Nosso terreiro já estava pequeno para a quantidade de médiuns que formava a corrente. Era nossa intenção construir um maior, no terreno que tínhamos recentemente comprado, e para isso contávamos com uma doação governamental, que para variar, não saiu.
Diante da frustração da tentativa de obter a ajuda pública, pedi ao Roberto Ribas, presidente da nossa organização jurídica, para pedir uma orientação ao Caboclo Akuan, na qualidade de dirigente espiritual e espírito iluminado.
- Peça uma luz, Ribas. Em meu e no seu nome. – expliquei.
Quando ele incorporou, sentado já no toco e com seu ponto firmado na tábua, o Ribas sentou na sua frente.
- Meu filho, por que está tão nervoso? Ele perguntou, calmamente.
- Caboclo Akuan. Eu e seu cavalo estivemos conversando, e estamos com um problema enorme. Esperávamos a doação de um pataco - dinheiro, no linguajar dos terreiros, para construir sua casa nova, e não conseguimos. E essa era nossa esperança. Falou, cheio de preocupação.
- O que? Você ia construir minha casa com a mentira? Retrucou, fechando uma carranca.
- Não entendi, Caboclo. Respondeu o Ribas sem jeito.
- Esperança é a arma dos covardes. Ela acoberta o comodismo e protege a preguiça. Troque a "esperança" por "determinação", que tudo vai dar certo. – enfatizou, enérgica e duramente.
No intervalo da gira, chamei alguns companheiros e contei o fato. Estávamos no meio do mês de Novembro. O José Gonçalves, um dos companheiros, antes de iniciar a segunda parte dos trabalhos, pediu a palavra, e falando à corrente e aos visitantes, comunicou solenemente:
- Depois da gira de hoje, teremos mais duas, sendo a última a de encerramento. O terreiro entrará em férias neste fim de ano, reabrindo suas portas na primeira segunda-feira do mês de fevereiro. Só que estaremos no terreiro novo, no bairro da Santa Cândida.
Um frio correu minha espinha. Perguntei, baixinho, só para ele ouvir:
- Você é louco, Marreco – o apelido do Gonçalves. Como vamos construir em dois meses um terreiro?
- Se o Caboclo Akuan falou, vai dar certo. Respondeu, cheio de fé.
No dia seguinte, minha mulher e eu procuramos nosso sobrinho Gustavo Guimarães, arquiteto, e com ele, saímos em busca de uma galpão de cimento, pré-fabricado, o limite máximo da minha imaginação. Deixamos acertado numa fábrica a compra de um deles, e só não fechamos o negócio porque já era tarde, ficando o acerto final para a manhã seguinte.
Confesso ter dormido muito mal, excitado pela realização do negócio e a expectativa de um terreiro novo. Acordei cedo, e, como sempre faço, estava lendo o jornal no desjejum. A Yedda – que não teve insônia, levantou-se depois de mim. Sentou-se à mesa, e abrindo o jornal falou:
- Fernando, tive um sonho, com um tipo de construção para o terreiro que pode dar certo e é barata.
Explicou o tipo que havia sonhado. Era uma construção redonda, com a estrutura do telhado aparente, com grossas toras de eucaliptos.
- O terreiro hoje é uma tapera. Construa, então, uma tapera de luxo, brincou.
- Estou em duvida. Acho esquisita. Respondi.
Determinação! Lembrei dessa ordem dada pelo Caboclo Akuan. Telefonei para a casa do Gustavo. Ele atendeu. Rapidamente informei:
- Gustavo, houve mudanças nos planos. A Yedda sonhou. Falei, sem contar com o que foi.
- Se a Yedda sonhou, já passo aí em tua casa. Respondeu, rindo.
E o terreiro de alvenaria, redondo, com telhado aparente de eucaliptos, aconchegante, como a Yedda sonhou, construído com recursos obtidos junto a comunidade, e com o empenho dos participantes do grupo, abriu suas portas no dia 1 de Fevereiro de 1997 (? Ou 8), véspera do dia de Iemanjá. Dois meses depois que o Caboclo Akuan declarou: a ordem é a determinação!
Nesse dia, risquei do meu vocabulário, a palavra "esperança"!