Inconformado
com o que se passava em sua
tribo, o robusto e taciturno
índio decide afastar-se
dela, de seus amigos, de sua
família e viver isolado.
Julgava ser impossível
que o seu povo não lhe
ouvisse e continuasse em profunda
desorganização.
Enquanto outras tribos da região
que hoje é conhecida
como Mato Grosso do Sul cresciam
e se desenvolviam, a tribo dos
Xererês estava em imensa
confusão. Não
dava mais para ele. Tinha mesmo
que viver sozinho. Estava decidido.
Pegou sua canoa e desceu o rio
em busca de um abrigo seguro
onde ele pudesse viver isolado
do mundo. Logo encontrou uma
caverna e próximo a ela
uma cachoeira. Ali, em sua cachoeira,
ele reinava absoluto. Sem oposições,
sem ter que se explicar com
ninguém, sem ter que
brigar para provar que estava
certo. Ele sabia que estava,
mas não conseguia convencer
os seus companheiros de que
a tribo precisava mudar. Não,
realmente ele não precisava
de seu povo. Podia viver em
paz, sem aborrecimentos e em
harmonia com a natureza. Aprendeu
a comer frutas, raízes,
caules, sementes e descobriu
que conforme as necessidades
do corpo deve-se ingerir uma
ou outra parte do vegetal. Pescou
e nadou no rio, tomou banho
na cachoeira, fez apenas o que
queria. Enquanto assim vivia
aumentava o ódio pela
sua tribo, pela arrogância
de seus líderes, pela
ignorância daqueles que
não lhe queriam ouvir.
Um dia, porém, alimentado
pela raiva e com a certeza de
que seu povo não o merecia,
aparece em sua frente um outro
índio envolvido por uma
luz forte mas não ofuscante,
como que surgindo numa manhã
de intensa neblina. Não,
não era real. Ou melhor
era real, mas não era
material. Só podia ser
um ancestral que vinha para
confirmar aquilo que ele já
sabia: tinha mesmo que viver
só. Mas, ao contrario
do seu pensamento, o espírito
ancestral lhe ordenava:
- Volte já! Tua tribo
precisa de você. O teu
ódio só faz piorar
as coisas. Limpe o teu coração
e retorne. Ame o teu povo e
aprenda a conviver. De hoje
em diante viva coletivamente.
A maior covardia é fugir
da vida. Volte e entenda o teu
povo.
Aquelas palavras pronunciadas
com austeridade e determinação
não lhe soavam como uma
ordem, mas sim como um conselho.
Ele não sabia o por que,
mas um profundo arrependimento
sentiu e desatou em pranto pela
sua covardia. Afinal tinha fugido
da vida. Reconhecia isso agora.
Decidiu voltar imediatamente.
Tomou sua canoa e remou rio
acima. Chegando em sua tribo
foi recebido com imensa alegria
por todos e desabou em pranto
intenso novamente. Pensou como
pode ter sentido tanto ódio
de um povo que lhe amava. Arrependeu-se
novamente e desse arrependimento
surgiu um novo homem. Agora
sim queria ser chamado de Cachoeira
para que jamais esquecesse dos
meses em que viveu numa caverna
e do injusto ódio que
sentiu.
De volta aos seus e com trabalho
longo e incansável, reorganizou
a tribo. Quando morreu lá
estava a sua espera aquele ancestral
guerreiro que mudou a sua vida:
-Seja bem vindo Caboclo da Cachoeira.
Este ancestral chamava-se Akuen.
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