Recebi
seu nome, depois de três
anos trabalhando com ela, no
meio da rua. Do nada, no meio
da XV de Novembro, sinto sua
aproximação. “Minha
mãe, já que a
senhora está aqui, não
gostaria de aproveitar e me
dizer seu nome?” E escutei:
“7 Caveiras”. E
só. Fiquei super feliz.
Algum tempo depois, num sonho
daqueles que só a Umbanda
nos dá, daqueles em que
saímos de nós
mesmos e continuamos trabalhando
junto aos espíritos maravilhosos
do Terreiro, ela completou a
mensagem. Tomando-me pela mão,
me leva até o ponto do
Seo 7 Encruzilhadas. "Hoje
você vai trabalhar aqui.
E meu nome é 7 Caveiras
da Encruzilhada do Cemitério,
mas por enquanto, tá
bom 7 Caveiras mesmo. Eu trabalho
da terceira encruzilhada depois
do portão do cemitério”.
Quando das primeiras incorporações
ficava constrangida: por mim
e por ela. Tocado o ponto de
Dona Maria Molambo, eu saía
me contorcendo e gargalhando
(muito tempo depois descobri
o porquê dessas gargalhadas
e porque vinha no ponto da Dona
Maria Molambo). Pedia que ela
não chegasse tão
‘aparecida, pois queria
ajudar quietinha, sem ninguém
me ver. Muitas vezes camboneei
em gira de Exu, para não
passar por isso. Nessa mesma
época, eu camboneava,
por vezes, uma Pombagira chamada
Dona Ana Rosa, com a qual tenho
uma história importantíssima
em minha vida. Em certo dia,
camboneando Dona Ana Rosa, acontece
algo maravilhoso. Ela se levantou
e colocou seu lenço sobre
os ombros de sua médium
e enquanto encostava sua cabeça
na minha, trocou de cavalo.
Ali estava eu, tremendo muito
e incorporada com a Pombagira
que tanto amava e a quem sempre
recorria. A sensação
que tive foi algo espetacular.
A luz daquela mulher era tão
gigantesca, que não cabia
em mim. Saí do terreiro
levitando, cantando e pulando.
Essa era a energia daquela Pombagira!
Luz e alegria! Fiquei maravilhada
com o que senti. Os Exus são
seres de muita luz! Ninguém
me contou, eu vi! Por minha
ligação com ela,
sempre que podia, levava flores
para Dona Ana Rosa, lhe fazia
entregas, pedia e agradecia.
Depois de um tempo, Dona 7 Caveiras
não chegava mais rindo
e me explicou dentro de minha
alma: queria que eu perdesse
a vergonha de incorporar e não
precisava mais chegar fazendo
estardalhaço. Tratamento
de choque. Depois de um tempo
me acostumei com suas risadas
e comecei a incorporar sem me
preocupar. Em uma gira me deu
outro importante recado. Chamou
uma irmã de corrente
e disse: “Diga ao meu
cavalo que quero uma entrega
grande. Ela só agradece
a outra e na hora do bicho pegar
sou eu que estou com ela. Eu
fico com o trabalho pesado e
a outra é que ganha flor”.
Naquele dia aprendi que podia
amar outras entidades, mas devia
cuidar daqueles que se dispunham
a me cuidar e que por algum
motivo que desconheço,
se tornaram responsáveis
pelo meu desenvolvimento. Ela
era a responsável por
mim e era quem me agüentava.
Fiz a sua entrega e passei a
me dirigir a ela em hora de
aflições. Como
disse de início, seu
nome só veio muito tempo
depois.
Já no toco, ficava me
questionando sobre algumas coisas.
Dona 7 Caveiras era muito querida
com os consulentes, delicada
até. Cuidando sempre
da forma certa de falar, pra
não magoar. Pensava eu:
“ela é muito delicada
pra uma pombagira caveira. Será
que é mesmo Caveira?
Ela deve ser mais brava, mas
na 3ª energia fica mais
tranqüila. Eu é
que fico cuidando com o que
digo às pessoas”.
Que ilusão, eu achando
que EU deixava a pombagira mais
amorosa com as pessoas!
Há pouco tempo tive permissão
de fazer uma psicografia. Queria
saber mais sobre ela. Não
entendia o porquê de seu
ponto riscado ter 7 cruzes e
não 7 caveiras que era
seu nome. E como ela tinha pedido
uma capa ao Seu Tranca Ruas
das Almas e ele tinha autorizado,
queria saber a cor pra que mandasse
fazer. Esse era o meu objetivo,
mas ganhei muito mais. Relato
abaixo o que transcrevi ao Pai
Fernando após o contato:
“Pai Fernando estou escrevendo
ainda sob impacto e vibração
da mensagem deixada pela Pombagira
com quem trabalho, Dona 7 Caveiras
da Encruzilhada do Cemitério.
Pedi que ela me falasse sobre
a cor de sua capa e confirmasse
o ponto que normalmente risca
e qualquer outra mensagem que
quisesse me dar. Ela primeiro
me passou um ponto cantado e
depois comecei a psicografar.
Ela explicou porque sua capa
é preta por fora e vermelha
por dentro. E enquanto escrevia,
a vi no cemitério. Usava
uma capa que cobria a cabeça
também. Sua saia tinha
muitos pedaços de esqueleto
amarrados, como amuletos e que
faziam barulho quando andava.
Enquanto ela falava sobre sua
atividade fui tomada por uma
emoção tão
forte...eu estava com ela, sentindo
a sua história e sua
emoção ao contar
sobre o que faz. Chorei convulsivamente
enquanto escrevia, mas com a
certeza absoluta que era a emoção
dela que eu compartilhava. Ainda
to impactada. As imagens tão
emocionantes do momento em que
foi resgatada e do tipo de trabalho
que faz a partir do que vivenciou
após seu desencarne são
de cortar o coração
e ao mesmo tempo acolhedoras,
confortadoras...não sei
definir...sinto dela um acalanto,
um carinho, um abraço
tão quente e aconchegante...como
um colo de mãe depois
de um período de solidão
e frio. A imagem que tive foi
do Seu Tranca Ruas das Almas
e da Dona Maria Molambo a resgatando.
Logo depois, a vi resgatando
uma outra pessoa de seu túmulo,
senti a compaixão e a
emoção que sentia
ao se lembrar da situação
idêntica em que estava
quando foi resgatada. Ela chorou
e eu também. Dentro da
cova estava uma pessoa que como
ela ficou anos presa ao seus
restos..senti o desespero, tristeza,
abandono e muito frio...solucei
no momento em que ela era puxada
de sua cova por Seu Tranca Ruas
e Dona Maria Molambo. Senti
a mudança do frio extremo,
(frio do coração,
da alma dela, da solidão,
do corpo) para o aconchego dos
Exus. Vou transcrever o que
ela me ditou:
“Cravo é flor de
morto. Vermelho é a cor
que ilumina a escuridão.
A única cor que ilumina
os perdidos. Não venho
condenar. Venho acolher e resgatar.
No cemitério, ofereço
minha capa e luz para dar luz
aos que desistiram. Luz e proteção
aos que querem se levantar.
São os ossos dos perdidos
que carrego comigo, para que
se lembrem de como eram quando
os resgatei. Cada um deles deixa
comigo um pedaço do seu
esqueleto na promessa de juntos
trabalharmos em prol de outros.
Suas dores são minhas
dores, porque já estive
subjugada pela dor. Sei o que
é estar em desespero
e só. Carrego os ossos
para me lembrar da dor.”
A visão que tive foi
emocionante. Ali, onde ela mesma
sofreu por anos sozinha, presa
aos seus restos mortais, agora
resgatava outros, em situação
semelhante. Para se ter uma
vaga idéia do que senti,
podem-se imaginar paralelos.
Sentir seus ossos congelarem
de frio e encontrar o calor
de uma lareira, ou quando se
encontra uma mão amiga
quando já se sentia que
ninguém mais no mundo
se importaria com você
ou como quando estamos tão
carentes, sem amor e recebemos
um colo de Preto Velho. Colo
de Pombagira! Colo de amor,
carinho e calor irrestritos.
Quando nada mais no mundo existe,
quando se está à
beira da loucura da solidão.
E essa foi a lição
mais preciosa que recebi. Lembrei
da luz que vi anos atrás
de Dona Ana Rosa e o amor incondicional
que senti de Dona Sete Caveiras
linda e amorosa que, graças
a Deus, cuida de mim. Refleti
sobre esse amor. Refleti sobre
a ingenuidade que tive em achar
que era eu que infligia cuidado
e delicadeza às suas
palavras para os consulentes.
Refleti sobre o quanto sabemos
pouco destas entidades maravilhosas
e que talvez eles assim o queiram.
Dizem que são as entidades
mais próximas de nós
encarnados. Sinto-me há
anos- luz de Dona 7 Caveiras!
A respeito e a amo demais e
sei que quando chegar a minha
hora de passar para o outro
plano, é ela que quero
encontrar, pois sei que encontrarei
em seus braços o amor
e o calor que precisarei pra
continuar minha caminhada!
E esta amorosa pombagira me
disse, com aquele jeitinho todo
cuidadoso, sem querer me magoar
por me dizer o óbvio
quando lhe perguntei o porquê
das 7 cruzes em seu ponto riscado:
-- Minha filha, o que é
que tem embaixo de 7 cruzes?
-- É minha mãe,
tem 7 caveiras...
E lá se foi ela, cuidar
de suas caveiras e de todos
nós. Podia ouvir em minha
alma o tilintar dos ossinhos
amarrados em sua saia e seu
cândido ponto que nos
ensina que se pode ser forte
e amar. Amar demais!
Crec, crec, crec, são
as caveiras da Dona Sete (2x)
Numa mão traz seu tridente
e na outra uma flor. No tridente
sua força e no cravo
seu amor.
Crec, crec, crec, são
as caveiras da Dona Sete (2x)
Desirée Varella
Bianeck
|
 |