Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, domingo, 23 julho de 2017

Eu você e a Religião

por Izabella Bellenda

Muitos umbandistas enfrentam o preconceito da família, dos amigos e dos colegas de trabalho por abraçar a religião. E aí, como é que fica? Fomos buscar um exemplo de como é que pode ser. Suzana Munhoz da Rocha Guimarães foi casada com Pai Beco, da gira de quinta-feira, e com ele teve quatro lhos, entre eles os pais de santo Leonardo e Gustavo e o pai pequeno Lourenço. Se ela é  umbandista? Não. Acredita nos espíritos, ensina a fazer mandinga, mas se mantém firme somente na retaguarda desses grandes homens que ajudam a levar o TPM à diante, mostrando que mãe é sempre mãe, independente da crença. É ou não é?

Qual o começo dessa história, da descoberta dos meninos e do Pai Beco pela Umbanda?

O processo de umbandização da minha família vem de longe. De quando nem existia o Terreiro Pai Maneco. Oriundos do terreiro do Ferro, era um grupo pequeno e unido em torno do Fernando. Movidos apenas pela fé e pelo destemor, nada tinham de seu, nem lugar para a gira. Beco, meu marido, e meus lhos ainda com jeito de meninos. Lá se vão mais de vinte anos. Vi meus meninos crescerem e seguirem ao lado do pai. Se tornaram homens do bem, capitães, pai pequeno e pais de santo.

E como foi e é para você, que não segue a religião, encarar todos os homens da sua vida tão envolvidos e inseridos nesse contexto?

Percursos da vida me levaram a trabalhar fora, dividindo meu tempo entre o Rio de Janeiro e Curitiba. E já não estava perto o tempo todo. Mas mesmo quando distante, me mantive próxima, atenta e apreensiva sim, anal estavam tomando um caminho que me era estranho. Hoje vejo o quanto esta distância foi benéca. Os meninos encontraram o forte apoio do Beco, criando com o pai um fantástico vínculo de identidade e afeto. E como numa confraria, se expandiram espiritualmente a olhos vistos, cada um com suas aptidões e qualidades diversas. Digo isso porque como são diferentes um do outro!

Aliás, gosto de apreciar esta diferença entre as pessoas, a convivência inimaginável de tipos sociais e culturais dos frequentadores de corrente e de plateia. Mais a formação das hierarquias e a inusitada divisão do poder, fazem da Umbanda um fenômeno democrático dos mais originais. Devia ser objeto de estudo sociológico.

E como é na prática essa convivência? A diferença de ideias, discussões, troca de informações?

Casa de mãe é casa dos encontros. Estamos sempre juntos. Presencio constantemente acaloradas discussões, ora profundas, de conceitos, ora controvérsias suaves, como o desanar de um ponto, ou o que vai no amalá de marinheiro.

Às vezes sou chamada para arbitrar uma polêmica. A familiaridade com a lógica e o simples bom senso até que ajudam. Mas quando o assunto é fé, me calo. Nesta hora um PHD em Filosoa de nada serve.

E quando as opiniões divergem bastante como que fica a relação mãe/ filho/ Beco/ Umbanda?

Diferimos bastante em matéria de crença. Sou católica e tenho bem claro os limites entre fé e razão. Leonardo é o que mais instiga as controvérsias. Passamos horas reetindo sobre a aproximação e a distância dos conceitos da Umbanda e do Cristianismo, dos princípios leigos da ética, da interferência ou manifestações de Deus da vida dos homens, da incontida necessidade de certezas num emaranhado de dúvidas.

Nós humanos precisamos de dar forma aos conceitos, é nosso modo de aprender. Ubiquidade dizemos de Deus por estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E as formas como Deus se manifesta são tão variadas quanto os lugares em que está, quanto os tipos de vida e de gente que ele criou. Digamos então que é multiforme. Isto traz a aceitação da diferença entre as várias religiões, que, quem sabe, nos levem todas ao mesmo lugar...

Das diferenças entre mim e meus quatro homens, ca bem clara a lição de que aprendi de família e formação – a liberdade individual de pensar e de agir é um bem inalienável. Assim, mesmo sem partilhar da Umbanda ou sem vestir branco, como vocês dizem, respeitei a opção dos meus lhos, e quando vejo os homens nos quais se transformaram, sei que foi a opção acertada.

E qual a sua relação com os espíritos, com a crença neles?

As pessoas perguntam porque Yedda (minha cunhada, mulher do Fernando) e eu não frequentamos o terreiro. Não sabem o que dizem. Voluntariosas como somos, seríamos bem capazes de querer mudar tudo lá dentro! Fernando e Beco diriam que é melhor não. Estamos bem do lado de fora, torcendo por eles e dando umas cutucadas certeiras de vez em quando.

Além do mais, a espiritualidade se manifesta em mim de maneira diferente, mais solitária e discreta. Cada um com seu jeito.

Mas até que frequento bastante o TPM, nos cruzamentos e outras cerimônias. As boas vibrações e a energia se espalham e entram pelos poros, fazendo um bem enorme. Mas a expressão maior das controvérsias é que tenho uma ligação forte com S. Tranca Ruas e com Xangô lá da pedreira.

Nas horas de sufoco, chamo os espíritos sem hesitação. Se for emergência então, como quando o coração do Beco vacilou, peço urgência urgentíssima para todos oslados. Domine, adjuvandum me festina, quer dizer: Senhor, para ajudar-me, apressa-te. Não falha, podem tentar.

Então, mãe é mãe, independente da religião?

Veja as fotos. Aos quatro cavalheiros protetores pode somar mais um, Ricardo, meu lho mais velho, médico de todos nós, que partilha a fé dos irmãos e dizem, é um grande médium. E também as noras Tatiana, Juliana e Mariana, que vestiram branco e iluminaram esta família de machos, cobrindo de amor e cuidados Léo, Gustavo e Lourenço. Hoje são também minhas lhas de coração. O que mais
pode querer uma mãe?

Editorias: Entrevista.

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