Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 28 julho de 2017

Salve os Pretos Velhos!

Comemora-se, no dia 13 de maio, o fim da escravatura.
O Pai tem que falar...

O pai de todos, o Maneco. Foi escravo. Trabalhou no kardecismo para ser aceito. Orou com os mestres e por isso lá era chamado de Irmão Maneco. Já se nominou Pai José um dia. Amigo do Joaquim, Conrado e Maria. Nós, do Terreiro do Pai Maneco, celebramos essa data praticando a Umbanda pelos espíritos destes Pretos Velhos que entre nós são soberanos.

O Pai Maneco é alto, forte, cabelos brancos e rosto vincado pelas rugas. É a entidade que há
mais tempo trabalha comigo. É o meu grande amigo, conselheiro e protetor. Intransigente, não deixa nada escapar sem uma advertência, por menor que seja o erro. Apesar de bondoso e compreensivo, é de uma exigência extrema. Jamais vi qualquer alteração no seu emocional. Quer obediência dos médiuns para o ritual da Umbanda e para tudo que diz respeito à moral e à ética. Diz que o homem deve ter conscientização de tudo, inclusive para os fenômenos espirituais e da mediunidade.

Perguntei-lhe o que é a humildade, pois entendo que o homem tem a vaidade de ser humilde.

“O homem humilde é aquele que não julga ninguém.”

Fica bem claro, pelas coisas que diz e faz, que tem como princípio básico a humildade e a conscientização. Recomenda sempre não julgar o semelhante.

Outra vez ensinou-me: “Eu sou justo. Sei que sou justo porque vivo entre eles. Isso é conscientização. Entretanto, se eu quiser ser mais justo que os justos, aí então serei vaidoso”. Uma vez uma pessoa queixou-se: “Meu Pai, a carga está pesada”. De pronto ele respondeu: “Se o boi soubesse a força que tem, ninguém lhe botaria a canga”. Perguntaram-lhe qual a sua ótica para o sofrimento e qual seria a sua explicação: “Só sofre quem não tem conscientização”. E outra: “quando a morte não assusta, a dor não é sentida, o perigo não atemoriza, o elogio não envaidece, a crítica não enraivece, o homem atingiu um bom estágio espiritual”.

A MAGIA

O Preto Velho é o feiticeiro, apesar de suas mensagens serem baseadas no Evangelho. Na
magia, além dos segredos de origem africana, conhecem a cultura dos pajés indígenas.
São eles que organizam os trabalhos para o Exu, aliás, seu subalterno direto.
Só não podemos é fechar os olhos supondo que em tudo existe a magia. Muito da magia,
como dia o Pai Maneco, é o desconhecimento.

O RITUAL

Perguntei ao Pai Maneco o que não poderia ser tirado do ritual da Umbanda. Ele respondeu:
“Vou dizer o que não se pode tirar: as guias, os elementos, os mantras e a Quimbanda”.

PORTAS ABERTAS

No início do nosso terreiro, dado seu pequeno espaço físico, os médiuns amontoavam-se e o Pai Maneco, sempre humilde, mas exigente, obrigava-me a simbolizar a abertura da casa deixando sua porta aberta. Entretanto, um grupo começou a reclamar do acumulo de médiuns. No encerramento da gira, alguém perguntou ao Pai Maneco se não seria conveniente não permitir mais a entrada de médiuns na corrente. Fingindo surpresa, o sábio Preto Velho inquiriu: “Você acha, meu filho?
Mais alguém aqui pensa assim?”. Oito confirmaram. O Pai Maneco chamou as oito pessoas no centro do terreiro e disse: “Bem, meus filhos, se vocês afirmam isso, então hoje vamos diminuir a corrente tirando oito membros. Cada um de vocês vai apontar alguém da corrente e determinarei sua saída”. Dirigindo-se ao primeiro perguntou: “Qual dos membros da corrente devo tirar? Aponte-o”. Muito sem jeito, a pessoa disse: “Meu pai, eu não posso fazer isso”. Diante da negativa das demais, sentenciou: “Se vocês não podem fazer isso, como querem que eu faça? Então, nunca mais falem sobre o assunto”.

Saravá os Pretos Velhos, os chefes da nossa religião.

Editorias: Pai Fernando.

Bandeira da Amizade