Se
é pra vir, venho direto
na cangota.
É assim que eu funciono.
Comigo as coisas são
rápidas, não gosto
de enrolação.
E gosto de respeito.
História
Minha mãe nasceu em
Minas. Só que ela, coitada,
não tinha conhecimento
da vida. Então, nas viagens
dela, ela me largou mais pra
cima, na Bahia, com os homens
que vendiam crianças.
Vendiam meninas como eu, pra
outros homens cuidarem. - Cuidar
da maneira deles, não
é? - Só que eu
cansei dessas coisas. Peguei
um navio daqueles que transporta
cereal. Fugi à noite
e esperei no mato até
de dia cedo para sair até
o navio. Assim eu cheguei no
Rio de Janeiro nos tempos antigos;
nos tempos dos finais 'zero
zero'.
Quando cheguei, não
sabia o que era aquilo tudo.
Então comecei a fazer
amigos que me levaram para os
caminhos errados - até
porque eu tinha que ir para
qualquer caminho, porque não
tinha caminho nenhum.
Aí, na vida eu conheci
mais do que devia.
Muito cedo, tudo que eu tinha
dentro foi embora. Aí,
também nunca tive muitos
homens, fora os que eu queria
rapar. Essas coisas do amor,
eu nunca entendi direito o que
eram. Só entendi depois
de morta. E não tive
muita escolha pra ter sentimento,
então eu fui como achava
que devia ir.
E também fiz muita coisa
errada.
Matei muito gringo por dinheiro...
Rondava o cemitério perto
do porto e lá eu ficava.
Como eu também não
conhecia as coisas, usei do
que eu sabia fazer, que era
às vezes dar uns coices
nas pessoas na Capoeira pra
ganhar o que eu queria. Eu participei
das rodas pra lutar, não
pra dançar, nem pra gingar.
Eu usava as navalhas sempre
que preciso. Sempre que eu precisava
e que achava que eu precisava
- pra mim tudo era motivo para
usar. E eu não tinha
só uma, eu tinha três.
Duas nas pernas e uma atrás.
Porque quando você dança,
quando você luta, você
pode pegar de vários
lugares as navalhas.
Então, eu ficava rodeando
aquele cemitério e me
escondia no porto. Seguia no
meu dia a dia, com os peões,
os homens, as biritas. E sempre
na rua. Os lugares onde eu dormia
também eram na rua. Perto
do porto - que é de lá
que eu venho, da linha do mar.
Assim eu fui até o dia
em que um homem - que eu já
encontrei - me rapou por trás
e me degolou inteira! Mais uma
cicatriz.
Então eu fiz da minha
vida, o meu trabalho, para poder
evoluir.
(Se Oxalá liberar, não
é?)
Quimbanda
Cheguei na Quimbanda com muita
luta também, mas sem
navalha. E essa eu tive que
lutar no mental. Tive que lutar
contra o meu mental para ir
chegando nos patamares onde
já cheguei. É
difícil, mas se consegue.
E eu peguei o cavalo bem por
isso, porque ela achava que
não conseguia. Eu vim
mostrar pra ela que ela podia
Eu agora estou ganhando meus
pontinhos, me ajudando. A menina
me ajuda também - pra
poder ajudar os outros - e assim
todo mundo se ajuda. E é
só ajudando os outros
que eu consigo o que eu quero.
Às vezes a gente não
entende direito que precisa
trabalhar com amor. Mas quando
você entende, fica mais
fácil alcançar
os lugares que tanto quer, seja
onde for. Eu tenho muito ainda
pra fazer. Ajudo as pessoas
que aqui na carne precisam;
e elas às vezes é
um pouco mais fácil de
ajudar quando elas querem. Os
espíritos algumas vezes
têm outras coisas envolvidas.
O tempo - o tempo que não
é do relógio -
mas um tempo maior, que às
vezes tem que esperar... Mas
à maneira do possível,
quem eu posso, sempre ajudo.
Só não gosto
de exu mandão. Essas
coisas comigo não adianta,
porque quem manda em mim sou
eu. Presto serviço, com
muito carinho, com muita vontade,
porque eu sou muito feliz onde
estou agora.
Vim a mando do Tranca Ruas das
Almas e dela, Maria Padilha
das Almas.
Sobre S. Tranca Ruas das Almas
É ele que libera a Esquerda,
não é? É
claro que ele recebe ordem de
alguém, mas é
ele quem libera. É para
ele que eu trabalho, para ele
e para Maria Padilha das Almas.
E como é que não
pode chamar o protetor de anjo?
Ele me ajudou muito. Nem o cavalo
dele sabe o quanto. Eu tenho
uma relação de
muito dos além-mar com
ele. Gosto muito dele, como
todos os exus aqui que trabalham
pra ele. Ele é o meu
anjo. Ele protege todos nós
aqui.
Tranca Ruas das Almas me ajudou
bastante a subir ponte, as escadas,
para largar as cicatrizes que
eu tive da vida. Não
só das carnes que eu
tive quando era viva. O trabalho
foi muito difícil, mas
eu estou aqui e vou continuar.
Sou bem mais que pomba gira.
O que eu sou e o meu poder englobam
muito mais do que esse nome.
Véu
Elas (D. Maria Padilha das
Almas e o cavalo) têm
vontade de que eu largue as
navalhas e de que eu cure as
cicatrizes. Para eu ser um pouquinho
mais amorosa. Mas sabe, isso
eu já sou. Só
que muito lá dentro,
guardado a sete chaves.
Também eu espero um
dia poder largar tudo e não
precisar de nada. Mas, como
eu disse, às vezes quem
vê se assusta. Até
na vida que eu levava, tinha
que botar o véu. Não
era dessa cor, mas era um véu,
para os homens não se
assustarem com a minha cara.
Para eu ter todo esse domínio,
tenho que ralar muito, trabalhar
muito, me dedicar muito. Eu
não durmo, entende?
Domínio
Esse é o meu domínio
(ponto), e ele engloba várias
coisas.
Isso que você vê
são todas as esquinas
que você pode imaginar.
Estão todas aqui - pelo
menos as que eu domino. E são
várias. Porque isso aqui
é o simbólico,
pra dizer quem eu sou. Mas todos
esses quadrados têm outros
quadrados. Essa cruz você
já entende. É
pra quem eu trabalho, pra quem
eu sou e da onde as almas vêm.
E esse (navalha) é pra
dizer que quem manda aqui sou
eu. É o ponteiro. Porque
isso é que é pomba
gira.
Os ponteiros eu boto conforme
é preciso - e também
quando eu preciso modificar
as energias. Às vezes
precisa liberar aqui, e ali
tem que segurar. Como eu disse,
a água corre rápido,
mais do que o pensamento. Então
as águas vêm antes.
E eu é que veto aqui
as coisas, veto e libero.
As caveiras são minhas
amigas. Então elas também
trabalham comigo e pra mim.
Esse ponteiro aqui é
do Tata Caveira. Ele era muito
apegado e queria que tivesse
esse ponteiro dele no meu ponto.
Aí a gente conversou
e eu decidi colocar ele aqui
ó, no portão entende?
Porque com as ajudas a gente
consegue chegar em outros lugares.
Corações
Tem meus corações.
Os coraçõezinhos
que às vezes eu desenho
no meu ponto – e nas velas.
Mas assim muito discretamente,
pra eu não perder a minha
pose. Porque sabe como é,
quando abaixa demais, mostra
a bunda - como eu gosto de dizer.
Então, para as pessoas
acharem que eu estou bem lá
por cima, sem mostrar a minha
bunda, eu às vezes disfarço
meus corações.
(Eles são símbolo
para) O amor. Para ter humildade
no coração. Para
saber até o que é
o amor e dar pro outro. Eu agora
estou no tempo do amor, da luz
do amor. Então eu tenho
que distribuir isso para as
pessoas, não é?
Tanto pra você, que está
na minha frente, quando pra
menina aqui e como pra todo
mundo que arria na minha frente.
São as almas que eu sirvo.
Foram elas que me ajudaram.
Falange
Eu, Maria Navalha, venho do
porto, na linha que vem por
Iemanjá – esse
é o orixá que
me traz. O poder da água,
da transformação.
Meu cavalo sempre teve pavor
de navalha e eu venho pra curar
ela. Como o orixá mandante
dela também. Os orixás,
como as entidades, vêm
cuidar dos cavalos, vêm
fazer com que eles entendam
o que eles têm para dar
nessa vida. E a menina é
amor - e é isso que a
minha falange vem distribuir.
Depois de ter penado muito,
sem saber o que é amor
na vida e também depois
dela, venho ensinar isso, uma
coisa que nunca tive. Você
já imaginou isso? É
bastante difícil. Tem
que ter muito entendimento,
tem que ter muita compaixão
consigo próprio pra poder
trabalhar na falange que é
a minha.
Quem faz parte
A prioridade é das mulheres
- porque eu sou uma mulher -,
mas também os homens
ajudam. Embora a gente ajude
mais os homens.
Fazem parte esses espíritos
que estavam no caminho para
evoluir nesse tempo do agora.
Para poder conseguir fazer com
que as falanges da luz, do bem,
melhorem cada vez mais, para
que fiquem cada vez maiores
os trabalhos da luz. Para todo
mundo ter a mesma sorte que
eu. Porque tem muita gente que
quer ser ajudada no plano espiritual.
Tanto quanto os encarnados.
E a vida é o eterno auxílio
de compaixão em qualquer
plano que se tenha.
Na Terra não é
todo mundo que entende. Ás
vezes até eu não
entendo. Até por isso
eu quero às vezes dar
umas tragadinhas, para poder
amenizar as coisas que eu ainda
não entendo.
Eu gosto do que é fio,
reto. Corta sem ninguém
ver.
É assim que é
meu movimento nesses lugares,
ninguém nem sabe que
eu passei.
A encruzilhada
As esquinas são por
onde eu me movimento.
Sabe ar? Quando você
vira correndo pelas esquinas,
não faz um vácuo?
É isso. Em todo lugar
por onde todo mundo já
passou tem uma esquina. Tudo
aquilo fica. O cheiro das pessoas,
o que as pessoas pensam, o que
as pessoas comeram. Então
pra mim, quando chego no plano
da Terra, é pelas esquinas
que me movimento. Para mim é
fácil. Aí dá
pra fazer os trabalhos, cuidar...
Quando as pessoas precisam de
um trabalho meu ou quando sentam
na minha frente, eu sempre digo
para elas virarem a esquina.
Para elas andarem. Porque aí,
quando vira, os pensamentos
mudam. E assim eu consigo tirar
o que não presta das
pessoas sem nem elas verem.
É como abrir navalha,
filha, é a virada da
esquina. Sempre fica cheiro,
fica tudo. Porque as mulheres
gostam de entrega nas encruzas?
- Eu já prefiro na Cruz
das Almas, mas todo mundo gosta
de uma esquininha, não
é? - E tem esquina no
mundo inteiro, filha. E não
só nesse mundo aí
que você conhece. Até
nos outros mundos, tudo é
uma grande esquina. E nas esquinas
é onde eu me viro. Sempre.
Eu, com um ponteirinho e uma
vela, vou longe.
Agradecimento
As pessoas gostam do que eu
faço e trazem presente,
sabe? Já ganhei até
brinquinho brilhante. Isso não
é muito da minha preferência,
mas eu guardo tudo com muito
carinho. Isso é uma maneira
também de trabalho: agradecimento
materializado. Mas eu não
uso nada disso. Eu, com os meus
ponteiros e as minhas velas,
estou bem feliz. Às vezes
sinto falta dos dadinhos, mas
eles estão aqui. É
uma coisa que eu ainda tenho
que melhorar, o apego com os
dadinhos. Eles me ajudam a trabalhar
também, mas é
mais apego.
Dadinhos
Eu jogava nas brincadeiras,
pra dar umas risadas da vida.
Às vezes passava as tardes
jogando isso, nas brincadeiras
com amigos. E quase sempre,
com as crianças. Fora
elas, a minha vida era muito
triste. Elas que me alegravam.
Sempre gostei muito das crianças.
Os outros, maiores, nunca me
fizeram muito bem. Acho que
eles me achavam muito feia.
Ou às vezes me tratavam
mal porque eu era da rua.
Hoje a minha ligação
com as crianças é
com as crianças erê.
Elas têm muita luz, eu
gosto muito delas.
Amigos
Eles foram meus amigos na vida
da carne. Os únicos com
quem eu não batia de
frente eram ele (S. Zé
Pelintra) e o Zé da Cova.
O segundo, o Zé da Cova,
era tão solitário
quanto eu. Entendia o que era
ficar muito tempo sem falar
nada. Hoje ele é um exu,
exu de cemitério.
Às vezes as coisas falando
são diferentes das coisas
sentindo.
Sobre a luz
Encontrei ele (o homem que
a degolou) lá, por onde
eu ando. E agora quem cuida
dele sou eu. O meu problema
maior era que eu tinha que cuidar
dele com amor. Ele está
meio perdido - mas como eu disse:
é o tempo dele. Um dia
ele também vai ser como
eu e vai poder trabalhar também.
Agora lido bem com isso. Tenho
que. A luz apazigua qualquer
coisa. Qualquer cicatriz, qualquer
coisa ruim, qualquer pensamento
ruim. Tudo de ruim, a luz quando
bate leva. Porque vem trazendo
coisas que a gente nunca mais
quer largar.
(O relato acima é
fruto de uma entrevista realizada
na gira de Quimbanda de 17 de
maio de 2010, no Terreiro do
Pai Maneco.)
|