viaja como pode. Uns vão andando a pé, outros com essas máquinas de vocês, outros de canoa. Mas, no fim, está o lugar onde todos devem chegar.

Não acreditei. Já tinha ouvido essas palavras, há anos. Fiquei olhando o exu. Não vi cornos, nem rabo e muito menos pé de cabra. Vi, isto sim, uma entidade alegre, determinada, doce e amorosa, repetindo as mesmas palavras do Pai Joaquim ditas há mais de trinta anos. Meu irmão – disse, procurando iniciar uma conversação.

- Não sou teu irmão, coisa nenhuma. Aqui sou pai, ou, simplesmente, vovô. Quando falar comigo, tenha respeito!

Meu pai – disse, retomando a conversação. Explique-me duas coisas:
- Quem lhe contou o nome do irmão Maneco e como o senhor sabia a frase que ouvi há anos. E por que Nego Maneco.

Com um olhar matreiro, após um baita gole no caneco da bebida, olhou-me e disse:

- O espírito tudo sabe. E esse irmão Maneco não é irmão coisa nenhuma. É um preto-velho, sim senhor. Vá para o teu lugar, ou para onde queira, fique olhando e vá aprendendo.

Saí de fino, voltei para meu lugar e fiz o que o Vovô mandou. Fiquei olhando. Admirado. Empolgado. Entusiasmado. Sei lá o que mais. De repente parou na minha frente um médium incorporado. Olhou-me fixamente. Deu uma gargalhada e ofereceu-me bebida. Era uma caneca, em forma de caveira. Dei um gole e quase vomitei, porque detesto bebida alcóolica, principalmente conhaque. Devolvi-lhe o copo-caveira. Exu sempre tem um olhar marcante. Mais dominador do que assustador. E ele estava desse jeito quando informou:

- Careca jaguara!. Já te conheço da outra casa. Foi bom você ter vindo para cá. Meu nome é Tata Caveira mas lá eu sou o João.

Lembrei-me do "sêo" João, na linha kardecista. Às vezes dizia ser Caveira. Era o espírito que resolvia nossos problemas. Lembrei-me de um trabalho maravilhoso, feito por ele. Uma médium, companheira nossa, estava em grande dificuldade e como não queria mais freqüentar os trabalhos, ficamos preocupados. Pedimos socorro ao "sêo" João. Ele, incorporado, disse-nos já voltar, pois ia resolver o problema. Subiu. Uns dez minutos depois, incorporou novamente, dando-nos a notícia de estar o caso resolvido, e no próximo trabalho a médium iria voltar. Vi estar carregando uma caixa cheia de cobras. Fiquei curioso. Perguntei-lhe a razão.

- Chegando na casa da médium, vi que ela estava cheia de espíritos perturbadores, influenciando nossa companheira para não mais ir aos trabalhos e abandonar o espiritismo. Coisa de espírito brincalhão. Soltei várias cobras na casa e, no plano espiritual, quando eles as viram, saíram em debandada – disse, rindo. Quando foram embora, recolhi todas e o ambiente ficou livre desses infelizes obsessores. E despediu-se.

Na outra semana, após seis meses de ausência, nossa irmã voltou, normalmente, aos trabalhos.

- Que bom revê-lo, "sêo" João – respondi agradecido.

- Tata Caveira, Careca! – corrigiu, e foi falar com outra pessoa.

Este foi meu primeiro contato com a umbanda. Voltando para casa, enquanto cantarolava os pontos que ainda ecoavam em meus ouvidos, pensava comigo: pena não poder um dia freqüentar a umbanda, afinal sou contra rituais...

Bandeira da Amizade