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A Umbanda no Paraná
   
   

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Associação Espiritualista Mensageiros de Aruanda

- Informações Principais

Nome: Associação Espiritualista Mensageiros de Aruanda (Assema).
Endereço: Rua Marcilio Dias 433, Bairro Alto.
Fone: (41) 8852 1200.
Site: www.assemacuritiba.com

Atendimento: aos sábados, das 16h às 21h.
Número de médiuns: 30.

Orixá mandante: Iemanjá.
Entidades mandantes: Os pretos velhos Pai Tomás, Vó Toninha e Vó Cambinda.
Dirigentes: Fátima e Marco Boeing.

Entidades do pai de santo: Pai Tomás, Exu Sete Encruzilhadas, Marinheiro Dito, Cigano Pablo, Caboclo de Ogum Beira Mar, Caboclo Pantera Negra, Caboclo Tupinambá, Exu Tata Caveira e Exu Calunga.

Entidades da mãe santo: Vó Toninha, Exu Veludo, Caboclo Tupi, Cabocla de Iemanjá, Cigana Luiza, Marinheiro Maneco, Seu Sete Cruzes, Erê Vinícius, Caboclo de Ogum Megê.

Hierarquia: um capitão da engoma, uma mãe pequena, duas capitãs.


- História do Terreiro

Marco Boeing trabalha na Umbanda há 27 anos e Fátima há 18. Ambos começaram seu desenvolvimento na casa de dona Isolina (Vó Isolina), Casa do Caboclo Urubatão.

Quando a casa fechou, ficaram cinco anos em outro terreiro. Então passaram a desenvolver trabalhos na residência da mãe de Marco. Depois, como o movimento estava aumentando, passaram a fazer as giras na sala da sua própria casa. Pouco tempo depois, encontraram a casa onde há cinco anos funciona a Assema.

Freqüentador de terreiros desde criança, Marco conta que chegou à Umbanda por conta de uma doença grave que o acometeu. Tão grave que chegou a ser desenganado pelos médicos aos 7 anos. Mas, apesar disso, foi curado num terreiro. Seis anos depois, com 13 anos, voltou a freqüentar a Umbanda e nunca mais saiu.


- Visita à Assema

A gira na Assema começa com uma oração de saudação aos Orixás seguido de um Pai Nosso. Ainda de frente para o Conga, é saudada a proteção da porteira, feita pelo S. Sete Cruzes. Então é feita a defumação tanto da corrente como da assistência, entoada por pontos próprios. Faz-se uma oração para o anjo da guarda e é cantado o ponto para abertura da gira. A engoma é saudada com um belo ponto produzido pela própria corrente da casa. Em seguida, é a vez de Oxalá ser reverenciado com um ponto feito pela engoma.

O trabalho começa efetivamente com a chamada de Oxóssi, quando descem os caboclos para riscar pontos de proteção à casa e aos trabalhos. São quatro pontos que permanecem no terreiro durante todo o trabalho e que ocupam os quatro cantos do espaço onde ocorre a gira. A mãe de santo Fátima é quem incorpora primeiro, o caboclo de Oxossi S. Tupi.

Após firmada a proteção de Oxóssi, começam passes espirituais individuais à assistência, àqueles que querem receber a vibração do Orixá. São passes rápidos, no meio do terreiro, para harmonizar cada um dos presentes. É chamada, então, a subida de Oxóssi.

Na seqüência, é vez de Ogum ser chamado ao terreiro. São quatro os caboclos que incorporaram dessa vez, começando pelo pai de santo. A cada um deles é entregue uma vela vermelha. Nesse momento, eles se viram à assistência, que se levanta para receber o axé dos Oguns. As velas, depois, são dispostas em uma tábua e deixadas ao lado do Congá. É cantado um ponto de vibração de Ogum e depois, seu ponto de subida.

Há uma preocupação constante dos pais de santo e da hierarquia com os demais médiuns de corrente. Ao final de cada incorporação, o meio sempre pergunta se todos estão bem, relembrando-os de equilibrar a respiração. Há também uma jarra de água no Congá, para que os filhos se reidratem durante a gira.

É chamada então a linha dos pretos velhos, entidades mandantes da casa. O pai de santo e a mãe de santo são os primeiros a incorporar, Pai Tomás e Vó Toninha, respectivamente. Em seguida é cantado o ponto para a chegada da Vó Cambinda. Os outros médiuns então vão incorporando na batida da bengala do Pai Tomás. Depois, a assistência é organizada para as consultas e benzidas, pois há, durante a gira, entidades que dão consultas e outras que só dão passes aos consulentes.

Dois filhos de corrente são levados ao meio por uma preta velha, para que ela chame as entidades deles. Uma outra médium recebe um erê, Mariana, que faz um trabalho para uma assistente, com uma flor branca, mel e vela rosa. Esse trabalho fica em frente às imagens de Cosme e Damião até o final da gira.

Ao final das consultas, Pai Tomás se levanta do toco e vem cumprimentar um a um seus filhos de corrente e assistência, inclusive àqueles que estão no jardim do terreiro. Ele é, na prática, quem atende a todos aqueles que vêm a sua casa, sendo chamado carinhosamente de Vô por todos os filhos de corrente. É chamada a subida de Mariana e dos pretos velhos. Pai Tomás permanece em terra, descarregando seus filhos de corrente.

 

É hora do intervalo.

A segunda parte é uma gira de esquerda comandada pelos exus Veludo e Sete Encruzilhadas. O pai de santo se posiciona em frente ao Congá e recebe o S. Sete Encruzilhadas somente com uma batida de atabaques. A mãe de santo, que trabalha com S. Veludo, incorpora com o ponto próprio da entidade.

Em seguida é feita a saudação aos exus e então são chamadas as pombas giras (lá designadas como pombogiras). Quando os demais médiuns incorporam, a assistência é chamada ao meio para receber passes dos exus, de 3 em 3.

Então são chamados os consulentes que querem ser atendidos individualmente pelos exus. Vários deles são levados ao meio para um descarrego diferente, com banho de pipoca e encaminhamento de eguns.

Em seguida Seu Sete Encruzilhadas sobe e o marinheiro Dito (“Benedito dos Santos, seu criado”) é chamado. Segundo Marco Boeing, as linhas neutras geralmente são chamadas depois da esquerda, para a limpeza dos trabalhos dos exus e “descontração” da assistência. O que é cumprido à risca pelo marinheiro Dito, que conversa bastante e oferece da sua bebida à assistência - Boeing afirma que Dito costuma fazer versos e quadras às “moças bonitas”.

Mas a sua subida é logo chamada para que o pai de santo incorpore novamente o S. Sete Encruzilhadas, para um trabalho de descarrego de uma consulente.

S. Sete Encruzilhadas volta pedindo que uma médium acompanhe a consulente, para que esta tome um banho de descarrego com alfazema e boldo no próprio terreiro – esse banho é de produção da Assema e é vendido no local, mas quando é usado em casos de emergência não é cobrado, como ocorreu no dia da visita.

Para continuidade do trabalho, é chamado Seu Capa Preta, que entrega sua guia para uma outra moça que estava passando mal, em razão do descarrego forte realizado.

Assegurando-se de que todos, corrente e assistência, estão bem, é hora de terminar o trabalho da Quimbanda e, antes de subir, Seu Sete Encruzilhadas chama novamente, um por um, os exus dos médiuns para que as entidades descarregem seus cavalos. Somente depois disso Seu Sete Encruzilhadas sobe.

Para encerramento da gira é feito um agradecimento aos exus; também são rezados um Pai Nosso e uma Ave Maria. Então é cantado o Hino de Umbanda. Para a realização do bate cabeça, é cantado um ponto específico, momento em que os filhos de corrente batem cabeça em frente ao Congá de acordo com os Orixás de frente de cada um.

É cantado um ponto de encerramento dos trabalhos e um de agradecimento. São oito horas da noite.



- Depoimento

“Embalado ao som dos atabaques que, muito bem conduzidos pelo capitão Renatinho, enchiam o ambiente de ritmos, presenciei uma gira sem adornos ou indumentárias extravagantes, muito pelo contrário, a simplicidade era a regra. E nessa simplicidade, a gira se desenrolou com alegre harmonia entre os presentes, o clima de intimidade era ótimo. Uma gira de muita força, fazendo-me bater cabeça em um ou dois momentos. Parabéns à casa e seus dirigentes.” Ney Brasil
 

- Conceitos da casa


TRABALHOS SOCIAIS: A Assema realiza um trabalho social no Quilombo Paio de Telha, de Guarapuava. O trabalho consiste em um resgate das raízes africanas, como danças, músicas e cultura em geral. Em Curitiba, realiza campanhas de agasalho, alimentos, etc. O terreiro é filiado à Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS).

ENGOMA: Como preparo, os atabaques tratados com azeite de oliva e então dispostos no sol antes da gira, para que o calor proporcione a afinação dos instrumentos e o amaciamento do couro. A engoma da Assema também cria pontos próprios para as entidades específicas da casa, além de fazer um trabalho de resgate de pontos de linhas e de entidades que foram esquecidos ao longo da história. Esse projeto é realizado junto com os percussionistas do grupo Kundun Bale, de Guarapuava. Na casa, o responsável espiritual pela engoma é o Caboclo Aymoré – e, de vez em quando, algumas orientações são dadas por Vó Toninha.

FESTAS: São realizadas homenagem a Orixás e linhas, com entrega de amalás, e nenhuma data passa em branco. Mas as maiores comemorações são as homenagens aos pretos velhos, a festa de aniversário da Assema (27/07), dia de Cosme e Damião, e uma festa cigana realizada no último trabalho do ano.

GIRAS ESPECÍFICAS: A casa tem o costume de realizar algumas giras específicas. Normalmente, o último trabalho do ano e a festa de aniversário da Assema são celebrados com trabalho da linha de ciganos. Para abrir os trabalhos de cada ano, é feita uma homengam a Oxóssi. A Assema procura fazer pelo menos uma vez por ano um trabalho de praia. Os trabalhos de mata também são realizados, mas com uma freqüência maior. Durante todo o ano, os sábados do mês de lua cheia são comemorados com giras de cigano. E, a pedidos das entidades, 3 ou 4 vezes ao ano, nos dias de trabalho, são realizadas giras fechadas, para cuidados específicos dos filhos de corrente, desenvolvimentos, etc.

ANDAMENTO DAS GIRAS: Todas as giras se dividem em duas partes; na primeira parte sempre trabalham caboclos de Oxóssi e os pretos velhos. Para a segurança dos trabalhos, logo no começo da gira, os caboclos Pantera Negra, Tupi, Aymoré e a cabocla Jurema riscam quatro pontos que ficam um em cada canto do terreiro, que lá permanecem durante toda o tempo. Entre as duas linhas permanentes na gira, sempre é chamada uma linha de Orixá. Na segunda parte são chamadas a esquerda e uma linha neutra.

COMO PARTICIPAR DA CORRENTE: Marco Boeing diz que não há uma regra de procedimento fixo para entrada de médiuns na corrente. Os critérios variam de pessoa a pessoa. Porém, dois procedimentos sempre ocorrem: primeiro, deve haver a manifestação do interesse de integrar a corrente. Mas há um “namoro” longo para que isso ocorra de fato. Cabe ao interessado acompanhar as giras por um certo tempo na assistência, que pode ser de até um ano. Depois, a entrada do novo filho deve ser consentida por uma “tríade” de pretos velhos - Pai Tomas, Vó Toninha e Vó Cambinda. São eles que fazem o convite formal para que alguém integre a corrente. Mas geralmente o desejo inicial de vestir o branco deve partir da pessoa. Na Assema não há restrição de idade para integrar a corrente.

CUIDADOS COM OS MÉDIUNS: Os capitães e dirigentes sempre cuidam dos médiuns, mesmo quando incorporados. E pode-se observar uma jarra de água mineral no Congá, para que ninguém descuide da hidratação, uma vez que o trabalho pode ser cansativo.

AMALÁS E OFERENDAS:
Amalás, quando entregues na mata, são feitos de acordo com as restrições do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama). Quando não, é recomendado aos médiuns fazê-los na frente do Congá. Os consulentes somente podem realizar entregas em frente ao Congá durante a gira e quando orientados pelas entidades.

CAMARINHAS: A camarinha, realizada por todos os médiuns pelo menos uma vez ao ano e ao entrarem para a corrente, dura 12h e pode ser feita coletivamente. É esse ritual que marca a entrada de um filho para a corrente. A primeira camarinha de cada ano é feita com os capitães e as últimas são dos pais de santo.

GUIAS: A casa não usa muitas guias. A guia da casa é dada ao filho de corrente no dia da realização da primeira camarinha. Essa guia é composta por contas das cores que representam os 7 Orixás, além de peças referentes aos pretos velhos e crianças. Há também uma guia para representação da hierarquia, que é usada atravessada, cobrindo o peito na diagonal. Como a casa acredita na idéia de que os filhos devem reverenciar a todos os Orixás igualmente, assim não há obrigatoriedade de identificação, por meio de guias, dos filhos de cada Orixá - mas os que desejarem, têm permissão para usar. Para saber o Orixá de frente de cada filho da casa, joga-se obi ou búzio.

AMACI: Não é esse ritual que marca a entrada de um filho na corrente. Na Assema, o amaci funciona como uma limpeza do médium. Assim, duas ou três vezes no ano, o caboclo Tupinambá vem realizá-lo, lavando a cabeça de todos os filhos da casa.

PONTOS RISCADOS: Não é obrigatório que as entidades se identifiquem de pronto, por meio de pontos riscados. Vai do julgamento delas a necessidade de riscá-los ou não. Os pontos das entidades dirigentes são descarregados no dia seguinte à gira. Eventualmente, o ponto é descarregado na semana seguinte.

MATERIAIS: São fornecidos pela própria Assema. Há uma sala ao lado onde são armazenadas velas, pembas, ponteiros, tábuas, bebidas, etc. Esse “estoque” é mantido pelas mensalidades de cada filho, por doações voluntárias da assistência e pela venda de produtos da casa (banhos de descarrego, cd’s com pontos e rifas). Não é feito nenhum tipo de cobrança pelos trabalhos.

RESTRIÇÕES: Há controle da ingestão de bebida e do consumo de fumo das entidades, evitando abusos. Os médiuns são orientados para não exagerar nos adereços das entidades. As mulheres não são obrigadas a usar saia. É recomendado que os médiuns de corrente não “puxem” entidades que se manifestem nos consulentes. Caso alguém perceba que alguém da assitência está passando mal, ou vibrando, deve ser chamada uma entidade de comando.

PREPARAÇÃO: Não há restrições aos médiuns quanto à alimentação antes da gira; a orientação é de que não se cometam excessos. É recomendado o banho de descarrego e oferecer uma vela ao anjo da guarda, que é acesa em uma mesa ao lado do Congá.

CAMBONES: Os cambones são do terreiro, assim não há uma pessoa específica para auxiliar cada entidade. Duas moças revezam-se na organização dos materiais utilizados pelas entidades.

ESTRUTURA: Há, no jardim, uma casa de preto velho e logo na entrada do terreno encontra-se a tronqueira. Na firmeza do meio da casa estão os símbolos e materiais de alguns Orixás - esta firmeza é renovada constantemente. A casa ainda não tem roncó em virtude do imóvel ser alugado e do fato dos dirigentes da casa adotarem a postura de que “não há nada a esconder”.

ORGANIZAÇÃO: A casa é regida por uma organização formal, contando com um Estatuto, e é filiada à Federação Umbandista do Estado do Paraná (FUEP).

EXPECTATIVAS: Para o futuro, Fátima e Marco Boeing esperam que o crescimento da Assema continue a acontecer como agora: com seriedade e dedicação.


- Ficha Técnica:

Textos de: Ana Tezza e Ney Brasil. Edição: Caroline Lipca. Revisão: Ana Tezza.
Fotos: Ana Tezza, Caroline Lipca e Bruno Maestri.