Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 10 - Criando a Lógica

Brinco com as pessoas, quando digo que o espiritismo por si só é ilógico, mas dentro dele, mesmo ainda não descoberta, existe a lógica.

Minha casa no litoral tinha sempre suas telhas furadas, provocando goteiras, o que me obrigava a levar alguém para consertá-las. Levei o Basico, um carpinteiro conhecido há muito tempo. Enquanto fazia os reparos na estrutura do telhado, fui, ao lado, numa mercearia. Contei o caso dos estranhos furos nas telhas. Ocorreu-me perguntar:

- A senhora sabe, por ocaso, se aqui no balneário, pessoas costumam atirar com revólver?

- Por que pergunta?

- O tamanho dos furos nas telhas indicam serem feitos por pequenos objetos como balas, não havendo rachaduras. – expliquei, intrigado.

- Os furos são feitos pelas sementes dos sombreiros. – explicou, convicta.

As árvores não ultrapassavam a cumeeira da casa. Não tinha lógica. Perguntei:

- Mas como pode isso acontecer?

- Nos dias que tem vento forte, elas são levadas ao alto e, ao caírem, vêm com força, provocando os furos.

- É. Considerando que a semente tem o tamanho de uma castanha, é leve e tem uma ponta dura, tem lógica. Respondi, convencido.

O Basico era um descendente de italianos, meia idade, demonstrando muita força, adquirida no exercício de sua profissão. Era alegre e brincalhão. Contei a teoria da dona da mercearia vizinha, pedindo que cortasse a copa da bela árvore do meu quintal. Ele não deixou transparecer duvida quanto ao fato das sementes provocarem os furos nas telhas. Mas contou uma história:

- Outro dia, fui consertar um telhado de uma casa aqui perto, e umas cinco telhas estavam totalmente destruídas. Fiquei pensando o que podia ser. Quando fui ver dentro do forro da casa, descobri que as telhas foram quebradas por um peixe com mais de meio quilo. – concluiu, rindo.

Por mais que quisesse, não conseguia imaginar como um peixe podia cair no telhado de uma casa. Fiquei até contrariado por julgar estar sendo alvo de uma chacota. Afinal, sempre respeitei o Basico, o que me dava o direito de também ser respeitado. Indignado, falei:

- Pare com mentiras, Basico. Tua história está ofendendo a minha inteligência. Como pode ter acontecido isso? O peixe tinha asas?

- Não, o peixe não tinha asas. Com certeza a gaivota deixou ela cair de seu bico. – respondeu, rindo matreiramente.

Ele me pegou! Conseguiu criar a lógica.

O que às vezes parece absurdo e impossível, uma simples explicação torna tudo compreensível. E o espiritismo é cheio de mistérios. Existem crenças refutadas terminantemente, por não existir a lógica. Quando me perguntam se acredito na lenda do lobisomem, respondo, convicto:

- Acredito!

Acreditar que o homem se transforma em lobo e sai matando pessoas na lua cheia, é coisa de criança. É uma crendice, passada de geração à geração, e se ainda está presente entre nós, ainda viva e criando temores entre os mais crentes, é por ter sido inventada em fato marcante que deve ter abalado a opinião pública da época.

Pelo processo da reencarnação, os bruxos e bruxas da idade média talvez estejam hoje reencarnados, na umbanda, espiritismo ou qualquer outra religião transcendental. Mas eram, sem dúvida, mais voltados à magia que os de hoje, talvez porque não se distraíam com automóvel, televisão e computador e, por isso, entregavam-se muito mais à concentração, à manipulação de ervas, à alquimia e, principalmente, ao treinamento da saída do espírito do corpo, hoje em moda no meio esotérico, as chamadas saídas do corpo ou viagens astrais. Eles tinham a técnica apurada e, quando precisavam, seus espíritos saíam do corpo, em busca do lobo chefe de alcatéia e, dominando sua mente, o guiava aos ataques de quem queriam destruir. O lobo, agindo sob a influência do bruxo, parecia estar animado com uma vontade humana, como, no caso, realmente tinha. Daí, para o povo dizer que o homem se transformava em lobo, foi um passo.

A criação da lenda do lobisomem foi assim. Hoje, estou tentando criar a lógica, claro, dentro do ilógico.

Bandeira da Amizade