Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 24 novembro de 2017

Capitulo 1 - Tudo Começou

A mediunidade é a sensibilidade de perceber e ouvir os espíritos. Quem a desenvolve, serve de intermediário aos mundos paralelos, o físico e o espiritual.

Todos nós a possuímos em maior ou menor intensidade. Sua manifestação difere bastante, tendo os médiuns a característica da intuição, da audição, da vidência, da clarividência e a capacidade de incorporar espíritos e outras tantas formas que impressionam nossos sentidos. Ela não tem data para se manifestar, dependendo de nossas observações e dedicação ao seu desenvolvimento. No meu caso, manifestou-se cedo, embora ninguém tivesse percebido. Quando comecei a balbuciar minhas primeiras palavras, segundo contam meus familiares, recusava o nome de batismo, para adotar o de Woisler Kotichka. Coincidentemente, o espírito cigano com o qual trabalho, quando deu seu nome, disse chamar-se Woisler, Mas se é Kotichka, não sei.

Tinha uns três anos de idade, ou talvez menos. Saí pela porta dos fundos que dava para o antigo quintal e, sentada em cima do muro, olhando-me e esboçando um largo sorriso, estava uma menina, balançando infantilmente suas pernas, olhando-me fixamente. Suas roupas não eram daquela época, com meia-calça, chocavam pelas enormes listas pretas e brancas. O vestido parecia de veludo e seus louros cabelos eram cacheados, no estilo da pintura clássica do século passado. Entrei em desespero e, chorando, corri para dentro da casa. Talvez esta seja a mais remota imagem que me recordo, de tanto que me impressionou. Nada ficou registrado, exceto na minha apavorada memória. Foi ali, exatamente ali, que o medo do sobrenatural começou a tomar conta de mim. E não havia como modificá-lo, já que fui perseguido por ele em toda minha infância. Nunca me acovardei diante de nada e de ninguém. Mas do espirito? Ele era alguém? Quando tinha onze anos meu pai morreu. Era tradição na época, no momento de fechar o caixão, os filhos beijarem sua face. Eu, escondido, neguei o ósculo. Aquele homem, no pomposo caixão, não era meu pai. Era um defunto, gelado e assustador. Por que fazem isso com as crianças? Cresci atormentado com este remorso.

No fundo da minha casa havia uma construção de madeira, de dois andares, e um dos quartos era o lugar onde nós, crianças, brincávamos e tínhamos nossas coisas. Improvisei uma farmácia de mentira, cheia de bonitos vidros de perfumes. Brincava, junto com um amigo, neste quarto, quando, repentinamente ele estremeceu por inteiro. Meu amigo, o Levorato, era ruivo e sardento. Assustado, olhei para ele. Pela primeira vez o vi sem as sardas. Lívido, parecia petrificado. Foi quando os vidros começaram a voar contra as paredes. Saímos em disparada. Fiquei meses sem entrar no maldito e assombrado quarto. O medo, outra vez o medo, me aterrorizava.

Apesar de ter apenas treze anos, era um dos sócios de uma quase falida revista especializada em turfe. Os cavalos me fascinavam, e o ambiente das corridas era onde convivia, entre os treinadores, jóqueis e cavalariços. Como toda revista vive de propaganda, uma página nobre divulgava a existência de chique casa de prazeres, chamada "Star", nome fantasia por nós escolhido, para encobrir o famoso bordel da época. Era assim: tudo farra e nenhum compromisso sério. Meu sócio e eu escrevíamos, cuidávamos da redação, ajudávamos na paginação e impressão, além de angariarmos os anúncios e ainda cobrá-los. Claro, bordel só abre à noite. E na data predeterminada para o pagamento do anúncio, logo que chegamos à casa, percebi movimento de policiais dando as famosas batidas. Pela minha idade achei prudente não me expor aos policiais e permaneci dentro do carro. Ouvi alguém bater no vidro da janela. Voltando o olhar, vi uma velha, cabelos brancos e roupas esquisitas, onde dominava a cor verde garrafa. Estranhei a figura, e quando me preparava para descer o vidro, minha atenção foi desviada para grande movimentação das mulheres que trabalhavam na casa, com desmaios, gritos e correrias. Não entendendo nada, quis atender a estranha velha, mas ela havia desaparecido. Ofegante, meu sócio entrou no carro e partiu rapidamente, enquanto me contava assustado a causa do reboliço das mundanas: é que tinha aparecido o espírito da velha de verde, que, segundo disse a dona do lupanar, foi mãe de uma daquelas mulheres e assombrava a casa. Bem, pensei, assombrou a casa e a mim. O medo não me largava. Jurei nunca mais pisar naquele lugar, nem para cobrar o anúncio.

Assim foi minha adolescência, cheia de barulhos estranhos, visões e sonhos assustadores. O medo continuava meu parceiro, muito embora eu corresse várias benzedeiras e sortistas, na tentativa de afastar esse terrível inimigo, o medo. Procurei fazer em mim mesmo uma lavagem cerebral: espírito não existe, e pronto! É tudo bobagem!

Com os cabelos cheios de brilhantina, bem penteado e lambido, terno impecável e gravata borboleta, tomando um uísque em casa noturna, embora com apenas quinze anos de idade, discutia sobre espíritos com o Dilson, um amigo que fazia parte de um centro espírita. Enquanto ele ardorosamente tentava me convencer da existência do sobrenatural, eu, em troca, fazia caçoada e o chamava de fanático louco.

- Dilson, vamos combinar, quando um de nós morrer, um vem provar para o outro, que o espírito realmente sobrevive à morte.
- Não - retrucou o Dilson. Chegando em casa hoje mesmo, vou fazer uma sessão e pedir para que algum espírito vá te provar que ele existe.

Pensei um pouco, e o fantasma do medo voltou.
- Te aviso - respondi seco e firme, se aparecer algum espírito na minha casa, suma da cidade porque vou te cobrir de pau. Paguei a conta e fui embora, bastante contrariado.
A fatalidade é madrasta. Meses depois, o Dilson, em um acidente automobilístico, perdeu sua jovem vida. Confesso que, durante muito tempo, dormi de luz acesa e pedia a Deus fazer o Dilson esquecer nosso trato.

A igreja era lugar onde ia namorar a Yedda, com quem me casei, e até hoje vivo, numa invejável parceria de amor e respeito. Todos rezavam e eu apenas imitava seus gestos, por absoluto desconhecimento do ritual católico, enquanto esperava, ansioso, as batidas do sininho do sacristão anunciando o final da missa. Mas num daqueles domingos um padre novo na igreja fez um sermão que me fascinou. Ele dizia que o espiritismo era uma mentira. O espírito jamais poderia se manifestar na matéria. E contava histórias, provando ser tudo uma fantasia do homem e o que parecia ser sobrenatural, sempre tinha uma explicação lógica e bem natural. Fiquei seu fã. Já queria ir a missa só para ouvir o padre falar das bobagens do espiritismo. Fiquei entusiasmado. Estava perdendo o medo. Foi quando, numa madrugada, não sei porque, acordei e vi no canto do meu quarto a minha avó, em pé, com um ramo de flores no braço, sorrindo docemente para mim. Estava diferente da última vez que a vi, no caixão, pronta para ser enterrada. Entrei em desespero. Escondi-me embaixo das cobertas, e por ser noite quente, suava bastante. Às vezes arriscava olhar. E a velha ainda estava lá, sorrindo, sem eu saber do que. Quando percebi a luz do sol, arrisquei mais um olhar. Ela tinha ido embora. Quis acreditar ter sido um pesadelo. No dia seguinte, encontrei a Dag, uma tia muito querida, espírita convicta e freqüentadora de sessões mediúnicas. Falou, cheia de mistério
- Fernando, tenho um recado. Tua avó, na sessão, disse que ia aparecer para você.

Um frio percorreu minha espinha, o coração bateu mais depressa e o medo voltou com toda força. Era coincidência demais. Resolvi me entregar. Passei a ser menos radical. Tive um início na religião, admitindo existir o espírito e sua manifestação na matéria. Confessei minha disposição à Dag. Ela recomendou eu ler alguns livros espíritas, principalmente os básicos do Allan Kardec. Expliquei a ela que eu era fã dos livros policiais do Shell Scott, e que não iria ler nenhum livro espírita. - A experiência será o meu aprendizado, caçoei. De fato, à noite, como de hábito, li alguns capítulos do meu herói. De manhã, ao acordar, o livro tinha sumido da mesinha de cabeceira. Fiquei intrigado, mas teimoso como sou, comprei o mesmo livro. Li à noite. Repetiu-se o fenômeno. Desapareceu o livro, pela segunda vez. Quase fui à loucura, mas nenhum espírito, ou seja lá o que fosse, me faria desistir de ler o que eu queria. Comprei o terceiro, e pela terceira vez, inexplicavelmente, ele desapareceu. Achei demais. Entreguei-me e comprei o Livro dos Espíritos. Dias depois, quando terminei a leitura do famoso livro do mestre Allan Kardec, ao abrir a gaveta do armário onde guardava minhas camisas, ritual que fazia diariamente, em cima das roupas estavam os três livros misteriosamente desaparecidos.

A insistência dos fenômenos na minha vida cotidiana, fez-me tomar uma decisão: tornei-me adepto do espiritismo.

Bandeira da Amizade