Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 11 - Nem tudo é magia

O homem é suscetível à ameaça da magia. A idéia de ser vitima de um trabalho feito contra a sua pessoa, cria-lhe o medo.

Sobre esse assunto, uma entidade deu uma explicação:

- É mais fácil você fazer o bem, do que o mal.

A revelação, tão clara, surpreende-nos a todos, pois sempre acreditamos o contrário, pelo fato de julgarmos que a nossa energia é mais compatível com a vibração baixa.

- Quando você deseja o mal a outro, mesmo criando um campo energético através de trabalhos, toda a defesa espiritual da pessoa se fecha e a protege. Se você desejar o bem, a sua retaguarda afrouxa e abençoa a vinda da vibração de paz. Previno a todos: o pensamento pode tornar a mentira verdadeira. – Não criem o medo por infundados trabalhos pegados. – concluiu a entidade.

A maioria das consultas, nos terreiros de umbanda, é para desmanchar um trabalho feito contra a pessoa, quase sempre fruto da imaginação e do medo. Umbandistas mais experientes sabem distinguir um do outro. Quando o preto-velho ou o caboclo manda procurar o exu, e este faz um trabalho especial com elementos da terra, é porque existe uma energia ruim, precisando ser combatida pela criação de uma força semelhante àquela que provocou o distúrbio na pessoa. Caso contrário, é só imaginação.

Numa manhã, quando ainda não integrado ao movimento umbandista, ao sair de casa vi, do lado esquerdo do meu portão, um círculo pintado de vermelho, com uma cruz dentro. Imaginei o pior: alguém fez um trabalho de magia, contra mim ou minha família. Confesso, um arrepio incomodo correu pela minha espinha. Fiquei com medo. Elevando meus pensamentos, pedi proteção aos espíritos de luz:

- Tenho fé em Jesus Cristo e nos seus mensageiros. Este mal será banido da minha vida.

Durante o dia, aquela macabra pintura não saía do meu pensamento. E pior, era com tinta, daquelas que não sai mais, nem com chuva intensa. Embora não conhecesse a magia praticada nos terreiros, conhecia a força dos trabalhos do mal, e como introduzi-los num lar. A macumba, colocada em qualquer encruzilhada, com sapo morto, fica girando em torno de seu corpo pegajoso e redondo. O cascão do sapo é colocado pelos espíritos do astral inferior em qualquer canto de sua casa. Fica ali, vibrando como toda energia. A faixa vibratória, por ser negativa, é alimentada por força semelhante. Qualquer briga, confusão entre familiares, gera a tal energia compatível, imediatamente sugada pelo trabalho, que vai crescendo à medida que é alimentada, até ter uma força grande, pondo em risco a serenidade e paz da família, dona da casa. Fica o ambiente carregado, trazendo, muitas vezes, até a doença física. Mas, se ao contrário, o ambiente for de paz, harmonia, preces, tolerância e perdão entre os moradores da casa, a energia, não tendo com que se alimentar, vai diluindo-se até desaparecer.

- É, o correto é ter bons pensamentos. Que Jesus perdoe esse meu desconhecido inimigo. Vou esquecer essa estúpida magia. - dizia, para meus botões.

Mas eu não conseguia esquecer por duas razões: o medo e porque estava pintada na entrada da minha casa, visível e assustadora. No terceiro dia, não suportava mais aquele medo de ver minha gente, vitimada por um maníaco espiritual. Fui pedir ajuda a um amigo, experiente espírita. Levei-o à minha casa, mostrando o símbolo do diabo. Ele, assustado, explicou:

- Macumba! E é da grossa! A cruz, significa, neste caso, a morte. E o círculo é para fechar o trabalho.

Eu não sabia o que dizer ou fazer. Não iria solicitar trabalhos especiais, se eu fazia parte de um grupo espírita eficiente e com bons resultados. Meu fanático amigo, não gostou da minha decisão. Insistiu:

- Não adianta. A linha kardecista trabalha só com energia. No caso, tem que haver a criação de um campo de força da magia branca, para destruir a ruim.

Achei a interpretação da cruz e do círculo uma aberração espiritual, contrária ao bom senso e à inteligência, mesmo mediana, de qualquer um. Quanto ao fato de criar um campo de força para combater outro, achei lógico e certo. Para não falar mais no assunto falei:

- Vou pensar.

Com o decorrer dos dias, fui me acostumando com o círculo vermelho. Já não tinha mais medo. Na verdade, só um pouco. Numa tarde, fui caminhar no bairro. Passando em frente à casa do vizinho, vi o mesmo desenho feito na minha. Fui a outra, a mesma coisa. Todas as casas tinham a marca. Atônito, chamei um vizinho que regava seu lindo jardim, e perguntei:

- Você sabe por que, as casas estão marcadas com este símbolo?
- Sim, foi a Companhia de Rede de Água e Esgotos, que marcou as casas, onde vão ser mudadas as redes das águas pluviais.

- Mas, podiam ter uma marca mais simples. Respondi, sem ele nada entender.

Bandeira da Amizade