Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sábado, 25 março de 2017

Mantras

por Pai Fernando Guimarães

A música foi feita para a pessoa entrar em harmonia cósmica. O mantra na Umbanda é o ponto cantado acompanhado pelo couro dos atabaques ou outros instrumento musicais. Por falar em atabaques, eles têm nomes: o grande se chama Rum, o médio Rumpi e o pequeno o Lé. Eles devem ser cultuados. Poucos sabem, mas atrás de cada um deles, além do Ogan encarnado, fica uma entidade desencarnada. No nosso terreiro o nome da entidade mentora da Engoma é Ogan Caian.

Existem vários tipos de pontos: o de saudação, louvação, vibração, de linha e o individual. Por exemplo: canta-se um ponto da linha de Oxóssi. Incorporam somente os espíritos pertencentes a esta linha de Caboclos. Canta-se um ponto individual, aquele que tem dono, incorpora neste ponto o próprio espírito chamado. Se vier outro está tudo errado.

Acho bem oportuno transcrever um trecho da obra A Missão do Espiritismo, do Mestre Ramatís, psicografado pelo médium Hercilio Maes,  respondendo uma pergunta sobre pontos na Umbanda: “Apenas para atendermos ao vosso pedido, vamos alinhas alguns “pontos cantados” que denunciam a linhagem superior de entidades comunicantes, através de símbolos ou indícios entendíveis pelos umbandistas estudiosos. Mencionamos, primeiramente, o seguinte “ponto cantado”:

De quando em quando,
Quando eu venho de Aruanda
Trazendo pemba
Pra salvar filhos da fé!”

Neste ponto e nos demais que analisaremos, encontram- se palavras convencionais que definem as características e os objetivos das falanges que representam, inclusive identificando a linhagem dos chefes ou pais que as governam. A primeira estrofe “quando eu venho de Aruanda”, induz que o chefe de falange é “pai de segredo”, pois vem do Céu ou Aruanda, “trazendo pemba”, ou giz, isto é, autorizado a escrever, salvar e alforriar os filhos da fé ou filhos de terreiros, já disciplinados sob os ditames do bem ministrado pelas regras da Umbanda. Está claramente definido que o chefe vem “de quando em quando da Aruanda”, lugar onde ele habita, para participar das falanges na condição de “pai de segredo”!

Na minha aldeia,
Lá na Jurema,
Não se faz nada
Sem a Lei Suprema!”

O segundo ponto evidencia a finalidade da falange no serviço incondicional do bem, que se explica obviamente nas duas últimas estrofes, “não se faz nada sem a Lei Suprema”. Embora o chefe seja índio, Caboclo ou Preto Velho, esse ponto cantado identifica a condição espiritual muito superior, pois nada fará que contrarie os princípios evolutivos da Lei Suprema de Deus! Ademais, a estrofe “lá na Jurema” assinala tratar-se de tribo ou falange de índios do litoral habituada ao tratamento de males como a lepra, feridas e chagas, com a aplicação da folha da jurema, conhecida cientificamente por Mimosa verrucosa, cujas cascas são amargas, adstringentes e de aplicação narcótica, aliviando as dores fortes.

Apanha laranja no chão,
Quem quiser.
Come maná lá no céu,
Quem puder!”

O terceiro “ponto cantado” manifesta-se sob um admirável e atraente aforismo, capaz de oferecer algumas proveitosas ilações filosóficas a respeito do espírito. A laranja simboliza o fruto da terra que nasce, cresce e morre, assim como as ilusões do mundo material!

Ademais, o ponto alude aos que passam pela carne em existência fácil, as coisas à mão. Adquiridas sem grande esforço, pois as primeiras estrofes são nítidas a respeito: “Apanha a laranja do chão/ quem quiser”. A laranja já caiu, é fácil apanhá-la, sem esforço, sequer de arrancá-la da árvore; está à “mercê do primeiro que chegar”. É o símbolo da sorte ou da felicidade para as criaturas que já gozam de todas as satisfações e conforto do mundo; mas é um bem provisório que “apanha quem quiser”. No entanto, “Come maná lá no céu/ quem puder” expressa a perfeita antítese de “apanhar laranja no chão”, pois é o bem eterno, conforme se deduz da vida espiritual! “Quem puder” libertar-se do mundo material e governar o seu espírito, também fará jus ao alimento superior, que é o “maná do céu”, que Deus mandou em forma de chuvas aos israelitas, no deserto, quando estavam esfomeados. É o perfeito simbolismo de duas formas de nutrição: a do corpo e a do espírito!

Ademais, ainda no seu sentido iniciático, o cântico revela uma falange de doutrinação, com o objetivo de esclarecer os filhos para se libertarem dos frutos perecíveis da terra e buscarem, tanto quanto possível as dádivas do Céu! É um convite do Senhor descido ao Paraíso,
conclamando os filhos à luta, renúncia e realização, implícitas subliminarmente no “quem puder”, em vez do comodismo, ociosidade e extravagâncias do “quem quiser”! É falange perfeitamente identificada entre os “comandos eletivos” do Espaço, que operam sob égide do conceito crístico, “muitos os chamados, poucos os escolhidos”! Obviamente, o chefe é um “pai de segredo” de alta estirpe espiritual, pois nenhum bugre, Caboclo ou Preto autênticos, possuem capacidade para ministrar lição tão relevante!

Na sua aldeia tem
Os seus Caboclos
Na sua mata tem a cachoeira
No seu saiote tem
Pena dourada,
Seu capacete brilha
Na alvorada!”

Quarto ponto cantado, acima expõe em suas estrofes a linhagem elevadíssima do “pai de segredo” que dirige a falange. Ali se percebe o seu poder fabuloso, a sua graduação mental avançada, o valoroso espírito de luta inextinguível e dinamizado de modo incomum na causa do bem! Revela-se entidade que lidera agrupamento de espíritos em sua moradia elevada, um mentor de alto plano celestial, pois esclarece o ponto: “Na sua aldeia tem os seus Caboclos”, ou seja, a aldeia desse “pai de segredo” é o mundo espiritual, onde ele vive, mora e tem seus discípulos: “os seus Caboclos”!

“Na sua mata tem a cachoeira”, isto é, a água límpida da vida eterna, no simbolismo do encachoeirado incessante, que mitiga a sede da alma e batiza no banho lustral da redenção, conforme o próprio rito banto na admissão do médium neófito para receber o pai de santo! Mas
onde se percebe claramente o nível mental desse “pai de segredo” é na seguinte e pitoresca estrofe “no seu saiote tem pena dourada”. O saiote, espécie de saia curta de tecido forte, que as mulheres costumam usar por baixo de outras saias, indica que o chefe da falange possui por baixo do “cascão” ou da aparência de Preto Velho, bugre ou Caboclo, outra indumentária mais forte e duradoura, ou seja, a sua realidade espiritual! Ademais, a pena dourada sob o saiote, conforme a cromosofia transcendental, significa a luz dourada de sua aura fluindo pelo perispírito, cuja matiz, formosa e brilhante, identifica extraordinária aquisição mental. Aliás, a pena sempre significou um direito intelectual adquirido do ser, é o emblema orientador ou criador de campo das letras ou das ideias! Mas os iniciados na Umbanda sabem que a pena e a
cor dourada são binômio identificador de um “mestre cármico”, isto é, entidade fulgurante descida do plano mental ou búdico, com poderes de interferir e modificar o próprio destino dos filhos, se assim julgar conveniente. É, na realidade, um autêntico “Senhor do Carma”, da velha tradição teosófica, cuja sabedoria imensurável o torna um incondicional procurador da Divindade entre as brumas tristes da vida carnal!

Finalmente, o seu “capacete” revela entidade combativa, corajosa, heroica, de ânimo invencível; espécie de guerreiro medieval, isto é, cuja atividade criadora teve início há muitos milênios, a partir da idade média do planeta! O seu capacete de guerreiro benfeitor só brilha na Alvorada e não no Crepúsculo; refulge pela madrugada, ao despontar do amanhã, pois enquanto a “maioria da humanidade ainda dorme”, ele permanece ativo no combate iniciado há milênios, devotando-se a libertação dos espíritos escravos da vida carnal ilusória! Sua tarefa é criadora, assim como a Alvorada significa desabrochar da vida, o despertar da juventude, o início de uma nova era!

Finaliza o Mestre Ramatis: “Eis, pois, ligeira digressão sobre alguns “pontos cantados” cujo sentido espiritual nem todos os umbandistas estão adestrados para compreender”.

O ponto acima maravilhosamente traduzido pelo Mestre Ramatis, no nosso terreiro, pertence ao Caboclo da Cachoeira e tem duas estrofes iniciais, aí segue:

Meu pai Xangô é rei lá na pedreira
Também é rei Caboclo da Cachoeira
Na sua aldeia tem os ....”

Editorias: Pontos.