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Filosofia - Quimbanda |
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Os exus têm histórias muito bonitas,
interessantes e que vale a pena conhecê-las. |
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EXU
MORCEGO
Em um castelo, inteiramente
de pedra, mal cuidado e isolado no
meio de uma floresta, típico
daqueles pertencentes ao feudo europeu,
vivia um homem branco e corpulento,
trajando uma surrada roupa, provavelmente
antes pertencente a um guarda-roupa
fino. Percebia-se o desgaste causado
pelo passar do tempo, pois ainda carregava
uma grossa e rica corrente de ouro
de bom quilate, com um enorme crucifixo
do mesmo cobiçado material.
Parecia viver na solidão, muito
embora no castelo vivessem vários
serviçais. Na torre do castelo,
as janelas foram fechadas com pedra,
e só pequenas frestas foram
feitas no alto das paredes.
A luz não podia entrar. A torre
não tinha paredes internas,
formando uma enorme sala, com pesada
mesa de madeira tosca, tendo como
iluminação dois castiçais
de uma só vela cada. Ao lado
da tênue luz das velas, livros
se espalhavam sobre a mesa, mostrando
ser aquele homem um estudioso e que
algo buscava na literatura. De braços
abertos, com um capuz preto cobrindo
sua cabeça, emitia estranhos
e finos sons, tentando descobrir o
segredo da levitação.
Pelas frestas da torre, entravam e
saiam voando vários morcegos
com os quais ele procurava inspiração
e força para atingir sua conquista.
Por quê? Não sabemos.
A idéia e as razões
eram só da estranha figura.
Parecia um homem de fino trato, transfigurado
na fixação de atingir
um poder que não lhe pertencia.
Seu nome? Também não
sabemos. Só o conhecemos incorporado
nos terreiros como o querido, mas
temido, Exu Morcego.
EXU
7 DA LIRA
O Exu 7 da Lira, segundo
a unanimidade dos terreiros afirma,
foi o grande cantor brasileiro. De
certa forma, foi sinalizada alguma
coisa em nosso terreiro, pelo ponto
que ele mesmo ditou:
Sou exu, trabalho
no canto
Quando canto desmancho quebranto
Sete cordas tem minha viola
Vou na gira de elenco e cartola
Viola é o tridente
Cigarro é o charuto
Bebida é o marafo
Sou Sete da Lira
Derrubo inimigo
Ponteiro de aço
EXU
PANTERA
O Exu Pantera é
uma surpresa. Seu nome dá a
entender ser um espírito violento,
bravo, mas ao contrário, apresenta-se
com muita elegância, com charme
e um bom palavreado. Ele contou sua
história: afirmou ser europeu,
e grande admirador da pantera, para
ele, um animal esperto, ágil,
e o mais elegante de todos. Veio ao
Brasil para resgatar seu carma, agrupando-se
à umbanda, especificamente
à quimbanda e como tem uma
relação direta com o
Caboclo da Pantera, não teve
nenhuma dúvida em usar o nome
do lindo felino. Daí seu nome:
Exu Pantera.
EXU
DO FOGO
O Exu do Fogo contou
uma história interessante.
Disse que através do fogo executa
seus trabalhos de caridade, por ter
ele, no tempo da Inquisição,
condenado várias pessoas para
serem queimadas em fogueiras com a
pecha de bruxos. Hoje ele se considera
um bruxo e através do elemento
fogo, tenta resgatar os males que
carrega em seu carma. E vale a pena
ver a habilidade deste exu manipulando
o fogo.
EXU
JOÃO CAVEIRA
O Exu João
Caveira contou uma vida passada. Disse
que na Idade Média, foi um
fiel conselheiro de um senhor feudal.
Criada uma situação
no feudo de difícil solução,
foi solicitada sua opinião
para decidir a questão. Se
decidisse de uma forma, agradaria
todos os senhores, e de outra, faria
justiça a todos os moradores
desafortunados do lugar. Para ganhar
a simpatia do lado forte, decidiu
pela primeira hipótese, mesmo
contrariando a sua vontade, que em
nenhum momento expressou. Por causa
disso, ganhou um carma enorme, que
está resgatando nos terreiros
da umbanda.
EXU
DO RIO
Põe
mais um pro “Coroné”.
Estávamos
no meio de uma gira de Quimbanda,
entre uma consulta e outra,
quando o seu Exu do Rio virou para
mim (seu cambone) e disse:
- Põe mais um conhaque aí
pro “coroné”!
Observando minha expressão
de curiosidade, emendou:
- “Qué sabe por que coroné”?
Depois te conto.
Ao fim daquela proveitosa noite de
trabalhos, seu Exu
do Rio mandou que eu
me sentasse à sua frente e
contou-me a seguinte história:
“Sabe,
fio, eu era coronel. Desses que tem
terra, possui muito dinheiro,
muito poder. E, tendo poder, eu podia
ajudar muitas pessoas. E vinha muita
gente me pedir, mas eu não
ajudava ninguém não.
Eu tinha muitas escravas e aprontava
com todas. Tinha uma negrinha que
trabalhava na casa, era a minha preferida.
Eu “tava” sempre com ela,
vivia
“me deitando” com a dita
cuja. Até que ela engravidou.
Foi aí que eu resolvi
me casar.
Mas não pense que o coronel
ia se casar com a negrinha, não!
Eu mandei vir
da cidade uma moça branca,
jeitosa e de boa família para
ser minha esposa. E
casei.
Bom, como já disse, eu era
muito rico e poderoso e tinha muitas
terras,
muita riqueza mesmo. Um dia, saí
com meu cavalo pelas minhas propriedades,
cavalgando pelo mato, sem rumo, só
para me distrair um pouco. Eu estava
beirando um rio que eu gostava muito,
o Rio Grande. Eu adorava aquele rio.
Foi quando ouvi umas vozes.
Apeei do meu cavalo e fiquei escutando
aquela conversa; era a negrinha
conversando com a minha donzela. Notei
que esta chorava, enquanto a escrava
sorria. Não precisei pensar
muito para deduzir o que aconteceu:
a negra
contou que estava “embuxada”,
e que eu era o pai.
Quando eu vi num olhar tristeza, e
no outro, satisfação,
não tive dúvidas:
agarrei as duas e afoguei os dois
olhares no rio que eu tanto amava!
Esse é o motivo do meu nome,
Exu do Rio, porque eu matei minha
mulher,
minha amante e meu filho afogados.
Mas não é por isso que
eu trabalho como
Exu hoje na Umbanda, quer dizer, não
só por isso. Eu cometi muitos
e muitos
erros enquanto encarnado e agora tenho
que reparar isso tudo trabalhando
aqui. Essa história é
só o motivo do meu nome. E,se
eu fizer direito meu
trabalho, eu posso (depois de muito
tempo e esforço) voltar como
boiadeiro,
buscando sempre reparar o meu mal,
ajudando os outros.”
Terminada essa
interessante e triste comunicação,
fiquei olhando por algum
tempo para seu Exu do Rio, que logo
soltou aquela sua gostosa gargalhada
e
disse:
- “Bão, fio, isso é
passado, e agora nós temos
mais é que viver o presente.
E ta na hora de eu í me embora,
porque já tão mandando!
Sarabumba, rapaz!”.
- Sarabumba, meu pai.
E lá se foi o “Coroné”!
Edgar Cavalli
Junior (Juca), gira de sexta-feira.
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